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Torpedos avisam se o aluno está na escola
Amanda Cieglinski

Foi-se o tempo em que era só nas reuniões, boletins ou conversas com a direção da escola que o pai ficava sabendo das faltas do filho ao colégio. Graças à tecnologia, uma mensagem diária enviada ao celular de cada responsável vai avisar quando o aluno está ou não na escola. O que parecia ser coisa do futuro passa a ser realidade na Escola Estadual Osvaldo Martins, em Osvaldo Cruz (SP), a partir de 2010. Para educadores ouvidos pela reportagem, a medida traz muitas vantagens, mas também há quem questione suas consequências que só serão sentidas durante o ano letivo.

O colégio já possui um leitor biométrico desde 2009. É com as digitais que os alunos se identificam ao chegar na escola e a presença é registrada na chamada eletrônica, mas agora as informações serão transmitidas a um computador que enviará automaticamente as mensagens de texto para os celulares dos pais todos os dias. Segundo a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, por enquanto não há intenção de expandir o projeto para outras unidades escolares. A iniciativa é da própria Escola Osvaldo Cruz, apoiada pelo governo estadual.

O diretor do colégio, Sidney Zenaro, diz que, se fosse diretor de outras escolas, apostaria no sistema e conta que a chamada eletrônica foi instalada para ganhar tempo em sala de aula. “Eu fiz uma pesquisa e descobri que cada professor demorava, em média, 10 minutos para começar a aula, fazer a chamada. Nós temos 200 dias letivos, então são pelo menos 200 horas perdidas ao ano, além do tempo que se gasta com indisciplina”, explica.

A primeira tentativa foi a instituição de ensino utilizar cartões eletrônicos que registravam a entrada do aluno. “Mas aí, quando um faltava, dava o cartão para o colega passar na entrada e ganhar presença. Sem contar que tinha muita perda de cartões”, lembra Zenaro. A solução encontrada foi o leitor de digitais.

Segundo o diretor, com o leitor biométrico, houve uma melhora significativa da frequência na escola que atende 650 alunos do Ensino Fundamental e Médio. “O percentual mensal de faltas, que era 40%, agora é de 4% e queremos zerá-lo”, destaca. O equipamento, que custou cerca de R$ 10 mil, foi comprado com dinheiro arrecado em eventos promovidos pelo colégio. Hoje os pais já podem conferir essas informações em uma área reservada no site da escola, mas em 2010 poderão receber a notícia com mais comodidade, sem a necessidade do acesso à internet.

Para a próxima fase do projeto, Zenaro diz que já foram feitos vários testes para assegurar a eficiência do sistema. Segundo pesquisa feita pela instituição, cerca de 93% dos pais possuem aparelho celular, mas só receberão a informação aqueles que optarem pelo serviço.

O diretor não acredita que haja um “excesso de controle” com a nova medida. “Ao contrário do que a gente imaginava, os alunos gostaram da novidade. Eles querem que se coloquem limites e parece que muitas famílias não dão esse limite”, afirma. Zenaro lembra que também está cumprindo a legislação. “A lei estadual diz que eu tenho que comunicar aos pais, ao Conselho Tutelar e à promotoria de Justiça da Infância e da Juventude os casos de aluno com frequência irregular”, explica.

Tecnologia nas escolas

Na avaliação da presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe-DF), Amábile Pacios, não há uma grande inovação no serviço. Segundo ela, muitas escolas já oferecerem, por meio da internet, informações diárias aos pais sobre a frequência e até possíveis advertências em caso de mau comportamento.

Geralmente são áreas restritas do site da escola em que o acesso só é permitido com senha. Lá os pais podem ter acesso a vários detalhes sobre a vida escolar do filho e, em alguns casos, até mesmo se ele está em dia com os deveres de casa. “Nesse caso a inovação é o uso de uma tecnologia mais moderna, mas o serviço de avisar aos pais sobre a frequência já é uma prática”, diz. Ela acredita que esses sistemas ajudam a reduzir as faltas e podem ajudar na parceria entre escola e família.

Entretanto, para o doutor em educação e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), Cândido Alberto Gomes, é preciso ter cautela com o uso excessivo da tecnologia no ambiente escolar. Ele defende que o envio de mensagens de texto pelo celular ou qualquer outro tipo de serviço digital não pode substituir o acompanhamento dos pais ou responsáveis. “O torpedo pode dizer alguma coisa, mas nunca vi alguém desenvolver responsabilidade com esse tipo de esquema. As escolas são responsáveis, mas os pais precisam partilhar essa tarefa”, afirma Gomes.

A principal crítica é a de que a simples informação sobre a presença ou ausência do aluno não contribui para o processo de aprendizagem e nem para o desenvolvimento da criança e do adolescente. “Ela pode ter resultados positivos na questão da frequência, mas não vai levar ao desenvolvimento autônomo da criança”, problematiza o especialista.

O educador ressalta que o uso excessivo da tecnologia na sociedade de hoje leva muitas vezes a um estado de “histeria”. E o que pode acontecer se um dia o sistema de mensagens falhar e os pais ou outro responsável não for informado sobre a presença do filho? Para evitar este problema, Zenaro conta que os equipamentos foram testados diversas vezes. “Tem que funcionar 100%”, pondera. Amábile acredita que é inevitável a inserção dos recursos tecnológicos no cotidiano das escolas. “Não podemos abrir mão da tecnologia quando ela existe e é natural que ela se insira no ambiente escolar até porque os alunos são totalmente ‘digitais’”, defende.

Mas Gomes alerta para o possível clima de controle que pode ser criado com a medida. “Essa sensação de coação pode gerar raiva que pode levar o aluno a fazer coisas erradas a 100 ou 200 metros da escola”, prevê. Ele insiste que os sistemas eletrônicos não ajudam o aluno a desenvolver o senso de responsabilidade. “Há situações perigosas em que não é possível rastrear onde seu filho está. Ele vai receber oferta de drogas ou álcool e vai estar sozinho para dizer sim ou não. É preciso capacitá-lo para lidar com estas situações. Nada substitui o diálogo franco e a responsabilidade para o exercício da liberdade”, completa.

Segundo Zenaro, as decisões na escola são tomadas de forma democrática, com consulta ao Conselho de Pais e a várias lideranças do colégio, como o Grêmio Estudantil. É por isso que ele aposta no sucesso da medida a partir de 2010, tanto que já patenteou a ideia. “Se eu fosse dirigente, secretário ou ministro da educação, eu espalharia o sistema e o aprimoraria.”

Reportagem divulgada na revista Gestão Educacional 57, de fevereiro de 2010.






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