O contexto sócio-histórico em que estamos inseridos tem, como uma de suas características, o estabelecimento de relações amplas e globais, que muitas vezes tiram do foco dimensões de valores essenciais à formação da pessoa e, consequentemente, trazem implicações à consolidação de suas inter-relações. Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, este é um tempo marcado por “volatividade”, “incertezas” e “inseguranças” – cenário de uma modernidade líquida – no qual se faz necessária a urgência de uma retomada daquilo que é fundamental à vivência do ser humano em sociedade, bem como a ação de lideranças que se coadunem para a superação dos desafios atuais e para a promoção dos valores essenciais à vida.

Uma chave de leitura para essa concepção pode encontrar referência no pensamento do filósofo Platão, quando este trata dos valores básicos ao homem, como a justiça, a fortaleza, a temperança e a prudência. Esses quatro pilares eram chamados, em grego, de areté, ou seja, “valor”, cujo significado etimológico correspondia a “competência” e “força”. Assim, os valores eram considerados como fontes de forças inspiradoras para as pessoas.

O termo “valor” em português teve como predominância denominativa a palavra “virtude”, devido à sua origem na palavra latina virtus, que tem o significado de “força”, “excelência”. Dessa forma, de acordo com Arménio Rego et al, em sua obra Pequeno Livro das Virtudes para Grandes Líderes, “as virtudes são desejos, hábitos e ações que geram o bem nos planos pessoal e social. São disposições ou inclinações dos indivíduos, orientados para fazer o bem e que se aperfeiçoam como hábito... Virtudes apenas existem se forem praticadas” (REGO et al, 2013). É nesse sentido que um dos grandes conferencistas internacionais sobre liderança, Anselm Grün, afirma: “A virtude é necessária para a minha vida ter valor” (GRÜN; ASSLÄNDER, 2014).

Uma das formas dessa valoração concretizar-se na vida das pessoas tem sua expressão na dinâmica do trabalho desenvolvido nas organizações. Para isso, se faz necessário um movimento de gerenciamento atento à construção de relações valorativas com os colaboradores. Esse processo deve reforçar a identidade de uma liderança baseada em virtudes, tendo o poder como um grande aporte constitutivo relacional, sobretudo porque, “para ser um líder virtuoso, é preciso usar devidamente o poder, sem cometer abusos. Porém, o poder sem virtuosidade também gera fragilidade” (REGO et al, 2013).

Ao longo das últimas décadas, diversas escolas de administração promoveram a formação de líderes focados em resultados, sem medir as consequências e o impacto das atitudes desses sobre os liderados. Já os estudos recentes na área trazem um alerta para os perfis de líderes que a todo custo buscam crescimento dos resultados institucionais, em detrimento das pessoas e dos valores que compõem a organização. Tais estudos indicam que, assim, há uma real probabilidade de obtenção do insucesso, seja esse em curto, médio ou longo espaço de tempo.

Em contraponto ao tipo de formação das lideranças plasmadas nessas escolas, o autor Grün (2014) conclama os líderes a promoverem cada vez mais, em suas organizações, relações com os colaboradores fundamentadas numa base de valores humanos, pois, segundo o autor, “os valores dão sentido à minha vida, uma vida sem valores não tem sentido. E a falta de sentido leva a se perder o interesse. Precisamos de modelos que nos motivem, que despertem em nós o prazer de trabalhar neste mundo”.

Certamente, esse é um dos grandes desafios para a formação e atuação dos líderes de hoje: desenvolver processos de gestão cuja liderança sirva como inspiração aos colaboradores e, ao mesmo tempo, promova a vivência das virtudes, uma vez que estas são fontes das quais se haure energia. Essa construção consolida-se em líderes que promovem uma Gestão Humanizada, a qual visa dentre outras ações - manter o bom convívio entre as pessoas e possibilitar, concomitantemente, o alcance de melhores resultados organizacionais.

 

*Amaro França é graduado em Pedagogia e Ciências Religiosas. Possui especialização em Psicopedagogia e MBA em Gestão Acadêmica e Universitária. Diretor geral do Colégio Sacré-Coeur de Marie do Rio de Janeiro. Escritor, conferencista nas áreas de liderança e gestão educacional e consultor educacional

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REFERÊNCIAS

BAUMAN, Z. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 2003.

FRANÇA, A. L. S. Interlocuções: reflexões sobre a vida. Olinda, PE: Ed. Tecnografic, 2009.

GRÜN, A.; ASSLÄNDER, F. A arte de ser mestre de si mesmo para ser líder de pessoas. Petrópolis, RJ: Ed. Vozes, 2014.

REGO, A., PINA, M.; WOORD JR. T. Pequeno livro das virtudes para grandes líderes: 15 qualidades essenciais à sua carreira. São Paulo: Ed. Livros de Safra, 2013.

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