Encontramos hoje em nosso país um déficit em desenvolver habilidades sociais que, até há pouco tempo, eram menosprezadas diante um belo currículo acadêmico. Embora muitas vezes sejam mais requeridas que as próprias habilidades técnicas, as habilidades sociais não são ensinadas em nossas instituições de ensino. Não temos salas de aula nem equipe escolar capacitada para o desenvolvimento de um aprendizado simples como “relacionamento interpessoal” e “resolução de conflitos”. Assim, vamos aprendendo com a vida, da forma mais dura e incompreensiva, que essas habilidades são tão ou mais necessárias que qualquer outra.

 

Tudo poderia ser bem diferente se, ao entrar na escola, uma criança pudesse ter acesso ao ensino maciço do comportamento social básico, como pedir ajuda ao colega, esperar a vez de falar e ouvir atentamente. Podem parecer atitudes simples, mas para uma criança não são. Crianças em fase escolar inicial são egocêntricas e, se não as ensinamos como desenvolver essas competências, corremos sério risco de que sejam adolescentes, jovens e, posteriormente, adultos individualistas, em uma sociedade em que o comum a todos se faz cada vez mais necessário.

Um exemplo básico da falta de habilidades sociais está em filas ou ônibus, em que jovens e adultos não respeitam a prioridade de idosos e grávidas. Seriam esses indivíduos tão culpados por não respeitar a lei do bom senso? Provavelmente não! Não lhes foram ensinadas algumas regras básicas de convívio e eles, duramente, terão que aprender com a vida.

Pois bem, o que deve ser feito, então? A resposta é bem clara: crianças devem aprender habilidades sociais. Não como uma nova disciplina na escola, mas sim como a oportunidade de conviver mais e melhor com seus colegas. Hoje estamos tomados, desde a pequena infância, pelos smartphones, tablets, notebooks e outros aparelhos tecnológicos e deixamos a interação com seres humanos em segundo plano. Mas é justamente essa interação humana a responsável pela produção de habilidades sociais muito primárias. Crianças devem brincar com crianças, não somente com aparelhos. O uso da tecnologia é essencial e devemos desenvolvê-lo, porém ser habilidoso socialmente é essencial. E podemos começar com simples gestos.

Lembram-se das palavrinhas mágicas aprendidas na escola? Por favor, obrigada... Pois é, elas ainda existem e devem ser ensinadas em casa, quando surgem as primeiras palavras. Ensinar a brincar com os colegas e a dividir o lanche também é parte importante da educação. Uma criança assimila muito mais por imitação. Seja o adulto exemplo para a criança. Seja o guia para que essa criança tenha um referencial. Promova conversas enriquecidas com as crianças, propondo descobertas e desafios para elas. Estimule as brincadeiras em que a criança pode ser o líder, mas também o liderado e, após a brincadeira, explique a ela a importância de cada um dos papéis. Recompense com afeto: abrace, elogie.

Como educadores ou pais de alunos, podemos conversar, interagir, fazer com que as crianças participem de conversas sabendo sua vez de ouvir e falar, respeitando a opinião dos colegas e colocando suas opiniões de maneira assertiva. Essas rodas de conversa devem acontecer principalmente na escola, visto que esse é o primeiro ambiente social do aluno. E, para que rodas de conversa aconteçam, precisamos apenas de um assunto interessante e que todos tenham o mesmo direito a falar e ouvir.

O ensino de habilidades sociais deve ser, portanto, na prática, no dia a dia, na reflexão diária. Não se ensina uma criança a agradecer pelo presente antes de ganhá-lo, mas sim ao ganhá-lo. Educar é um ato de amor e decisão. Podemos escolher educar para passar conhecimento ou agregar outro valor: passar sabedoria, ensinamentos que serão necessários por toda a vida. Em qual dessas opções você educaria seu filho?

 

Gisele Vitório é formadora de Aprendizagem Sistêmica na Planneta, empresa do grupo Vitae Brasil. É graduada em Gestão de Recursos Humanos e pós-graduada em Gestão Estratégica de Pessoas e Psicologia Organizacional

 

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