O terreno do lúdico é fértil para a pedagogia. Segundo Priscila Fernandes, coordenadora do programa Educação Infantil do Instituto C&A, nele se desenvolvem memória, raciocínio, habilidades físicas, cognitivas e de coordenação motora. “O [ato de] brincar estimula a imaginação e a sociabilidade”, afirma. Porém, a brincadeira necessita ter intenção, planejamento, ação, avaliação e presença na pedagogia infantil. É uma das principais linguagens da criança, que ressignifica o mundo e constrói suas práticas culturais. “Brincando, [as crianças] expressam sentimentos de forma própria, escolhem e tomam decisões”, comenta Priscila. Por isso, as escolas devem garantir espaços e momentos para brincadeiras livres e dirigidas.

Para fomentar esse potencial, Tuti Belford, coordenadora da Comunidade Cultural e Educativa Vivenciarte, que segue a pedagogia Waldorf, do alemão Rudolf Steiner, propõe um ritmo. “Não rotina – a natureza tem ritmo orgânico, a rotina é burocrática, crianças a detestam e adultos que preservaram alguma inteligência própria também”, considera Tuti. Com base no filósofo alemão Friedrich Nietzsche, ela faz uma ponte com o universo adulto: para Nietzsche, o máximo de maturidade que um homem pode atingir é a seriedade com que as crianças brincam. “Elas significam o que veem brincando, sentem, saboreiam o entorno, desenvolvem seus sentidos, entendem a necessidade e a delicadeza das interações sociais e, com o meio, desenvolvem a fala e a escuta, constroem aos poucos sua racionalidade, sua autoestima, sua confiança em si e nos demais, compreendem os ritmos naturais e sociais”, analisa a coordenadora. Educadores podem aproveitar o brincar, momento em que os pequenos absorvem o mundo e interagem com ele, de forma sadia e harmoniosa, intervir respeitosa e carinhosamente e auxiliar a desenvolver outros olhares se notarem algum desequilíbrio. “A autoconfiança, a criatividade e as conexões lógicas se desenvolvem com o lúdico. Discurso e técnica funcionam menos. A vontade e a curiosidade naturais do ser humano em ação são mais eficazes. Na criança, isso é o brincar”, explica. O educador deve apreciar, acompanhar, confiar na relação com a criança, e não esperar cumprimento de expectativas.

A psicóloga Adriana Klisys, escritora e coordenadora do espaço Caleidoscópio, ressalta que a criança deve conhecer brincadeiras regionais, nacionais e internacionais para alargar a cultura lúdica, um mundo de sua autoria, que contribui para que sejam autores de seu conhecimento. “Brincando, dão cambalhotas para a realidade, desconcertam a seriedade, acordam para os sonhos e têm olhar inaugural”, diz. Ou seja, nesse mundo de faz de conta, a criança pode ir à lua e fazer uma incrível jornada ao seu interior.

Na prática

Priscila propõe a criação de “cantos”: da leitura, do faz de conta, do teatro, da pintura, para desenvolver a memória, o raciocínio, as habilidades físicas e cognitivas, a coordenação motora, além de estimular a imaginação e a sociabilidade. “Elas produzem e transformam a cultura”, considera.

O professor Marcos Garcia, do Laboratório de Materiais e Brinquedos Pedagógicos (Labrimp) da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), diz que a brincadeira é patrimônio cultural. “Ela tem funções sociais. Não é para aprender mais, é parte do universo infantil, não se mede o que desenvolvem nela”. Ele recomenda que a pedagogia e a brincadeira sejam integradas. “Aproveite o que acontece nela nos currículos, explore curiosidades, leituras e trabalhos manuais”, sugere. Para ele, as escolas não podem se atentar somente aos conteúdos, mas têm que preservar o lúdico. O Labrimp desenvolve brincadeiras para que os pedagogos não a vejam só como intuitiva, mas mapeiem o brincar. “Que ela [a brincadeira] não seja só consumista como os filmes estimulam”, adverte. Garcia orienta retomar brincadeiras antigas, experimentação de vários papéis, valorização da cultura lúdica infantil e vivências de danças e músicas familiares em grupo. “Isso vale até o 5º ano”, ressalta.

A pedagoga e educadora Mei Machado destaca a associação do brincar, de Sigmund Freud, com o lirismo: “cada criança em suas brincadeiras comporta-se como um poeta que cria seu mundo próprio (...), ela transpõe os elementos formadores de seu mundo para uma nova ordem mais agradável (...).” Mei ainda comenta que, para propiciar espaço para a brincadeira, as escolas precisam de livre circulação. “Para Piaget, no brincar a criança assimila o mundo à sua maneira, sem compromisso com o real: a interação com o objeto não depende de sua natureza, mas da função atribuída”. Ela acredita que pedagogos atentos podem escolher estimular isso, de forma a propiciar momentos infantis próprios.

O que o brincar estimula:

- imaginação e criatividade;

- desenvolvimento dos sentidos;

- interações sociais e com o meio;

- fala e escuta;

- racionalidade;

- memória e raciocínio;

- habilidades físicas, cognitivas e coordenação motora;

- autoestima, confiança em si e nos demais;

- compreensão dos ritmos naturais e sociais.

Brinquedos enriquecedores

Mei Machado indica jogos de tabuleiro com sequência de 30, que permitem um brincar mediado. “Tabuleiro de dinossauros com desenhos dos próprios alunos e jogos de encaixe atraem”, revela. Ela indica seus papéis preferidos: creative paper, canson, laminado, vegetal e de origami. “Pintar em lixa de madeira e no papel ondulado com escova de dente, pente, rolhas e carimbo provoca diversas ideias”. Mei ainda sugere meia hora de brincadeiras populares semanais, que podem ser ampliadas conforme a concentração da sala.

Para Tuti Belford, rodas rítmicas, jogos de falar, canções, poesia e gestos corporais fomentam diversas possibilidades de maneira livre. “Pedrinhas, folhas de plantas, tecidos coloridos para fantasias, brinquedos de madeira, bonecos e bonecas de tecido – sem excesso de cores e informações – podem criar fazendas, cidades, parques, bichinhos, pessoas, carrinhos etc.”, recomenda.

Adriana Klisys lembra que Leontiev sugere materiais versáteis, “de longo alcance: panos, tocos de madeira e sucatas, que podem ser transformados”. Rolar aros, andar de perna de pau e fazer bolha de sabão são suas propostas. “Sementes, conchas, gravetos, areia, fibras naturais, madeira, terra e água são estimulantes”, afirma. Para ela, a natureza refina a sensibilidade das crianças: “o contato com terra, plantas, árvores e gravetos está ausente em muitas escolas, há grama artificial e solo coberto demais”.

O especialista Marcos Garcia recomenda variedade de brinquedos, espaço disponível, aros e tubos.

 

Brinquedotecas adequadas

Mei chama a atenção para que o ambiente não seja muito quente ou frio. Além disso, segundo a educadora, os objetos precisam viabilizar autonomia, ficar ao alcance, ser dispostos com segurança e provocar acolhimento. “Cantos para desenho com aquarela, cabana, possíveis casinhas e feiras, carrinhos, biblioteca e desenhos de memória fomentam interferência, imaginação e observação”. Tuti recomenda atividades internas e externas.

 

+NA WEB

Brincar e ler para viver: um guia para estruturação de espaços educativos e incentivo ao lúdico e à leitura. Disponível em: www.caleido.com.br/uploads/2/2/8/0/2280950/brincar-e-ler-para-viver.pdf

Almanaque Paralapracá. Disponível em: www.institutocea.org.br/midiateca/40/publicacao/almanaque-paralapraca-realizacao-instituto-ca.aspx

 

Matéria publicada na edição de maio de 2014.

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