Muitas vezes, nós, professores de línguas, deparamo-nos com situações embaraçosas em sala de aula. Situações em que a linguagem opera de maneira crucial ao colocar em xeque nossa credibilidade, e, consequentemente, nossa identidade como professores de Línguas Estrangeiras.

Um exemplo de sentença que já se tornou mito no Brasil é a asserção proferida por muitos estudantes de línguas: “não sei português, quanto mais inglês!”. Essa sentença, a princípio, pode parecer inocente, porém é muito mais do que uma simples constatação. Ela opera uma realidade social, constrói identidades. Essa sentença faz parte de um discurso maior, normalizador, que serve para manter a sociedade dividida em categorias, classes. Ela tem um poder imenso, porque opera na mente dos sujeitos comuns e reais (tanto professores e alunos), fazendo com que os sujeitos alunos se resignem com o fato de que nunca conseguirão aprender uma língua estrangeira e os sujeitos professores com o fato de que nunca conseguirão ensinar uma língua estrangeira, ou seja, eles recebem e aceitam passivamente identidades que os categorizam como pessoas incapazes de ensinar e aprender uma língua adicional, nesse caso específico, a língua inglesa.

Essa sentença/confissão mostra também como anda o ensino de Línguas Estrangeiras no Brasil, e, consequentemente, a autoestima de nossos alunos e professores. Observamos que a linguagem, vista nessa concepção, não é entendida como apenas um veículo neutro de informação, pelo contrário, ela constrói coisas no mundo social. Ela opera realidades, segundo Austin, Mastrella-de-Andrade e Norton. Nesse sentido, nunca devemos pensar linguagem como uma ferramenta neutra de comunicação apenas, como costumam alardear os vários livros didáticos de línguas dos ensinos públicos fundamental e médio. Devemos pensá-la como um sistema de significação sociocultural ligado a questões de poder, ideologia e representação (Silva).

Do mesmo modo que a linguagem serve para categorizar, cravar identidades, serve também como instrumento de questionamento, como mecanismo de poder e resistência contra essas posições identitárias, conforme ressalta Foucault e Butler. É importante que nós, professores de línguas, tenhamos uma visão mais flexível sobre linguagem, concebendo-a como um instrumento de transformação social e saibamos relacioná-la com o ato de educar. Assim, o conhecimento de linguagem que rege a nossa prática educativa serve de pano de fundo, em que algumas competências necessárias ao processo de ensino-aprendizagem de línguas podem ser erguidas. As competências profissional, discursiva, reflexiva e teórica, descritas por Almeida Filho e Basso, são exemplos de algumas competências necessárias a uma boa prática docente.  

É preciso que todo educador saiba explicar porque ensina como ensina, tenha conhecimento de seu papel na sociedade (como agente de transformação social), tenha bom conhecimento teórico sobre a importância do uso da linguagem como prática social, segundo Almeida Filho. Por último, penso que é de fundamental importância o professor saber falar a língua estrangeira que ensina. Um dos fatores que evidenciam a derrocada do ensino de Línguas Estrangeiras no Brasil é a falta de conhecimento teórico e comunicativo do professor de línguas. A maioria dos nossos professores está muito envolvida em um processo mecânico de ensino. Assim, o professor é concebido como mero aplicador de teorias linguísticas, desprovido de uma identidade reflexiva.  Pensa-se muito no ensino, aquele ensino bancário, no qual o professor deposita na mente dos alunos muito “conhecimento” e espera que rendam o bastante, como definiu Freire. Esquece-se do que está envolvido no processo de ensino-aprendizagem: afetividade e valorização do conhecimento de mundo do aluno.

O professor de línguas deve repensar o seu papel de aplicador de teorias linguísticas e métodos prontos, receituários em livros didáticos (materiais pedagógicos que têm por base uma concepção de linguagem como veículo neutro de comunicação). Deve construir o seu ensino, partindo de leituras sérias da literatura especializada seguidas de discussões em grupos de estudos com colegas, participações em congressos que abordem o tema de seu interesse, etc. O professor necessita ser um educador crítico neste mundo contemporâneo. É interessante fazer análise de sua aula por meio de gravações, filmagens, anotações que, posteriormente, desencadearão em descrições meticulosas de como anda o seu ensino, seu conhecimento comunicativo no idioma, etc. Somente pela reflexão, atitude e ação, ou seja, reflexão sobre prática e ação, é que o professor pode desenvolver conhecimento de competências necessárias, envolvidas no processo de ensino e aprendizagem de línguas neste mundo contemporâneo.

Tendo conhecimento de que não há relação de poder sem resistência (Foucault), o professor, por meio da própria linguagem, construirá um contradiscurso a sentenças do tipo “não sei português, quanto mais inglês” e não cairá no rol daqueles que “ensinam” para a exclusão, pois terá bastante conhecimento teórico-prático-reflexivo e atividades práticas inclusivas para conscientizar o aluno por intermédio de um diálogo crítico e emancipador de que ele sabe bastante Português para aprender Inglês.

Autor: Romar Souza Dias é professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), campus VI, Caetité–BA. Mestrando em Linguística Aplicada pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da Universidade de Brasília (UnB), onde desenvolve pesquisa sobre identidade de alunos de classes menos favorecidas e ensino de línguas. E-mail para contato: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

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