Não consigo chegar na hora em lugar nenhum. Nem quando estou apaixonada. O que eu faço? Nem vou dar a dica de atrasar o relógio ou de mentir para si mesma, afirmando que o encontro é às quatro e meia, e não às cinco. Quem tem o vício de se atrasar precisa ser visto como um viciado, que dribla todos os recursos que têm o intuito de privá-lo do vício.

É curioso acompanhar como se dá a relação do “atrasante” com o mundo. 

Fazer-se esperar é, no mínimo, desrespeitoso, por isso cabem pedidos de desculpas e outras justificativas. Quem se atrasa sabe que há alguém esperando em algum lugar. O outro é privado de sua presença, mas mantém-se presente no coração e devagar uma raiva se instaura. É um tipo de invasão, um uso não permitido. Mesmo quando não estou, minha presença é desejada – quem me espera está pensando em mim, desejando  minha presença, e nem preciso correr o risco de não agradar.

Basta chegar. 

Dificilmente o “atrasador” pensa na raiva que desperta no outro que o aguarda. Pode até temer um pito ou uma careta, mas tem certeza de que sua ausência não vai passar em branco. Podemos ver o atraso como uma usurpação do tempo alheio. É um recurso pobrinho de quem não se valoriza muito. Quem se dá o devido respeito, não precisa furtar lugar na consciência alheia.

Existimos e, por isso, somos obrigatoriamente lembrados. Não tem jeito. Existir marca o mundo. Existiu? Será lembrado, algum dia, por alguém ou por muitos.

Artigo publicado na edição de novembro de 2014 da revista Profissão Mestre

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