Muitos fatores podem interferir no processo de desenvolvimento socioemocional das crianças.  Entre eles, um que se destaca é a atuação do professor. Como os pequenos passam boa parte de seu dia na companhia do educador, é preciso que os docentes estejam cientes do papel que desempenham no crescimento de características como afetividade, responsabilidade, capacidade de trabalhar em grupo etc. E, para realizar esse trabalho, o professor precisa compreender algo essencial: “primeiro, é preciso entender que o papel da escola e o do professor mudaram. O professor comprometido só com o conteúdo, com a matemática, a história, a geografia etc., hoje não dá conta, porque esse conteúdo está disponível na internet”, explica Anita Abed, psicóloga, psicopedagoga e pesquisadora da Mind Lab Brasil, que complementa: “O professor não é quem ensina, é quem ajuda o outro a aprender”.

Além dessa mudança de comportamento, é preciso que o educador estabeleça um relacionamento com seus alunos, pois só assim eles podem se desenvolver plenamente. “Para o desenvolvimento das habilidades, o fator inicial é criar um vínculo entre os atores, ou seja, o professor deve criar um ambiente de confiança e parceria. Sem esse contexto, será difícil desenvolver habilidades socioemocionais”, aconselha Bettina Steren dos Santos, pedagoga gaúcha e pós-doutora em Psicologia Evolutiva e da Educação pela Universidade de Barcelona (ESP). As pesquisadoras também creem que esse trabalho só surtirá o efeito desejado se a atuação do professor for condizente com o que ele mesmo acredita e prega. “A atuação do professor deve ser coerente com sua forma de pensar e de agir. Para isso, sua formação deve levar em consideração aspectos relacionados à vida emocional tanto dos docentes quanto dos alunos”, afirma Bettina, cuja opinião é compartilhada por Anita: “Eu, professora, não estou acostumada a fazer isso. Tradicionalmente, nunca foi meu papel fazer isso. Então é preciso uma mudança de paradigma interno. E como é que eu vou fazer isso com meu aluno se eu não sei nem fazer comigo mesmo? Isso exige um desenvolvimento socioemocional do próprio professor”.

Formação continuada

Para tanto, a formação continuada do professor tem papel fundamental. “O professor deve passar por uma capacitação que proporcione vivências nas quais ele possa compartilhar, com colegas e formadores, discussões que possibilitem qualificar sua prática docente, levando em consideração essas habilidades”, diz Bettina. Anita afirma que “o professor precisa de vivências significativas para que ele vista essa camisa. Não pode ser uma formação somente teórica. Precisa ser uma formação com experiências, vivenciada”. Para ela, o professor precisa estar atento aos sinais do grupo e aos sinais mais individualizados. “Sala de aula não é um espaço terapêutico, mas é preciso certa atenção a algumas coisas que estejam acontecendo”, esclarece.

No caso de identificar problemas em relação aos alunos, o ideal é que o educador possa contar com uma equipe de especialistas. “Eu [professor] não vou tirar o aluno da sala de aula, mas também não tenho que resolver o problema dele. Quem vai resolver esse problema é a clínica ou os pais dele”, afirma a especialista do Mind Lab. Ela enfatiza: “O fato de o professor trabalhar habilidades socioemocionais em sala não significa resolver problemas socioemocionais”. A pedagoga Bettina concorda: “O ideal é que o professor tenha uma equipe multidisciplinar para buscar ajuda. O professor sozinho sente-se impotente diante de situações difíceis e, se tem colegas com os quais ele pode compartilhar essas dificuldades, isso pode facilitar a sua ação”. Bettina também acredita no diálogo com os estudantes como um artifício viável nessas horas. “Também considero que, muitas vezes, ouvir e dialogar com os estudantes é um ótimo começo”, complementa.

Isso não significa que os professores não devam realizar atividades que possam auxiliar no desenvolvimento das habilidades socioemocionais. “Algumas dicas interessantes são: usar jogos, atividades, brincadeiras, dinâmicas, músicas, enfim, recursos que sejam mediadores de situações significativas”, sugere Anita. “Eu sou a favor do jogo, porque é uma situação muito intensa, que envolve habilidades cognitivas e também habilidades socioemocionais. É uma atividade fortemente engajadora e cria-se o que o Nuno de Macedo chama de contexto de folga: é uma coisa intensa, mas ao mesmo tempo eu [aluno] estou brincando”, complementa. Já Bettina reforça a ideia de atividades que envolvem conversa entre professores e alunos. “Considero que trabalhar com oficinas de autoconhecimento e de atividades, em que os professores possam vivenciar situações difíceis de sala de aula, pode ajudar a trocar ideias e ver diferentes possibilidades de resolver esses tipos de problema”, explica a pedagoga.

 

Matéria publicada na edição de junho de 2015.

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