Nasci numa família ateia, de origem judaica, e estudei num colégio de freiras dominicanas portuguesas. Minha mãe escolheu o Santa Catarina de Sena, então um pequeno colégio na Rua Tomé de Souza, na Lapa (mais tarde se instalaria num casarão na Rua Manoel da Nóbrega, no Paraíso), porque era o melhor do bairro. Embora ateia, minha mãe não se incomodou que eu estudasse numa escola religiosa. Para ela, o que importava era o conteúdo didático. Ao me matricular, impôs apenas uma condição: converter pode, batizar, não. Receber o sacramento do batismo só depois dos 18 anos, se eu viesse a querer. Nunca quis.

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Pode ser chato ou penoso – se preferirmos – encarar novamente o fim das férias, as provas e o ser promovido ou ficar reprovado. Todo ano a mesma coisa. Nada de novo. São sempre as mesmas ansiedades, as dúvidas se repetindo. Quem escreve sobre escolaridade não tem como não cair nessa armadilha, que corresponde à grade da rotina do ano escolar. Quase todos os países de todas as partes do mundo obedecem a um conjunto de regras em sequência temporal: fim do verão, outono, férias de inverno, primavera, as grandes férias de verão, e começa tudo de novo.

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Está na hora de pensar no ano que começa. O que vamos sugerir para desenvolver nestas mal traçadas linhas neste novo ano. Queria focar algo de novo – mas escolaridade muda muito devagar. Que eu bem me lembre, no ano que passou andei pensando muito na função libertadora da escola. Epa! – dirá o meu leitor – escola libertadora? Pois é, sobre isso que quero falar. Em alguns textos escrevi sobre a escola como primeiro e mais importante passo que a criança dá em direção ao “espaço externo” do domínio familiar. É aí que nos defrontamos com o diferente. Diferente da casa, família extensa, relações de vizinhança e classe socioeconômica.

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E as férias vão chegando... A aproximação delas é bem diferente do que era para os estudantes de antigamente. Outrora a escola ocupava um espaço enorme na imaginação e fantasia do jovem. Era todo um estado de espírito. O calendário escolar organizava a vida do estudante: eram os meses de aula, era o medo e a preparação para as provas, era a espera das notas e, finalmente, as férias. Assim era, praticamente, a vida do jovem aluno.

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Durante muitos e muitos milênios, o homem, graças a seu polegar na magnífica posição que ocupa na mão, pôs-se a fazer. Mas o humano não é apenas aquele que faz; ele tornou-se complexo, muito complexo, ao também se comunicar. O humano diz ao outro, por meio de gestos, mímicas, palavras, o que deseja para formar uma base comum. Começou com um nome para chegar à palavra que designa o fazer, o falar, o lembrar. O nome e a palavra nos tiram do isolamento. Uma árvore, o vento e o frio podem ser comuns a todos. E se ganham um nome, o grupo está formado.

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Será que o melhor aluno é o mais contente? No mundo dos adultos, cabe ao vitorioso rápida alegria ou euforia da vitória. E na escola, no jardim da infância, será que o melhor é o mais contente? Quando se trata de educação infantil, habilidade manual e motricidade ocupam grande espaço na atividade de valorização da criança. Crianças com dificuldades motoras têm a autoestima atacada. O senso de menos valia prevalece. Ser o último a ser escolhido no recreio para as equipes de jogo de bola é humilhante. O último escolhido é o não escolhido.

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Durante noventa minutos, o grito ficou entalado. Durante noventa minutos, a euforia não pôde ser expressa. Durante noventa minutos e mais o intervalo, todos nós queríamos ser felizes juntos ou até infelizes. Nenhuma emoção pôde aflorar nos noventa minutos. A tarde de terça-feira foi tensa. Um dezessete de junho a não ser comemorado. Em 1950, quando perdemos a Copa, nosso corpo foi marcado. Ninguém esquece a “Copa de cinquenta”, aquela que nós perdemos. Falo de sentir junto, de saber que todos os habitantes (conscientes) da nação à qual pertencemos estão sentindo em uníssono. Um remédio para todos os males. São momentos em que não estamos sozinhos.

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Afinal, qual é a semelhança entre um mestre que orienta, um professor que ensina, um pai e um líder de uma nação? Todos ensinam a nos transformar, divulgam verdades e ensinam conhecimentos. Os homens que lideram a sociedade são detentores da palavra. As mulheres, nas mais variadas posições que ocupam no mundo moderno, nos ensinam a ser com base em hábitos, costumes e jeitos de viver o dia a dia. As mulheres constroem a partir do dia a dia vivido e a linhagem masculina conta essa história.

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A escola, essa de fileiras, a tradicional, em que cada um tem o seu lugar de sentar, melhor falando, cada um tem a sua carteira de frente para a lousa e a mesa do professor, essa escola é mais de ouvir do que de ver. A paisagem que cada um de nós vê na sala de aula é cansativamente monótona por horas e horas. Eventualmente, conteúdos mudam no quadro-negro. Em nossa frente, a mesma nuca, o mesmo colega. Poderíamos dizer que essa escola é a escola sonora. O humor e a surpresa ficam praticamente ausentes.

Há muitas décadas, os professores anunciavam quando “dariam um ponto novo”. O tal do ponto novo era esperado. A escola não era amada, não despertava paixão. O tédio era a sensação dominante. Era tão monótona que até inspirou um programa de rádio. Em meio a uma liberdade maior, a Escola risonha e franca era um programa diário de rádio no qual Dona Olinda era a professora e cada aluno tinha uma personalidade, um jeito de ser.

Já na escola de verdade tínhamos que ser todos iguais. O diferencial era a nota que se conseguia e o comportamento. Havia nota de comportamento, sim. Mexer-se muito na cadeira dava nota baixa de comportamento no boletim. A carteira era uma prisão, na qual o aluno tinha que fingir interesse por um conteúdo pouco interessante. Alguns professores excepcionais conseguiam minimizar o peso do tédio.

Hoje não podemos imaginar que crianças de 6 a 10 anos, por exemplo, consigam ficar ouvindo e fazendo coisas “chatas”. Hoje os olhos das crianças estão acostumados a ver movimentos ininterruptos dos jogos eletrônicos, da televisão. A postura é parecida: a criança fica parada e a máquina traz imagens em movimento, sem parar.

Não posso imaginar o que vai acontecer com as mentes criadas à vista de movimento com o corpo parado. Qual será a consequência disso? Ainda está em gestação a primeira geração com essa nova condição. Em casa, televisão e joguinhos. Na escola, tablets e outros recursos para atrair o olhar.  Conteúdos sempre em movimento são apresentados aos corpos parados. Antes, era corpo parado diante de conteúdo parado. Agora, o olho vê movimentos, aproximações, afastamentos e sons.

E o que vai acontecer com as nossas bibliotecas de livros impressos, cujo conteúdo não está nas nuvens?  Estamos vivendo um momento de diluição do livro-objeto. O livro-objeto que enfeita as prateleiras torna-se cada vez mais objeto e menos fonte de informação. Ninguém quer que o livro desapareça, apesar de recorrer cada vez mais ao conteúdo eletrônico.

Vivemos em um momento de muita dificuldade: ainda queremos que a escola tenha biblioteca e que ela seja eletronicamente equipada. Que bom que ainda temos os dois! Ainda é notícia de jornal a existência de bibliotecas nas escolas, assim como é notícia também o quanto de recursos eletrônicos estão disponíveis nas mesmas escolas. Um não substitui o outro. Um não rouba espaço do outro. Existe uma especificidade sensorial no livro impresso e uma mental no livro eletrônico. O conteúdo pode até ser o mesmo.

Este é o momento que nós vivemos: a superposição dos dois recursos para acessar conteúdo. Um a gente apaga, outro a gente guarda. Um a gente guarda na nuvem, outro a gente guarda na estante. Parece que ficamos mais ricos. Será?

 

Artigo publicado na edição de junho de 2014.

O que uma criança vai se tornar e, talvez seja melhor dizer, o que uma criança encontra em seu caminho para se tornar um adulto são duas forças muito fortes: a família, que a torna humana, e o Estado, que a torna cidadã. No núcleo familiar, em que estão as sementes a serem germinadas, também é transmitido um sentimento orientador inestimável: a fé. Desse mesmo núcleo, também pode sair o ceticismo. A questão é crer ou não crer: ter esperanças, expectativas, desejar ou apenas aceitar e receber o que acontece.

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