Os hebreus sempre foram conhecidos como o “povo da escrita” e, dessa forma, levaram da Caldeia para o Egito toda a sua cultura. Lá permaneceram por muitos séculos até a travessia do Mar Vermelho, que os levou até o Monte Sinai. Organizaram o seu saber em regras que, futuramente, tomaram a forma da tábua dos Dez Mandamentos, que atravessaram mares, subiram montanhas, foram eternizados em pedras e até hoje os obedecemos. No Monte Sinai, nasceram não só os Dez Mandamentos, mas algo muito maior: a ideia de fazer com que regras possam atravessar os tempos por meio da escrita. Não se tratam de regras apenas para uma geração ou um povo – gravadas em pedra ou pergaminho, não apenas na mente, elas atravessaram os tempos. A ideia de permanência da cultura está associada diretamente à escrita.

Pode-se argumentar que os egípcios também desenvolveram a escrita – os hieróglifos, ao lado da escrita cuneiforme dos sumérios, são a mais antiga manifestação que conhecemos do desejo de fazer com que ideias não se percam, atravessem os tempos mesmo quando fora do contexto do sagrado. Quando se trata do sagrado, quem tem fé quer mantê-lo vivo. Dos Dez Mandamentos, só um fala em Deus. Eis aí a raiz do Estado: uma verdade consagrada fora do âmbito da fé. Cabe ao Estado organizar a sociabilidade também fora do âmbito religioso.

Os hebreus tinham regras de vida desde os tempos da Caldeia. Conseguiram manter sua forma de existir na fronteira entre a organização social e o sagrado. Atravessaram o Mar Vermelho de um lado a outro, subiram o Monte Sinai e percorreram os desertos durante quatro décadas até chegarem aonde o Ocidente nasceria, às margens do Rio Jordão.

Nenhuma regra sobrevive a gerações sem a escrita, a não ser que se relacione ao sagrado. As imagens rupestres são muito mais livres que o alfabeto. O pensamento e as ideias são traduzidos pela escrita com muito mais pertinência que pelos desenhos das cavernas, as placas de barro ou as paredes de pedra. Estas nos comunicaram mais sentimentos que regras. Os hieróglifos das cavernas do Egito e o pergaminho tornaram possível eternizar a história.

Tudo começou na beira do Nilo e do Mediterrâneo. O pergaminho é a primeira grande conquista do Ocidente, que é muito citada, mas pouco cantada. Graças a ele, pudemos levar a cultura debaixo do braço e espalhá-la a outros povos. Para transmitir traços de cultura milênios a fio com pouca deformação, é indispensável a existência de um material em que sinais possam ser entendidos ao longo dos tempos. Inicialmente foi a pedra, depois o pergaminho. Este pode ser carregado facilmente para outro lugar, facilitando a disseminação de ideias.

A participação da Mesopotâmia na origem da escrita, que foi gravada pelos sumérios em placas de argila, não é a mesma do Egito, que tinha o pergaminho, o Rio Nilo e a Bacia do Mediterrâneo. A escrita egípcia era, pois, transportável. Para tanto, tinha vias adequadas: o pergaminho, que era leve, o rio e os mares. Outra conjunção hídrica que participou da modelagem de nossa cultura foi a do Rio Jordão e a do Lago de Tiberíades (ou Mar da Galileia), em que muitas palavras sagradas e moldadoras de consciência ocidental também transitaram. Quando observamos o mapa do Oriente Médio e do norte do Egito, fica claro como é importante poder difundir ideias, fazendo-as circular por escrito.

Uma ideia gravada em pedra – como o código de Hamurabi, que foi entalhado em uma rocha monolítica –, dependia de grupos humanos migrantes para ser difundida. O pergaminho podia ser levado debaixo do braço como se fosse um jornal. E agora, quando ondas hertzianas, energia elétrica, fios, pilhas, fibras óticas e satélites transportam e difundem ideias pelo mundo? As ideias não têm mais limite. Hoje elas são transportadas entre mentes por meio de energia e maquininhas. Ainda assim, no centro da África, pouco abaixo do Saara ou entre a Sibéria e o Cazaquistão, estão povos que continuam vivendo sem máquina nenhuma. Quem estuda comunicação tem que fazer a linha de ligação entre fibra ótica, telefone, televisão e formas mais simples de se comunicar, tão humanas, tão pouco mecânicas e que ainda vigoram em povos como os cazaques e os quirguizes, no Oriente Médio.

No mesmo planeta, existe a Quinta Avenida e existe o Quirguistão, ainda hoje, em 2015. Que grande época é essa em que vivemos, quando podemos ir de avião até a beira de um deserto que só temos como atravessar no lombo de um camelo. A maior parte de nossos mares está poluída, mas não o Baikal, um lago atrás do Himalaia que é visto como o maior reservatório natural de água potável do planeta e que os geólogos acreditam ser um oceano em nascimento.

Esse é o mundo em que vivemos: tudo se comunica, mas não obrigatoriamente se mistura. Vivemos entre o camelo e o avião, entre o giz e o tablet, em plena comunicação. E, muitas vezes, pacificamente.

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