Atender às necessidades fisiológicas dos alunos e respeitá-las são fatores fundamentais para otimizar o aprendizado; soneca na escola aumenta a retenção de novos conhecimentos pelo cérebro

Descobrir como o cérebro aprende para encontrar as melhores metodologias de ensino tem sido a busca de neurocientistas voltados à educação. A ciência ainda caminha a passos lentos nessa direção, visto que os estudos randomizados em sala de aula estão apenas começando. Contudo, algumas descobertas apontam para práticas, muitas vezes simples, que poderiam potencializar o aprendizado.

Iniciativas importantes, como a criação da Rede Nacional de Ciência para a Educação (Rede CpE) em 2014, pretendem promover a educação baseada em evidências, realizando pesquisas que resultem em inovações no ensino e nas políticas educacionais. Em julho deste ano, a Rede CpE, com apoio do Instituto Ayrton Senna e da Fundação Nacional de Ciências dos Estados Unidos (NSF), organizou o I Simpósio Internacional de Ciência para Educação, com a participação de pesquisadores de universidades brasileiras e estrangeiras, no Rio de Janeiro (RJ). Com base nos trabalhos apresentados e nas descobertas mais recentes das neurociências, a Profissão Mestre traz uma série de cinco reportagens, que vão do impacto da fisiologia à música no aprendizado, com objetivo de contribuir para o fortalecimento da ponte entre ciência e educação.

Apesar da importância da aplicação dos conhecimentos científicos na prática pedagógica, o neurocientista e coordenador da Rede CpE, Roberto Lent, professor e chefe do Laboratório de Neuroplasticidade do Instituto de Ciências Médicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), chama atenção para o caráter novo e experimental desse ramo da ciência. “A eficácia das ferramentas e dos conceitos gerados pelos cientistas deve ser testada continuamente”, enfatiza. O que os pesquisadores já sabem é que o modo como a escola funciona e os professores ensinam não favorece a potencialidade máxima dos alunos. Em primeiro lugar, antes de qualquer metodologia ou psicologia escolar, está a importância de satisfazer as necessidades fisiológicas dos estudantes para que o cérebro possa responder da melhor forma possível aos estímulos.

Isso significa colocar na frente do conteúdo a tríade nutrição, sono e exercícios físicos. Por causa de condições econômicas, sociais ou simplesmente hábitos nocivos, como passar a noite nas redes sociais, muitos alunos chegam à escola com déficit de sono, sem se alimentar adequadamente ou com falta de atividade física. Para Sidarta Ribeiro, professor de Neurociência e diretor do Instituto do Cérebro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), nessas condições a biologia vai sempre se sobrepor à psicologia. “É inútil discutir qual o melhor sistema pedagógico se as crianças não estão fisicamente aptas a aprender. Primeiramente, precisamos resolver as necessidades fisiológicas que elas trazem de casa”, afirma o neurocientista, também integrante da diretoria da Escola Latino-Americana de Ciências Educacionais, Cognitivas e Neurais. 

Soneca e memória

O combustível do cérebro é a glicose, proveniente da alimentação. Sem uma nutrição adequada e refeições regulares que mantenham níveis adequados de glicose, a capacidade de atenção e aprendizado ficam reduzidas. “O cérebro precisa de muita glicose. Sem comer, as crianças não podem ter boa performance”, explica Sidarta Ribeiro. Por essa razão, o neurocientista acredita que seja fundamental oferecer uma merenda logo no início das aulas, sobretudo aos alunos que chegam à escola em jejum.

O sono também desempenha papel crucial no processo de aprendizagem. É durante essa etapa que memórias são consolidadas e novos conhecimentos reestruturados. Esse fenômeno explica porque às vezes acordamos com uma solução ou ideia que não havíamos pensado antes. O horário escolar, a partir das 7 horas, não condiz com a necessidade de sono dos estudantes. Esta é uma das propostas da neurociência para a educação: retardar o começo das aulas para corresponder ao ciclo biológico dos alunos. “Às 7 horas ainda estamos baixando a produção de melatonina, que é o hormônio do sono. À medida que vai amanhecendo, diminuímos a melatonina e aumentamos o cortisol, o que acontece entre 8h30 e 9 horas, quando já estamos no segundo ou terceiro período de aula. É algo importante para se rever”, diz a neurobióloga Marta Pires Relvas, psicopedagoga e professora da pós-graduação em Neurociência Pedagógica da AVM Faculdade Integrada/Universidade Candido Mendes, no Rio de Janeiro (RJ).

Além de uma boa quantidade de sono, as pesquisas também apontam para os benefícios da soneca na escola para a memória e o aprendizado. “O sono que a criança sente depois de ter sanado seu déficit está ligado ao aprendizado de coisas novas. Mas a escola não dá essa chance para as crianças, que às vezes estão dormindo na frente do professor”, destaca Sidarta Ribeiro.

Em estudo conduzido pelo Instituto do Cérebro da UFRN com alunos entre 11 e 12 anos de idade, divididos em dois grupos – um de estudantes que dormiram até duas horas após o aprendizado de um conteúdo novo e outro daqueles que se mantiveram acordados –, os resultados foram significativos. Apesar de o aprendizado ter sido praticamente o mesmo nos dois grupos, entre os estudantes que tiraram a soneca, a retenção dos conhecimentos foi maior. Cinco dias após o teste, os alunos que dormiram ainda lembravam cerca de 10% a 12% a mais sobre o conteúdo novo do que sabiam anteriormente, enquanto os acordados já não tinham mais nenhuma melhora. “A soneca aumenta a duração ou persistência do aprendizado. Parece pouco, mas 10% por dia pode vir a ser muito ao longo de seis meses ou um ano” explica Sidarta.

Novos estímulos

Os avanços na área de plasticidade neural demonstram que todos têm capacidade de aprender. O importante para otimizar a aquisição de conhecimentos é tornar esse processo estimulante. “O requisito fundamental para ocorrer o aprendizado no cérebro é oferecer a ele sempre grande riqueza de informações”, ressalta Roberto Lent. Novos estímulos também contribuem para o aprendizado e a memória. Um estudo com alunos de ensino fundamental, publicado em 2012 por pesquisadores da Universidade de Buenos Aires, na Argentina, mostrou que até mesmo simples novidades, como mudar os estudantes de sala, geram impacto positivo na performance. Por sua vez, os exercícios físicos, segundo Lent, têm a capacidade de incrementar a atividade neural, além da gênese de novos neurônios e circuitos no cérebro. Devido a esses efeitos, os neurocientistas também sugerem que a escola dê maior relevância às atividades físicas no currículo escolar.

Outros aspectos subjetivos apresentam grande influência sobre a aprendizagem, como interesse, motivação e emoção que aquele conhecimento desperta. Segundo Marta Relvas, os estímulos precisam ser vinculados a uma relação afetiva e emocional para que determinados neurotransmissores sejam produzidos no cérebro, fortalecendo as conexões neurais. “Todos os cérebros aprendem à medida que fazem ligação afetiva com esse aprendizado”, observa a neurobióloga.

Para os neurocientistas, a instituição de ensino ideal seria mais parecida com um laboratório, com menos aulas expositivas e maior participação dos alunos em atividades práticas, que começariam apenas depois que as necessidades fisiológicas estivessem satisfeitas. “Na escola dos meus sonhos, as crianças chegariam pela manhã e poderiam fazer o que precisassem primeiro: comer, dormir, brincar. Depois que estivessem bem e felizes, poderiam ter aulas curtas, de 15 a 20 minutos, efetivas e carismáticas”, sonha o diretor do Instituto do Cérebro da UFRN.

Este é apenas um trecho desta reportagem. O material na íntegra você confere na edição de outubro de 2015 da revista Profissão Mestre.

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