Mozart Neves Ramos, diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna, acredita que os formandos de cursos de licenciaturas saem da universidade distantes da realidade da escola pública. “Eles têm uma bagagem estritamente teórica, mas a prática quase não se vê na graduação”. Acompanhe o que ele destaca sobre os desafios da formação de professores no Brasil na entrevista a seguir.

Profissão Mestre: As universidades têm conseguido preparar os futuros professores para a realidade das escolas?

Mozart Neves Ramos: Não. Os estudos relacionados tanto à formação inicial quanto à continuada, no âmbito dos cursos de licenciatura, mostraram que os formandos saem da universidade bem distantes da realidade da escola pública. Eles têm uma bagagem estritamente teórica, mas a prática quase não se vê na graduação. O que se tem são estágios quase sem supervisão, que praticamente não contribuem para a formação de qualidade. Isso tudo mostra que essa formação precisa ser mais prática, reduzindo os conteúdos de normatização e legislação para focar na capacitação para enfrentar uma sala de aula. É preciso repensar tanto a formação inicial quanto a continuada. O que temos hoje é uma espécie de operação tapa-buraco, como acontece quando o asfalto de uma via não é benfeito. Se a formação inicial não for de qualidade, a continuada acaba sendo um paliativo, mas não resolve o problema.

Profissão Mestre: O que deve ser mudado nos currículos dos cursos de formação docente?

Mozart: Precisamos incorporar a prática na sala de aula. Mas isso depende de um sistema mais organizado para oferecer uma residência aos estudantes de Pedagogia e licenciatura, ou seja, precisamos organizar a formação para dar condições de o aluno se desenvolver. É verdade que existem algumas experiências no país, mas não há nada amplamente institucionalizado, que oriente as redes na questão do que poderia vir a ser essa residência.

Profissão Mestre: Essa residência segue os moldes da residência dos cursos de Medicina?

Mozart: Sim. Hoje, há parâmetros de qualidade para que o hospital seja credenciado a oferecer residência. A residência docente teria essa base, com escolas certificadas em todo o Brasil, contanto que tenham os insumos necessários: estrutura, como laboratórios, além de professores formados nas disciplinas que lecionam. Essas escolas teriam universidades âncoras, e os professores dessas instituições poderiam fazer a supervisão de acordo com a proximidade geográfica. Além disso, a residência seria integrada ao Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid), com valor diferenciado dessa bolsa, para permitir que o jovem possa se dedicar ao máximo. Ou seja, são dois eixos: escolas credenciadas e alunos com bolsas.

Profissão Mestre: E qual sua avaliação das pós-graduações da área?

Mozart: Elas só fazem sentido se forem voltadas à atuação como professor. Hoje, as universidades querem formar pesquisadores. Mas precisamos de pós para professor, e não para pesquisador, para que possamos melhorar a qualidade das aulas em nossas escolas. Também precisamos valorizar a licenciatura, porque hoje ela é tratada como um “bacharelado de segunda categoria”, com menos status. Mas isso só vem como outro desafio: a carreira precisa ser mais atrativa. Hoje ninguém quer ser professor. O salário e o plano de carreira são dois elementos estratégicos. A remuneração tem que estar atrelada ao desenvolvimento profissional, à formação continuada e aos resultados em sala de aula.

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