Com a atividade que vou relatar, buscou-se observar posturas e diálogos recheados de “cientificidade mirim”, fomentar as ideias que vários estudiosos tiveram no decorrer de suas pesquisas, articulando tendências que historicamente se refletem nos paradigmas atuais, as quais, consequentemente, mostram o caminho que se deve engendrar. Ainda, identificar quais saberes norteiam as ações pedagógicas acerca das conversas, das releituras de experiências significativas, de ações advindas das crianças, do conjunto de interações que serve de pesquisa para a formação do sujeito como um ser crítico e político, e que, de uma forma ou de outra, constitui-se em uma análise para tornar visível a identidade de cada um.

Na realidade, toda a atividade realizada no Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) Tia Carlota, sediada na cidade de Teresina (PI), é sinônimo de pesquisa, de estudo e de reflexão, porém, ao observar as crianças em uma atividade realizada diante de um pé de tamarindo existente em nossa escola, no momento da contação de história, percebi diálogos e manifestações entre eles. Primeiramente, um deles falou: “o tamarindo é tão pequeno e nasce em uma árvore tão grande, e fica pendurado, olha só!”. Então eu perguntei sobre o tamarindo, e todos responderam quase em um só coro: “é azedo, tem caroço, tem uma casca”. Mas eu não estava satisfeita com as respostas, então, a partir daí, quis tornar mais difícil e conflituoso o diálogo. E perguntei: “como pode o tamarindo, que é pequeno e leve, nascer em uma árvore tão grande, e a melancia, que é tão grande e pesada, nascer se arrastando pelo chão?”. Anteriormente, as crianças tinham visto slides sobre a melancia, com a apresentação de características: suas sementes, como nasciam, produtos que podiam ser feitos com a fruta. Enfim, logo se iniciou um “varal” de conversas: “é porque a melancia ia fazer a árvore cair, porque ela é grande e pesada”, “como a melancia é pesada, não ia dar pra gente subir na árvore e pegar ela”, “o papai do céu fez assim”. E os questionamentos foram surgindo, e meu objetivo foi alcançado: questões a fim de construir um pensamento.

Por isso, e por outras colocações, conclui-se que “como um pé de tamarindo tornara-se uma aula expositiva? Simples a resposta: porque as crianças tinham conceitos pessoais e era necessário explorá-los, e tornar essa pesquisa uma documentação pedagógica, capaz de sustentar o diálogo, a subjetividade de cada um e o pensamento crítico e, consequentemente, valorizar o questionamento reconstrutivo”.

O sentimento que as crianças manifestavam em relação à pesquisa era de total empatia, de curiosidade, de cuidados, enfim, que foram se delineando no decorrer das atividades. Na releitura da imagem (no caso, do pé de tamarindo da escola), a escolha por essa estratégia acabou estabelendo uma relação do sujeito com o mundo, com eles mesmos e com o colega do lado, pois a interação que se manifestou contribuiu por favorecer para ampliar seu desenvolvimento estético, motor, político, social e construir de maneira reflexiva uma imagem de como é “esteticamente” a árvore, fazendo alusão às suas partes, as cores, o tamanho, etc.

Com essa prática, podemos considerar que o cotidiano escolar é responsável pela construção da identidade da educação infantil, o que é premente tornar essa postura ponto de partida para a infância como categoria social, que produz cultura e reproduz por meio de suas próprias experiências. Nesse sentido, adotar posturas de professor-pesquisador é deletar práticas ociosas e diminutivas que só “matam” a formação crítica dos alunos, e deixar-se permitir por práticas mais justas, humanas, responsáveis, comprometidas com o sentido dual saber-pensar e saber-fazer.

 

Construção de saberes

Quando nos propomos a atentar para a rotina das crianças e de sua cultura social, percebemos o quanto ainda é difícil perceber e vivificar a educação infantil; vemos o quanto é importante estudar, sentar e planejar em prol do aprendizado deles, e, além disso, descobrir a estrutura do pensamento para criar oportunidades de significados e de registrar essas experiências que são verdadeiros documentos para a prática e a construção de saberes. Documentar é uma prática que contribui para a interpretação das conjunturas vigentes entre as crianças, e isso só acontece devido às observações que são instrumentos reais para conhecer, descobrir e refletir sobre as práticas vivenciadas.

A representação existente entre a relação significativa diante das observações e de sua inteligência construtiva em volta do descoberto é tão importante quanto qualquer tomada de decisão pedagógica, é ponto de encontro e de relações diversificadas que possibilita o questionamento reconstrutivo para as crianças. E a cada observação e registro de atividades para a aprendizagem significativa, somos orientados para a reflexão, para o respeito com a identidade pueril, deixando para trás as “amarras” de que educação infantil tem uma visão estereotipada e neutra, e pelo contrário, efetiva-se pelo contexto do confronto de ideias que permite aos “pequenos cidadãos” apresentarem o que realmente são capazes de fazer e de construir.

Compartilhar esses diálogos é tornar significativo o material registrado, é apresentar os percursos de uma pesquisa-ação, seus resultados positivos, e tudo isso só confirma que é possível produzir outros sentidos para a construção de um currículo que represente a concepção verdadeiramente social, política, educacional, sem uma organização sequencial como nos é apresentado.

 

Autora: Michelle Ribeiro Cavalcante é pós-graduada em Gestão e Supervisão Escolar e Educação de Jovens e Adultos, funcionária da rede pública municipal de Teresina (PI). E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

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