Nada menos que 96,6% dos professores consideram que não devem ser os únicos detentores do conhecimento, enquanto 86,5% dos alunos almejam mais autonomia para escolher o que e como estudar. Esses são alguns dos dados revelados por uma pesquisa conduzida por alunos do 2o ano do ensino médio do Colégio Monteiro Lobato, situado na capital paulista, iniciativa da qual participei, com grande alegria, como mentora.

No semestre passado, fui procurada pelo aluno Victor Macario, que, com mais três colegas – Caio Muniz de Sousa, Fernando Padoin Andrade de Oliveira e Gustavo Henrique Crisostomo Serafim –, decidiu investigar novos modelos educacionais para apresentar na Mostra Cultural da escola. O grupo fez uma reflexão de que a escola atual não atende às suas necessidades e não está conectada aos seus interesses. “Não queremos que as futuras gerações passem pela mesma situação. Nossa intenção é mostrar que há outros modelos educacionais que podem ser mais voltados a uma aprendizagem significativa”, disse Victor Macario, o que me levou a desafiá-los a realizar a pesquisa, envolvendo não somente os alunos, mas também pais, professores e jovens recém-saídos do sistema educacional.

Fizemos uma reunião com a participação do vice-diretor da escola, Diego Assis, dividimos as tarefas entre os diferentes integrantes do grupo de trabalho e, posteriormente, mantivemos contato contínuo por meio de um grupo no WhatsApp e reuniões por Skype para realizar a pesquisa. Assumi o papel de mentora e todo trabalho foi desenvolvido pelo grupo, desde a elaboração do questionário, a extração e análise dos dados, até a redação de um artigo que foi publicado em meu blog na revista Exame.

Os indicadores do estudo mostram que há muito a ser feito para que a escola atenda aos anseios da atual e das próximas gerações. Fiquei muito satisfeita em ter me envolvido nesse projeto porque a iniciativa da pesquisa foi justamente dos maiores interessados em construir um novo modelo de escola: os próprios alunos, o que trouxe para o questionário um olhar dos que são diretamente impactados pela qualidade da educação e que frequentam instituições que, na visão da maioria, não estão mais alinhadas com as demandas do século 21.

Fomos positivamente surpreendidos ao descobrir que não apenas os alunos clamam por mudanças. Para 100% dos pais e professores, a escola não deve capacitar os alunos apenas para passarem no vestibular. Entre os estudantes, somente 12% indicaram ter sucesso na prova como o principal foco. Ser um bom cidadão foi o propósito mais importante, apontado por 31,6% dos docentes. Pais (55%) e alunos (33,1%) acreditam que a escola deve, principalmente, desenvolver os estudantes intelectualmente.

A pesquisa foi conduzida por meio de um questionário publicado na internet e divulgado pelas redes sociais e por outros canais de comunicação. O levantamento obteve 422 respostas: 117 professores, 133 alunos, 108 pais e responsáveis e 64 ex-alunos (jovens que saíram da educação básica há menos de cinco anos).

Alguns outros dados revelados pelo levantamento:

- 34,2% dos professores estão desmotivados. Entre os fatores mais citados para a desmotivação estão baixos salários, péssimas condições de trabalho e desinteresse dos alunos;

- 90% dos alunos querem realizar atividades de aprendizagem fora da sala de aula;

- 57% dos alunos estão motivados a ir à escola, mas é interessante observar que, quando perguntados sobre o que os motiva, 26,8% responderam que são os amigos;

- 31,6% dos professores acham que o interesse do aluno é fundamental para que ocorra aprendizagem. Já alunos (34,6%) e pais (34,3%) consideram que a metodologia de ensino é fundamental para que isso ocorra;

- 96,4% dos alunos, 95,3% dos professores e 95% dos pais são favoráveis a mudanças no sistema de ensino brasileiro.

Além da importância da pesquisa, pelo seu tema e por quem foi conduzida, essa experiência é um exemplo concreto de como podemos trabalhar com projetos de aprendizagem e colocar o professor no papel de mediador. Ao motivar os alunos a mergulharem em um tema do interesse deles, estimulamos o desenvolvimento de diversas competências, como pesquisa, leitura e interpretação de diferentes tipos de texto, comunicação e expressão, uso de tecnologias digitais e exercício da cidadania.

O resultado não poderia ter sido mais satisfatório: o brilho nos olhos dos alunos. E, então, professor? Por que não dar mais autonomia a eles? Por que não trabalhar mais por projetos de aprendizagem? Tenha certeza de que você e sua turma só terão a ganhar.

+Na web

Apresentação completa da pesquisa pode ser acessada no link pt.slideshare.net/institutocrescer/a-escola-e-o-sistema-de-educao-brasileiro-resultados-da-pesquisa.

Artigo publicado na edição de outubro de 2015

+ Educação
Assine a newsletter mensal e gratuita +Educação e receba ainda mais conteúdo no seu e-mail!