Do arcaico e enorme daguerreótipo (aparelho primitivo de fotografia, inventado por Daguerre), passando pelas fotos coloridas e pelas câmeras amadoras, até as fotografias digitais dos dias de hoje, tirar uma fotografia se tornou algo muito simples. Praticamente todas as pessoas carregam uma câmera fotográfica, uma vez que ela se tornou um elemento chave dos telefones celulares do século 21. Com isso, é muito mais prático fotografar e compartilhar o material com o auxílio do e-mail ou das redes sociais.

Toda essa facilidade pode ser usada também para a educação. “A fotografia em sala de aula significa a utilização do reforço da imagem na ilustração dos assuntos proferidos pelo professor, estabelecendo com isso uma rápida e direta conexão entre o conteúdo do assunto que está sendo abordado, com os mais variados níveis de compreensão e entendimento do aluno, facilitando, otimizando sobremaneira essas inter-relações”, afirma Mário Bitt-Monteiro, pro­fessor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador do Núcleo de Fotografia da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico). Para Monteiro, a utilização da fotografia no contexto educacional é im­prescindível para ampliar e aprimorar a aprendizagem. “Penso que a fotografia poderia ser utilizada para avaliar os estágios de percepção, criatividade visual, senso composicional, como também os atuais estágios de compreensão com os problemas ambientais, existentes nos mais variados espaços diários vivenciados pelos alunos, tudo através de exercícios fotográficos simples, a serem propostos pelo professor para eles”, afirma o educador.

Tendo isso em mente, Monteiro e o Núcleo de Fotografia, em conjunto com outros 25 professores da rede pública de ensino da cidade de São José dos Ausentes (RS), elaboraram o projeto “A fotografia na escola: Fotografia como elemento didático-pedagógico no ensino de educação ambiental”, o qual serviu para conscientizar os habitantes do município sobre o valor ambiental e ecológico do lugar onde vivem. Os professores da cidade iniciaram uma série de atividades relacionadas à fotografia com cerca de 450 alunos da cidade. “O projeto, de forma decisiva, durante a sua realização, chamou a atenção de todos às questões ambientais ecológicas de São José dos Ausentes. Pode-se dizer que a fotografia também serviu, em alguns momentos, como um ponto de conexão ou de contato visual do habitante de lá com os seus próprios espaços, para que ele conhecesse e apreciasse mais sobre aqueles seus ambientes circundantes e as suas belezas naturais, estabelecendo com isso um elo de maior afetividade com eles. Ao lado disso, os professores participantes desse projeto ficaram conhecendo a força e a eficiência da utilização da fotografia nas suas atividades didático-pedagógicas junto aos seus alunos”, revela o professor da UFRGS.

Revelando riquezas

Outro projeto, em Dois Córregos (SP), a 255 km da capital paulista, também teve como objetivo não somente despertar o interesse dos alunos sobre o ambiente rural em que vivem, mas também em torná-los cada vez mais atraídos pela arte de fotografar. A ideia é da professora Vera Cristina Terrabuio Lucato, que leciona Artes na Escola Municipal de Ensino Fundamental e Ensino Infantil Oscar Novakoski. Ela desenvolveu o projeto “Revelando Riquezas”, que surgiu quando a docente começou a perceber a importância do registro de imagens, em diferentes épocas, e, ao mesmo tempo, a forma com que os alunos utilizavam o ato de fotografar sem desenvolver um olhar atento e criativo, apenas registrando fotos para redes sociais.

Para atrair os estudantes do 9º ano, Vera propôs que o tema das imagens a serem capturadas fosse justamente a vida dos alunos fora da sala de aula. “Esse tema despertou o interesse dos alunos, pois abordava a diversidade existente dentro das duas turmas, que contavam com alguns alunos que moram e ajudam nos sítios da cidade, e outros que moram na cidade e não imaginavam como se dá o trabalho na área rural. Assim, o projeto buscou valorizar o trabalha­dor do campo, constatando os benefícios para o desenvolvimento do município”, afirma a professora, que conta que a escolha pela fotografia como principal ferramenta do projeto se deu devido à importância histórica da arte. “Querer guardar ou mesmo dividir com outras pessoas situações através de imagens pintadas, fotografadas, gravadas, faz com que aquele momento se eternize na memória, se tornando presente tantas vezes quanto forem observados”, diz Vera.

Os alunos passaram por um longo trabalho de pesquisa e reflexão sobre o papel da fotografia na sociedade, analisando os trabalhos de artistas como Jean-Baptiste Debret e Sebastião Salgado. Em seguida, os estudantes foram a campo para fazer as fotos e depois revelá-las e analisá-las. “Os alunos demonstraram ter desenvolvido um olhar mais aguçado e interessado pela expressão fotográfica, observando e procurando nos detalhes impressões próprias, desenvolvendo a reflexão, curiosidade, intuição, percepção e imagina­ção, tornando-se, assim, criativos e descobrindo-se inovadores”, orgulha-se a professora, que está entre os dez vencedores do prêmio Professor Nota 10 de 2012, concedido pela Fundação Victor Civita.

 

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- Galeria de fotos da matéria A realidade sem filtros.

 

Matéria publicada na edição de julho de 2013.

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