Grande parte das escolas de educação infantil foca o trabalho no começo da alfabetização das crianças, com atividades voltadas para os primeiros contatos com a leitura e a habilidade em matemática. Nos Estados Unidos, algumas escolas vêm mudando esse cenário por meio do programa Ferramentas Mentais. “Suas intervenções dedicam-se invariavelmente a ajudar as crianças a aprender uma forma diferente de capacitação: controlar os impulsos, manter-se atento à tarefa do momento, evitar distrações e armadilhas mentais, administrar as próprias emoções, organizar os pensamentos”, explica o jornalista norte-americano Paul Tough em seu livro Uma questão de caráter (Ed. Intrínseca). De acordo com Tough, os criadores do programa acreditam que essas habilidades contribuem mais para os resultados positivos dos alunos a partir do 1º ano do ensino fundamental do que as atividades tradicionais. As crianças que fazem parte das atividades aprendem estratégias, truques e hábitos que podem ser utilizados para manter a mente focada, como falar consigo mesmos enquanto desempenham uma tarefa ou usar objetos que possam lhes ajudar a concluir determinado trabalho.

Para a pedagoga Claudia Ayres Paschoalin, coordenadora da Educação Infantil do Colégio Marista Nossa Senhora da Glória, em São Paulo (SP), a dinâmica dessa etapa de ensino deve estar mesmo aberta a novos conceitos. “A escola, como está compreendida na pós-modernidade, vem mudando seu paradigma. O que se espera da escola hoje é o acolhimento à diversidade, a construção da aprendizagem por meio de múltiplas linguagens, a integração entre as pessoas, o olhar atento ao outro na perspectiva da solidariedade, a troca de saberes, a cooperação”, afirma.

De acordo com a especialista, essa concepção de educação e a entrada cada vez mais precoce das crianças na escola em razão das demandas das famílias (como a necessidade de mais horas de trabalho e a mudança no papel social da mulher) trouxeram para a escola a ampliação do currículo, um novo olhar que abrange também o desenvolvimento das habilidades não cognitivas ou socioemocionais. “Hoje, implícita ou explicitamente, cabe à escola a formação integral do indivíduo”, acrescenta. Para Claudia, a educação infantil é um período perfeito para esse trabalho, pois é quando os alunos têm pela primeira vez contato com um espaço social distinto ao da família (a escola) e são muito suscetíveis aos incentivos e estímulos externos nessa idade. “Da mesma maneira que os alunos são receptivos ao letramento por meio de múltiplas linguagens, também o são para aprender a ser solidário, respeitoso, a negociar interesses e vontades, a argumentar, a esperar, a ter autocontrole, a perseverar, a tornar-se autônomo, reflexivo, curioso, a resolver problemas”, afirma. A pedagoga acredita que, com essa mudança de paradigma, as crianças agora têm a oportunidade de experimentar uma série de sensações que antes só ocorriam no ambiente familiar.

Para tanto, cabe ao professor de educação infantil uma atuação mais atenta e precisa, uma vez que “não há mais a dicotomia na ação educativa. O aluno é percebido de maneira integral – física, intelectual, pessoal e social”,  afirma a coordenadora. Claudia explica que a presença e a escuta atenta às situações que permeiam a rotina escolar devem ser práticas constantes. “Por exemplo, a mediação de pequenos conflitos, como empréstimos de materiais e uso de espaços e brinquedos, oportuniza ao professor estimular o aluno para que ele, por meio da oralidade, da exposição de pontos de vista e da argumentação, encontre uma solução para o problema”. Nesse sentido, a pedagoga defende a ideia de que cabe ao professor contextualizar as falas, de modo a auxiliar os alunos na construção de seu vocabulário e, consequentemente, de seus argumentos.

Ela ressalta ainda como a imposição de desafios às crianças pode ser importante para incentivar o desenvolvimento da autonomia, da persistência e da tolerância desde os primeiros anos: “A cada desafio proposto às crianças, elas vão percebendo que é preciso ser persistente, que para aprender é preciso tentar várias vezes, que é necessário pedir ajuda e também ajudar o amigo que ainda não compreendeu totalmente a proposta. Enfim, ser tolerante e ser menos impulsivo, que também são habilidades não cognitivas”.

Papel da família

A participação dos pais e familiares também é fundamental no desenvolvimento das habilidades não cognitivas das crianças. Claudia defende que os pais se informem sobre o trabalho que será feito com os alunos na escola. “A informação é o melhor instrumento e ela se apresenta em múltiplas oportunidades: desde a apresentação inicial que se faz às famílias sobre a filosofia da instituição, passando pelas reuniões com pais e pela partilha de textos que validam essa perspectiva educativa, até a socialização de produções das crianças por meio de exposições, tarefas, campanhas solidárias e a mudança de comportamento percebida nos filhos”, sugere a especialista, que acrescenta: “Esta última, talvez, seja a de maior relevância, porque é o demonstrativo da evolução, do crescimento de cada um deles como seres humanos preocupados com os outros e com o mundo em que vivem”.

 

Matéria publicada na edição de abril de 2015.

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