As conexões cerebrais formam-se com mais velocidade até os 5 anos de idade e até os 7 concentra-se o melhor período para aprender um novo idioma 

A infância é o maior período de aprendizado na vida de um indivíduo. Em pouco tempo, é preciso aprender a andar, falar e interagir. O cérebro de um bebê, ao nascer, possui 25% do tamanho que alcançará quando adulto. Aos 5 anos de idade, o cérebro já atinge 92% da dimensão de um adulto. Durante esse período, as conexões cerebrais acontecem de maneira acelerada. Apesar da maior parte das células nervosas do cérebro já existir desde o nascimento, as conexões entre elas ainda não estão estabelecidas. Novas conexões são formadas à medida que a criança adquire conhecimento. “Isso significa que as primeiras experiências que as crianças têm moldam o desenvolvimento de seus cérebros”, explica a psicóloga e neurocientista Sarah Roseberry Lytle, diretora de Educação do Instituto de Aprendizagem e Ciências do Cérebro (I-Labs) da Universidade de Washington, nos Estados Unidos.

Do ponto de vista biológico, a plasticidade cerebral é muito maior na infância. Não é à toa que a sabedoria popular compara o cérebro de uma criança a uma esponja, que tudo absorve. Após os 5 anos de idade, a velocidade das novas conexões neuronais, entre as células nervosas do cérebro, começa a declinar, conforme essas ligações são refinadas e otimizadas. “O cérebro adulto simplesmente não forma novas conexões tão facilmente ou rapidamente como o cérebro de uma criança”, diz Sarah Lytle.

Descobrir como aproveitar essa capacidade natural da melhor maneira possível para otimizar o aprendizado faz parte dos desafios dos neurocientistas voltados à educação. Os cientistas estão empenhados em estudar como o cérebro da criança aprende, quais são os períodos de sensibilidade, ou seja, quando existe maior suscetibilidade à aprendizagem de determinados conteúdos, o que contribui para a formação de novas memórias e quais fatores influenciam a retenção ou persistência do conhecimento. Por enquanto, a maioria das pesquisas concentra-se nos laboratórios. “Existem poucos estudos sobre o processo educativo em sala de aula”, afirma Martin Cammarota, especialista em Neurobiologia da Memória e do Aprendizado, professor de Psicofarmacologia e Neuroetologia do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Segundo Cammarota, a maior parte do conhecimento sobre a neurobiologia da memória advém de estudos com animais, sobretudo roedores. Para o pesquisador, o momento agora é de analisar cientificamente a aprendizagem por meio da interação entre aluno e professor, objetivo que também faz parte das propostas da Rede Nacional de Ciência para a Educação (CpE).

Cidadãos do mundo

Os neurocientistas já sabem que a aprendizagem é um processo inesgotável. Apesar da janela de oportunidade que a infância representa, o indivíduo segue assimilando novos conhecimentos por toda a vida. “O cérebro pode sempre aprender, mesmo em condições bastante adversas”, ressalta a pediatra Marcela Peña, especialista em Ciências Cognitivas e pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Chile. Em seus estudos com bebês prematuros, Marcela chegou à conclusão de que essas crianças apresentam as mesmas capacidades daquelas que nasceram após uma gestação completa. “O que muda é a idade em que elas iniciam e consolidam o aprendizado”, complementa. Os prematuros, por exemplo, começam mais cedo a seguir o olhar dos outros, porém não aprendem fonemas ou ritmo da linguagem antes, a despeito do maior tempo de exposição à língua nativa. “Alguns aprendizados em determinados sistemas cognitivos são desencadeados por estímulos externos enquanto outros não, mas ainda não sabemos por que isso acontece”, revela.

Quem já tentou falar um novo idioma depois de adulto sabe intuitivamente que o esforço para decifrar a língua estrangeira parece muito maior que o de uma criança. Os primeiros sete anos de vida constituem o melhor período para esse aprendizado, pois as áreas do cérebro responsáveis pela aquisição de linguagem estão mais flexíveis e abertas a novas experiências. “Quando os bebês nascem, eles são cidadãos do mundo. Eles são capazes de saber a diferença entre todos os sons de todas as línguas do mundo”, afirma a diretora de Educação do I-LABS, que realiza diversos estudos no campo da linguagem com bebês. A habilidade em reconhecer uma ampla gama de sons começa a mudar por volta dos 10 a 12 meses, quando o bebê desenvolve-se melhor em seu idioma nativo e vai perdendo a capacidade de distinguir fonemas das línguas que não ouve com frequência. Contudo, crianças expostas a múltiplos idiomas têm mais facilidade em aprender outras línguas por um longo período de tempo em comparação àquelas que não tiveram esse contato. Dominar outras línguas traz outras vantagens para o desenvolvimento cognitivo. “Aprender múltiplos idiomas dá às crianças benefícios como melhor flexibilidade cognitiva ou de pensamento e habilidade para resolução de problemas, que elas ganham por aprender a alternar entre dois ou mais conjuntos de regras linguísticas”, explica Sarah Lytle. 

Novas memórias

Ambientes criativos, interações sociais, relações positivas com o conteúdo, colegas e docentes são fatores que estimulam o aprendizado em sala de aula, porém ainda não se sabe com precisão, do ponto de vista do cérebro, quais fatores influenciam a formação de novas memórias e a retenção do conhecimento. Segundo Martin Cammarota, que realiza pesquisas sobre o tema com animais, é importante descobrir como memórias prévias têm impacto na produção de novas memórias, além de entender por que alguns conhecimentos duram mais que os outros. “Queremos saber quanto desse conteúdo afeta a formação de memória relacionada e como podemos modular esse processo, por meios farmacológicos e comportamentais”, diz.

Para o pesquisador, ninguém sabe mais sobre memória e aprendizado que o próprio educador. “Ainda que não saibam expressar cientificamente, os professores são aqueles que sabem melhor o que fazer para que as crianças aprendam”, afirma Cammarota. O neurocientista acredita na necessidade de levar a realidade da sala de aula para o laboratório, para que os pesquisadores possam verificar se as hipóteses dos professores têm solidez científica ou são apenas observações circunstanciais. “O professor faz ciência empírica. Quando ele decide ensinar, de uma forma ou outra, está fazendo um experimento”, acredita.

Reportagem publicada na edição de novembro de 2015

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