Professor incentiva a pesquisa e a iniciação científica e, com a ajuda de jovens estudantes, promove mudanças que trazem benefícios para a sociedade e o meio ambiente

Um professor que se preocupa em ensinar o conteúdo dos livros e das apostilas mas, também, em garantir que os projetos que desenvolve com seus alunos gerem benefícios sustentáveis à comunidade em que vivem. Esse é Gilberto Luis Sousa da Silva, educador de Abaetetuba (PA) que, desde 1993, além de ensinar o conteúdo que “cai na prova”, educa no sentido literal da palavra e vive e constrói, com jovens estudantes, experiências que têm o poder de revolucionar o dia a dia de todos. Com diversos projetos premiados e muitas histórias para contar, em 2015, Sousa da Silva levou para casa mais um troféu. Seus projetos voltados à iniciação científica lhe garantiram o Prêmio de Professor Destaque na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), da Universidade de São Paulo (USP). Sua justificativa para apostar nesse tipo de trabalho é simples: “Alunos que se envolvem com projetos de pesquisa conseguem mudar sua visão de vida, de comprometimento e contribuição com o meio ambiente, a sociedade e o país”, afirma.

Formado em Matemática, com especialização em Ciências, o superprofessor já lecionou em diversas escolas de Abaetetuba, sua cidade natal, mas, desde 2009, atua na Secretaria de Educação do Estado como coordenador do Núcleo de Ciências e Tecnologia, cargo conquistado após a realização dos projetos Biogás e Chuveiro Inteligente. O projeto Biogás teve início em 2004, como um trabalho de feira de Ciências, e foi concebido em conjunto com os estudantes/pesquisadores José de Sousa Ribeiro Filho e Malaliel Pinheiro Costa. A ideia do projeto era cuidar da decomposição de materiais orgânicos, que seriam despejados nos rios, e fazer sua conversão para gás metano, por meio de um biodigestor. O gás, engarrafado, pode ser usado nas cozinhas, eliminando o carvão e transformando a matéria orgânica em adubo. Uma solução para a economia e o meio ambiente. A iniciativa rendeu diversos prêmios ao professor, inclusive o reconhecimento da American Meteorological Society e o convite para participar do Movimento Internacional de Ciências e Tecnologia Juvenil, em Durban, na África do Sul. “As premiações recebidas em dinheiro foram investidas no Colégio São Francisco Xavier, em Abaetetuba. Com isso, conseguimos comprar novos equipamentos de multimídia para o uso dos alunos”, conta.

Em 2007, foi a vez de tirar do papel o projeto Chuveiro Inteligente. “Sensores eletromagnéticos captam a presença da pessoa, acionando a válvula para liberar a passagem da água. Quando saímos debaixo do chuveiro, a água para de cair. Assim, economizamos água e energia”, explica Camila Ferreira Gomes, uma das alunas responsáveis pelo projeto. A iniciativa foi igualmente condecorada nacional e internacionalmente e rendeu um convênio com a Prefeitura de Abaetetuba, que disponibilizou verba para a confecção de 15 chuveiros implantados na escola da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e no ginásio de esportes da cidade. “Para conquistar os resultados, precisamos batalhar, mas valeu a pena, pois muitos frutos foram colhidos, como o intercâmbio com professores e alunos do Brasil e de outros países e o amadurecimento e ganho de conhecimento, tanto meu quanto dos alunos”, pondera o professor.

Após a boa repercussão dos projetos, o educador assumiu a coordenação na área de incentivo à pesquisa na Secretaria Municipal de Educação de Abaetetuba e Moju e mudou sua atuação nas escolas. “Hoje ministro palestras sobre iniciação científica e robótica para alunos, pais e professores, além de mostrar como se desenvolve um projeto de pesquisa e como isso pode mudar a vida de um aluno ou, até mesmo, de uma comunidade”, revela.

Feiras científicas

Além de incentivar os alunos a participarem de projetos científicos por meio das palestras que ministra, Sousa da Silva organiza feiras regionais no Pará, nas quais seleciona projetos que podem ir para a Mostra de Ciência e Tecnologia da Escola Açaí (MCTEA), evento que ele mesmo organiza e que já está na sexta edição (desde 2012 é internacional). “No MCTEA, são selecionados projetos que participarão de eventos em outros estados e até em outros países. Os alunos também recebem premiações das empresas e bolsas de iniciação científica”, destaca. Para ele, as feiras contribuem para uma mudança na visão estudantil, pois oferecem um espaço para que alunos e professores propaguem suas ideias, competências e habilidades e possibilitam a melhora na aprendizagem, por meio da produção de conhecimento. “Elas oportunizam ao aluno – seja ele dos ensinos fundamental, médio ou superior – descobrir e desenvolver capacidades e o gosto pela pesquisa. Por meio da educação podemos, de fato, mudar alguma coisa, comprometidos com uma política suporte a essas mudanças”, analisa.

O professor acredita que a iniciação científica não deve ser vista como uma solução para todos os problemas sociais ou econômicos, mas pode auxiliar a resolvê-los. “É preciso chamar atenção do jovem pesquisador, iniciando uma reflexão sobre o ambiente em que ele vive e auxiliando no desenvolvimento de um cidadão mais comprometido com as possibilidades de melhoria”, alega. Dessa forma, segundo o superprofessor, é possível transformar as pessoas, mas sempre com o apoio de governantes, secretários de Educação, diretores, professores e pais de alunos, pois quando se trabalha em conjunto é possível mudar tudo.

Projetos que deram certo

O professor Gilberto Luis Sousa da Silva ajudou a tornar realidade outras boas ideias, além dos projetos citados na matéria. São exemplos que demonstram que é possível ajudar a comunidade e a natureza dando atenção a iniciativas que surgem nas escolas. Confira-as a seguir.

- Matapi ecológico: armadilha utilizada para a pesca do camarão, desenvolvida pela aluna Regiane Araújo da Silva. “Com o espaçamento do instrumento ligeiramente maior, os camarões adultos são capturados, enquanto os pequenos, que não concluíram seu ciclo de vida, podem escapar pela abertura. Além de preservar a natureza, a implantação do projeto contribuiu para o desenvolvimento econômico local”, explica Regiane.

- Transformando os resíduos de buriti: de autoria do aluno Maurício Pantoja, o projeto utiliza o caroço do buriti (fruta comum no norte do Brasil) como ração para suínos e carvão para filtrar água. “A maior parte da população do Baixo Tocantins e seus afluentes ainda não conta com água tratada e utiliza a água do rio para abastecer suas casas”, explica Pantoja, que foi destaque na maior feira de ciências e engenharias do mundo, a Intel International Science and Engineering Fair, nos Estados Unidos.

Reportagem publicada na edição de janeiro de 2016

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