Aconteceu em junho do ano passado, no Bahrein, a solenidade de entrega do Prêmio Isa por Serviços Prestados à Humanidade. No valor de US$ 1milhão e com rigor na seleção mundial do premiado, a honraria, ainda na segunda edição, terá em breve o mesmo prestígio do Nobel, mas com uma diferença fundamental: o Nobel homenageia quem deu grande contribuição ao conhecimento em alguma área científica, à literatura ou à construção da paz; já o Prêmio Isa, criado em 2009, busca honrar e homenagear indivíduos e organizações ao redor do mundo que tenham prestado importante serviço à humanidade. Um premiado com o Nobel de Medicina recebe a distinção pela contribuição científica; a ajuda à humanidade decorrerá do esforço de outros para aplicar a descoberta. A razão de ser do Prêmio Isa é a ação humanitária, direta. Não premia gênios, mas humanistas. O premiado do Nobel usa a genialidade, por meio de microscópios, telescópios ou computadores; os premiados pelo Isa usam as mãos diretamente sobre a realidade social.

 

Mesmo o Nobel da Paz, só algumas vezes, como os dois premiados em 2015 –Kailash Satyarthi e Malala Yousafzai –, é dado a quem transforma o mundo social por ações concretas na realidade, como ocorre no Prêmio Isa.

O Prêmio Nobel foi instituído por um industrial que fez fortuna produzindo e vendendo dinamite. Decidiu usar a riqueza para premiar os grandes cientistas da humanidade, não necessariamente os grandes humanistas. Einstein só se transformou em cientista conhecido décadas depois de ter recebido o prêmio pela sua descoberta na física, que até hoje deslumbra o mundo, mas não o fez melhor.
O Prêmio Isa foi criado pelo rei Hamad bin Isa al-Khalifa em homenagem a seu pai, Amir Shaik Isa Bin Salman al-Khalifa, com o propósito de premiar quem age na vida real construindo um mundo melhor. Na primeira edição, em 2013, o prêmio foi para Jemilah Mahmood pelo trabalho em prol da saúde pública em seu país, a Malásia. Em 2015, o prêmio foi para Achyuta Samanta pelo trabalho na educação de dezenas de milhares de crianças e jovens na Índia, sua terra natal. Samanta é o que se pode chamar de empreendedor social, capaz de mudar a vida das pessoas graças ao humanismo, à perseverança, à capacidade empreendedora de reunir recursos para resolver problemas sociais. Seu Instituto Kalinga oferece educação superior a milhares de alunos, de diversas partes da Índia, na área de tecnologia industrial. Ao lado do instituto, ele criou um centro que abriga 25 mil crianças escolhidas entre as mais pobres da região, o qual oferece educação desde a primeira infância até a universidade. Em seus dizeres: “O analfabetismo provoca e a educação erradica a pobreza”. Por isso, desde muito jovem, ele se dedica a fazer pobres saltarem a “cortina de ouro” que os aprisiona na pobreza. Os resultados são conhecidos, daí ser escolhido entre dezenas de outros candidatos de todos os continentes.

Como um dos seis membros do júri que escolheu Samanta, tive o privilégio de acompanhar a solenidade, em 3 de junho, e ouvir o discurso do rei Hamad bin Isa al-Khalifa. Discurso de raro sentimento humanista, em que deixou clara a necessidade de ações para corrigir as distorções sociais provocadas pelo modelo econômico que cria, mas não distribui corretamente a riqueza, e apelou para que pessoas de boa vontade, humanistas como Jemilah Mahmood ou Achyuta Samanta, enfrentemo desafio da humanidade dividida entre tanta riqueza e tanta miséria. E prometeu que o prêmio continuará dando reconhecimento aos que não ficarem omissos e agirem para fazer o mundo melhor.

Ao criar o Prêmio Isa, além de homenagear o pai, o rei Hamad dá exemplo de humanismo ao mostrar como a riqueza pode ser utilizada para promover o bem-estar humano. Deve-se reconhecer o grande mérito do rei ao reservar, a cada dois anos, parte da própria fortuna para doar US$ 1 milhão a um humanista que não apenas refletiu, mas também prestou serviço concreto à humanidade. Seu maior mérito foi ter escolhido como tema motivador do prêmio o serviço relevante à humanidade capaz de fazer o mundo melhor. A escolha do motivo é muito mais importante que o valor do prêmio e o gesto do filantropo. O rei demonstrou muito mais que espírito filantrópico, demonstrou ser monarca com espírito humanista.

Matéria publicada na edição impressa da Profissão Mestre de fevereiro de 2016.

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