Gabriela e Rafael estão matriculados na mesma escola. Ela, no 1º ano do ensino médio, ele, no 7º ano do ensino fundamental. Temperamentos diferentes – ela é ousada, crítica e contestadora, Rafael, bem mais tímido, é extremamente irônico, ainda que esperto e dotado de alegria interior escrita apenas em seus olhos brilhantes. Contam com a sorte e o privilégio de serem alunos de uma das escolas brasileiras em que os ensinos fundamental e médio funcionam em tempo integral. Amam a sua escola com aquele amor incontido, que apenas crianças inteligentes e adolescentes ousados atrevem-se a sentir.

Gabriela, depois de olhar, apaixonada, o leque variadíssimo de opções de cursos propostos para sua participação, escolheu Arquitetura, Astronomia e Investigação Policial, mas já antecipa quais escolherá depois de concluí-los. Rafael, de forma mais incisiva, optou por Matemática nos esportes coletivos, Criatividade nos contos de fada e Ciências nas viagens espaciais. Adoram as aulas práticas no contraturno, mas compreendem que sem a base desenvolvida nas aulas matutinas sua ação nos laboratórios será quase nula. Não se lembram de terem ouvido de seus professores do turno da manhã ou seus tutores da tarde a palavra “interdisciplinaridade” e, talvez, se inquiridos, não saberiam explicar o que significa. O que sabem é que as habilidades e competências requeridas em seus projetos integram todas as disciplinas entre si e que, a Matemática, por exemplo, pode ser apreendida em sala de aula ou na quadra de esportes, quando se olha pelo telescópio ou quando se pesa produtos nas atividades culinárias.

Outra coisa que ignoram é o significado de “fácil” ou de “difícil”, pois tudo na escola é alegria. E pesquisar impressões digitais com a lupa ou refletir e debater sobre emoções humanas nos painéis de fotos promovem a utilização de recursos diferentes, mas em momentos de entusiasmo e com ferramentas fabricadas por eles mesmos, sempre orientados por professores muito bem preparados. Em casa, à noite, com o pai e a mãe que, instruídos pela escola, debatem os “projetos de vida” que foram levados a organizar, atropelam-se com palavras de paixão e entusiasmo que embalam suas pesquisas, investigações, ações empreendedoras ou momentos de meditação. Falam de física atômica ou química inorgânica com igual familiaridade com que abordam temas éticos ou as relações internacionais e leitura de mundo nas páginas do jornal diário. Sabem que seus colegas e seus amigos são diferentes e se encantam com as diferenças desde que aprenderam a percebê-las na diversidade da natureza, nos atropelos da história. Apenas um sentimento comum os entristeceu: descobriram, depois de pesquisar, que apenas uma porcentagem ainda pequena das escolas brasileiras funcionam como a deles, em regime de tempo integral.

 

Artigo publicado na edição de janeiro de 2015.

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