CENA 1: O professor entra na sala de aula de sua turma de ensino médio, em um colégio particular de alto padrão em São Paulo (para preservar suas identidades, instituição e pessoas envolvidas foram mantidas em anonimato). Com dificuldade de acalmar os alunos para começar a atividade, ele grita: “Silêncio! Vocês parecem moleques da favela!”. Prontamente a turma obedece à ordem, como resposta à comparação negativa. Um dos alunos se sente incomodado com o uso da analogia pelo professor por julgá-la preconceituosa com a população das favelas, denotando que a condição de pobreza torna as pessoas indivíduos de modos reprováveis. Conversa em casa com o pai, que concorda com o filho mas prefere não levar o caso em frente por julgar o colégio excessivamente conservador, apesar de boa fama e bons resultados nas avaliações externas. O jovem comenta com colegas, e alguns mostram preocupação em impor uma correção política na fala do professor.

CENA 2: Em um colégio católico de alto padrão na cidade de São Paulo, uma professora de Artes apresenta aos seus alunos imagens de obras desde a arte clássica grega até o Renascimento. Por uma questão óbvia e histórica, muitas das peças mostradas são de corpos nus. Alguns dias depois, pais de alunos levam a reclamação à direção da escola sobre o que julgam ser inadequado mostrar às crianças. A professora apenas fica sabendo do ocorrido, mas sequer chega a ser notificada formalmente porque a coordenação pedagógica encampa a causa e não cedeu a pressões da direção nem dos pais.

Casos como esses, apresentados na Cena 1 e na Cena 2, cuja notoriedade e denúncia têm se tornado corriqueiros no Brasil, levantam a questão: o professor é perseguido por uma patrulha ideológica que tenta impor um “clima do politicamente correto” ou há um movimento diferente, no sentido de defender o direito de quem sempre discriminou a continuar discriminando?

Questão de bom senso

A avaliação entre educadores sobre a ideia da correção política no Brasil tem pelo menos duas vertentes distintas: uma é a crítica de um radicalismo gramatical travestido de luta por igualdade em vez de atacar o foco da discriminação; a outra é a falta de politização dos conflitos internos típicos da escola. Para a filósofa e educadora Tania Zagury, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e colunista da Gestão Educacional, há uma fiscalização “até [sobre] as coisas mais simples do dia a dia. Quando se fala sobre homens e mulheres, em vez de usar brasileiros para descrever um grupo nacional, por exemplo, como sempre foi feito e gramaticalmente aceito, hoje se tem que usar ‘brasileiros e brasileiras’ para dar uma pseudoigualdade”, critica. Para a educadora, deve-se seguir o bom senso para que a exigência por correção política não se transforme em cerceamento da liberdade de expressão das pessoas ou que promova a autocensura do docente. “Há certo medo de falar certas coisas. Mas, na vida real, há também posturas segregacionistas. O que importa é a atitude. Devemos ser politicamente corretos com uma coerência entre a fala e a vida. Senão, acaba virando um discurso vazio de conteúdo”, acredita.

No caso do professor que comparou o comportamento dos seus alunos com jovens de bairros pobres (Cena 1), a educadora avalia que em nenhuma situação o professor pode ser veículo de ideias preconcebidas. “Na medida em que um professor fala dessa forma, traduz o seu preconceito. Essa sua fala foi discriminatória, como se todas as crianças de classes A e B fossem bem educadas e as crianças mais pobres, não. A má educação e a arrogância estão em todas as classes”, defende.

Para Eduardo Antonio Estevam Santos, professor do Departamento de História da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), na educação brasileira as práticas de preconceito e discriminação são corriqueiras e cotidianas porque refletem o caráter preconceituoso da própria sociedade. Quando se dá entre alunos, o ofensor justifica ter sido provocado pelo ofendido. Quando o professor é questionado pelo seu preconceito, diz-se perseguido. “A situação da prática racista e preconceituosa deve ser trabalhada no sentido de discutir as relações de poder que as permeiam, mais do que o racismo, a posição do sujeito de direito e com direito à vida, não uma questão do correto e do incorreto, mas política no sentido de garantir ao outro o seu direito. O preconceito mata, provoca depressão, ódio, afasta, nega o outro. Quem usa o termo se sente perseguido e se acha tendo a liberdade de humor e de expressão cerceada. Mas, na prática social, o que se vê é o desejo de manter o direito de humilhar, menosprezar, subalternizar o outro dessa relação, o outro na sexualidade, na classe, na raça, no gênero”, analisa.

Militante durante mais de dez anos do Movimento Negro Unificado da Bahia, Santos foi professor de ensino fundamental e médio nos estados da Bahia, Ceará e São Paulo, e membro da coordenação, já como ex-aluno, da implantação da política de cotas raciais na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), na Bahia, onde se graduou em História. Ele nega qualquer forma de pautar movimentos sociais na ideia da correção política, sendo que a ênfase desses grupos é na politização da vida para que todos tenham iguais condições de opinião e participação, inclusive em sala de aula, sem agravar conflitos centrados no discurso. “O politicamente correto é uma ideia liberal, não dos movimentos sociais. Em todos esses anos nunca vi o termo, ele nem aparece nos textos e produções. E não deve aparecer justamente porque esvazia o debate e fala do direito de manter posições preconceituosas. Uma das questões centrais nas relações étnico-raciais, em que sempre atuei, é que vemos a tentativa de manter o privilégio imaterial e simbólico da identidade da branquitude, do branco heterossexual, construído historicamente”, diz. E completa: “Há exemplos de professores revendo histórias e músicas infantis para atenuar a violência evidenciada na fala. Essas histórias devem ser mantidas na forma original e problematizadas profundamente, acompanhadas de reflexão evocando a carga de preconceito que sempre esteve presente nelas”.

Docente na encruzilhada

Seja qual for o caminho trilhado pela ideia da correção política e quem a jogou na pauta da imprensa em diferentes países, o fato é que o controle externo sobre o professor penetrou nas escolas brasileiras, pressionando a atuação de docentes de todas as disciplinas e preferências políticas. O cerceamento do trabalho do professor por questões morais tem sido frequentemente colocado no pacote da correção política. De imagens de corpos despidos (Cena 2), passando por temas religiosos, sexuais e palavrões, educadores concordam, mesmo com sugestões distintas, que o válido é não generalizar qualquer tipo de evento.

Para Tania Zagury, em situações como a da Cena 2 cabe à escola dar respaldo ao professor, mas não seria inconveniente se o professor avaliasse o contexto em que ele está inserido antes de escolher um recurso pedagógico. “Evidentemente que a postura da escola é ultrapassada, anacrônica, extremamente tradicionalista. Por outro lado, convém ao professor usar outras obras dentro da concepção político-pedagógica da escola para evitar problemas, o que não vai impedi-lo de apresentar trabalhos adequados para as mesmas épocas da arte. Ele tem que ter consciência de qual realidade está trabalhando. Também seria conveniente conversar com os orientadores pedagógicos e com o diretor para tentar mudar essa consciência. No século XXI, as pessoas têm consciência do corpo e isso não traz nada de inconveniente ou negativo para a criança. O desconhecimento é que faz a malícia. A criança que encara a nudez com naturalidade desde cedo não verá nada de errado”, sugere.

Para Santos, a saída é trazer os alunos para a reflexão no sentido de politizar as situações, sejam de preconceito ou de moralidade, fugindo da limitação a imagens ou terminologias. “Palavras e ideias não surgem para agradar um grupo, mas de uma luta, de um campo de disputas. São termos políticos que não se encerram neles mesmos, continuam se afirmando e se apoiando para afirmar direitos. É uma posição política que não dá para tornar superficial, se está certo ou errado”, finaliza.

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Matéria publicada na edição de janeiro de 2015.

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