Às vésperas de sediar a Copa do Mundo de 2014, é oportuno estimular a reflexão sobre a história dos mundiais, assim como sobre as relações entre futebol e sociedade ao longo da história. Sem cair em extremos que vão da crítica venenosa, que só enfatiza os usos políticos do evento, à apologia euforizante, que se expressa pela recusa em pensar o futebol, o debate em sala de aula poderá ser uma fonte de estímulo ao estudo da história, além de contribuir para formar um público capaz de apreciar o mundial de forma qualificada. Para começar, um pouco da perspectiva em torno desse esporte.

A paisagem atual do futebol de­riva da globalização, que o afetou profundamente a partir dos anos de 1990, quando fronteiras e identidades nacionais cederam lugar à dinâmica do mercado, e grandes times europeus passaram a ser formados pela combinação de jogadores de nacionalidades diversas. Nesse processo, o Brasil tornou-se exportador de talentos e a maioria de seus melhores jogadores passou a atuar em solo estrangeiro. Todavia, o futebol permanece como um elemento marcante do laço social, mantendo consigo vários elementos tradicionais. Dessa forma, ainda que o comércio de jogadores provoque certa descaracterização nos times nacionais, os brasileiros, diante de sua seleção, não deixam de se pensar como brasileiros. Ter o “melhor futebol do mundo” continua sendo uma obsessão brasileira, e não há como negar que a Copa de 2014 faz parte de um projeto de afirmação nacional.

A relação entre futebol e identidade nacional nasceu com a Copa. Depois da primeira edição do mundial, em 1930, o governo Vargas passou a usar o esporte como uma representação da brasilidade, capaz de superar, como se dizia na época, as diferenças políticas entre integralistas e comunistas. A paixão pelo esporte era vista, dessa forma, como conciliadora de incompatibilidades ideológicas.

Após as vitórias de 1958, 1962 e 1970, a seleção brasileira tornou-se um mito, passando a representar a essência brasileira, com imensa capacidade de gerar orgulho patriótico e nacionalista. Considerada a melhor seleção de todos os tempos, a equipe que venceu a Copa de 1970 gera polêmicas ainda hoje, pois o pensamento crítico nacional tem dificuldade em diferenciar a identificação com a seleção com a ditadura militar vigente na época.

A partir da Copa de 1994, o perfil da seleção brasileira passou a sofrer o impacto da globalização. Depois de Romário, que teve atuação decisiva naquele mundial, o grande jogador brasileiro foi Ronaldo, que deixou o país aos 17 anos para atuar na Holanda. O “fenômeno”, como é chamado, revelou-se ao mundo na Europa, tornada sede do futebol global, entre jogadores de centenas de países e muitos canais de TV. Desde então, ouve-se o lamento daqueles que acompanharam a seleção de Pelé.

Esse plano de aula é um convite a que professores vistam chuteiras com seus alunos e investiguem como as copas do mundo espelham os dramas e os conflitos sociais de sua época. Fizemos um roteiro que permite ao professor transitar por diferentes períodos da história, de acordo com seu próprio planeja­mento. O importante é trabalhar com ao menos três copas, a fim de compor uma análise comparativa. Para conduzir o trabalho, indicamos algumas aplicações digitais, que hoje devem ser integradas ao ensino, segundo os principais parâmetros sobre aprendizagem no século XXI.

Objetivos:

- Criar condições para um posicionamento ativo e reflexivo sobre a Copa do Mundo de 2014;

- Identificar a relação entre a Copa do Mundo e os diferentes contextos históricos, de modo a promover o reconhecimento de semelhanças e diferenças entre períodos ao longo do tempo;

- Trabalhar conteúdos relevantes ao conhecimento histórico, tais como, identidade nacional, meios de comunicação, cultura popular, cultura de massas;

- Desenvolver competências para trabalhar colaborativamente, em ambiente virtual.

Materiais necessários:

- Acesso à internet;

- Criar uma sala de aula on-line para acompanhar o desenvolvimento dos alunos, compilar e organizar fontes colhidas da internet, notas de aula, citações, vídeos, websites. Se sua escola não dispõe de um ambiente virtual da aprendizagem, você pode criar uma conta de professor na rede educacional Edmodo (www.edmodo.com). Conhecido como o Facebook da educação, ele é fácil de usar, é gratuito e seguro. Como os alunos não precisam fornecer nenhuma informação pessoal para acessar o ambiente, não há restrição de idade;

- Criar uma conta no aplicativo Dipity (www.dipity.com), que permite a composição de linhas do tempo interativas. O acesso a essa ferramenta também é gratuito, e permite trabalhar colaborativamente.

Desenvolvimento

Primeiro momento:

Escolha ao menos três copas do mundo para elaborar uma análise comparativa entre elas. O futebol é um tema apaixonante. Use isso para engajar os alunos em um percurso de leitura, seleção de informações, e composição de um trabalho interativo a ser compartilhado, no mínimo, com sua comunidade escolar. A seguir, as etapas que poderão auxiliar nesse processo:

a) Seguindo o exemplo da introdução desse texto, prepare uma exposição geral sobre o tema, destacando os conceitos e as problemáticas a serem trabalhadas pelos alunos;

b) Crie um grupo on-line no Edmodo. Se precisar de um tutorial passo a passo, acesse http://migre.me/gkzb4

c) Instrua os alunos a entrar em seu grupo on-line e revele a eles como pretende usar esse ambiente. A sugestão é de que você o use para registrar as orientações para o trabalho, compartilhar arquivos a ser utilizados pelos alunos e permitir que eles apresentem dúvidas e/ou pedidos de orientação entre uma aula e outra;

d) Divida os alunos em pequenos grupos e atribua uma Copa do Mundo a cada um;

e) Apresente o aplicativo Dipity e ensine os alunos a editar as linhas do tempo. Nessa etapa, atenção professor! É possível que os alunos saibam manipular o aplicativo melhor que você. Não fique com receio, afinal, você está trabalhando com a geração Z, que não conhece o mundo sem a internet. Tudo o que você precisa para ter sucesso em seu empreendimento é manter a mente aberta e não inibir a criatividade dos alunos;

f) Revele aos alunos que cada grupo deverá compor uma linha do tempo interativa, caracterizando fatos da Copa do Mundo escolhida, bem como fatos do contexto histórico da época. Cada linha do tempo deverá conter fontes iconográficas, textuais e multimídia. Reafirmo que, provavelmente, o professor não precisará ensinar os alunos a fazer isso. Porém, será fundamental que forneça instruções sobre como selecionar fontes de confiança. Veja algumas dicas no fim desse plano de aula;

g) Estabeleça um prazo para a entrega da tarefa. A sugestão é de 15 dias. Reserve a aula seguinte para trabalhar com base nos materiais produzidos pelos alunos.

Segundo momento:

Os alunos terão começado a trabalhar com base nos materiais disponibilizados pelo professor. Nesse momento, a função do professor é orientá-los. Verifique quais fontes eles selecionaram e de que forma estão organizando as informações na linha do tempo. Responda às dúvidas e aponte caminhos para aprofundar a problemática do período, bem como para melhorar a linha do tempo. Em sua próxima aula, os grupos deverão apresentar os resultados à classe.

Terceiro momento:

Chegou a hora dos alunos revelarem suas linhas do tempo. Eles curtem esse momento. Se sua escola não tiver lousa digital, nem uma sala com projetor, nem um laboratório de informática, ainda assim você poderá seguir em frente. Permita que os alunos compartilhem o link de suas linhas do tempo e falem sobre os conteúdos que trabalharam, sobre as fontes utilizadas, enfim, que relatem como foi o processo de construção desse trabalho.

Em seguida, faça uma análise comparativa entre as copas selecionadas e encaminhe considerações sobre temáticas que poderão fazer parte do cotidiano das pessoas durante a Copa de 2014. Como sempre, o tempo presente é o que nos interessa. Para fechar com chave de ouro, reúna as três linhas do tempo em uma única e faça os ajustes necessários. Capriche no visual e a compartilhe com sua comunidade escolar.

Avaliação:

A proposta deste trabalho é que o professor atue como mediador, do começo ao fim do processo de construção da linha do tempo. Como referência para que se perceba a evolução dos alunos, devem ser observados os seguintes pontos:

a) Desempenho nos meios virtuais oferecidos: o aluno interagiu com os materiais disponibilizados? Atuou no grupo de trabalho on-line? Colaborou com a edição do material?

b) Utilização de TIC (tecnologias da informação e da comunicação) para processar informação multimídia: de que forma o aluno utilizou as fontes iconográficas e textuais? Apenas as inseriu na linha do tempo? Ou chegou a produzir material de sua autoria, como um vídeo, ainda que por meio de uma ferramenta tradicional, como o Powerpoint?

c) Busca, seleção e organização de informações: o aluno chegou a elaborar uma estratégia para selecionar informações? Ou apenas transpôs para a linha do tempo o conteúdo básico do que foi disponibilizado por você?

d) Utilização dos recursos TIC designados pelo professor para colaborar com os colegas e trabalhar em equipe;

e) Utilização dos recursos TIC para criar seus próprios materiais: os alunos foram criativos? Descobriram e inovaram?

Temas transversais:

Em nossa introdução, privilegiamos a relação entre a Copa do Mundo e a identidade nacional. Todavia, no interior dessa relação, há uma série de temas a ser explorados, tais como:

- Mestiçagem e racismo na composição das seleções;

- O impacto das copas nos meios de comunicação, e vice-versa;

- Amadorismo e profissionalismo no futebol brasileiro;

- Violência nos estádios como forma de controle social.

 

Para saber

Os temas anteriores podem ser encontramos no livro O futebol explica o Brasil, de autoria do historiador e jornalista Marcos Guterman (Editora Contexto).

Para uma compilação de artigos, fontes e sites sobre o tema, acesse: http://migre.me/gkyEs

Para um exemplo de linha do tempo interativa, acesse: http://migre.me/gkyqy

 

Autor: Rodrigo Abrantes é professor de História e coordenador de Tecnologia da Educação do Colégio Joana D’Arc, de São Paulo. Fez especialização em História da Ásia Contemporânea pela PUC-RS e graduou-se em História pela USP. Email: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

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