Lembro com saudades das feiras de ciências de que participei em minha vida escolar. Sempre muito curiosa, adorava aquele momento único do ano em que finalmente podia sair de minha zona de conforto para me debruçar sobre um projeto em equipe, que seria depois apresentado a colegas, pais e mestres. Havia mais sentido em construir algo concreto que simplesmente resolver exercícios em apostilas ou passar horas lendo teorias que jamais teriam uma aplicação prática. A pedagogia do fazer (maker pedagogy, em inglês) não é exatamente uma novidade. No início dos anos 1970, o educador Jean Piaget já observava: “Os estudantes com dificuldade em matemática têm uma atitude completamente diferente quando o problema vem de uma situação concreta e está relacionado a outros interesses”.

A capacidade de inventar, criar e descobrir pode ser entendida como um talento nato daqueles que já nasceram com uma vocação para ciência. Se antes a oportunidade de “brincar” de cientista era reservada às aulas no laboratório, hoje as novas tecnologias digitais disponibilizam incontáveis ferramentas que vão muito além do tubo de ensaio e do microscópio. Basta que o aluno seja autorizado a usar seu próprio celular onde quer que esteja ou seu computador em casa para embarcar em uma aprendizagem mais lúdica e eficaz. Mas os docentes precisam estar atentos para que essas tecnologias não estejam desvinculadas do aprendizado.

Aprender pode, sim, ser divertido. No entanto, crianças e adolescentes que não recebem orientação e mentoria podem não ter autonomia e responsabilidade para entender que esse processo não se trata de uma brincadeira, mas do planejamento e da realização de um projeto sério, no qual eles são os principais protagonistas e integrantes de uma nova geração de inventores. Shawn Michael Bullock, professor da Simon Fraser University, está conduzindo um projeto de pesquisa sobre maker pedagogy (saiba mais em www.makerpedagogy.org), que busca entender como aprendemos com base na experiência. Em seu site, Bullock descreve seu entendimento acerca da pedagogia do fazer: “É um método de aprendizado que utiliza os princípios do hacking ético (como desconstruir tecnologias com o propósito de criar conhecimento), da adaptação (a liberdade de usar as tecnologias para novos propósitos), do design (selecionar componentes e ter ideias para resolver problemas) e da criação (desenvolver conhecimento com base no engajamento no processo de fazer e criar produtos tangíveis)”.

Para estabelecer uma “cultura do fazer”, é fundamental que os professores estejam dispostos a romper estruturas arcaicas e engessadas de ensino. É preciso virar a chave. A educadora Jackie Gerstein enumera sete pontos de atenção para que os docentes abracem um modelo de aprendizagem baseado em processos:

1. Os professores acreditam que devem ser experts em conteúdo. Essa é uma barreira que os impede de aprender algo novo com seus alunos.

2. Os professores acreditam que devem dar aulas expositivas para passar conteúdo aos estudantes. Isso é necessário, mas muitas vezes torna-se apenas uma transferência das anotações do professor para o caderno do aluno, sem que haja oportunidade de reflexão.

3. Os professores acreditam que devem ter todas as respostas, mas saber tudo elimina a chance de aprender com os alunos.

4. Os professores foram treinados para acreditar que sempre deve haver conclusões previsíveis ao realizar uma tarefa, mas eles devem estar cientes de que muitas vezes não é possível planejar para aprender.

5. Os professores acreditam que uma classe silenciosa é mais adequada, porque os alunos estão atentos ao que estão dizendo; porém, é preciso haver momentos em que os alunos são autorizados a explorar e a criar seus próprios conteúdos e objetos, sem a necessidade da intervenção dos mestres.

6. Os professores foram treinados para se assegurarem de que jamais cometerão erros diante de seus alunos. Mas um erro pode, eventualmente, ser uma grande oportunidade para que todos possam aprender, incluindo o próprio professor.

7. Os professores foram preparados para serem os únicos assessores e avaliadores do trabalho de seus alunos, mas a autoavaliação e a avaliação de seus colegas têm papel importante no processo de aprendizado.

E, então, professores? Vamos deixar que os alunos coloquem a mão na massa? Ferramentas não faltam. Oriente-os a criar um blog, fazer uma apresentação no Prezi ou criar uma comunidade de aprendizagem em uma rede social. Revelar novos cientistas só depende de você.

Artigo publicado na edição de agosto de 2015.

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