Nas últimas décadas, têm-se falado muito em bullying, tema que vem se destacando dentro do cenário acadêmico como uma entre várias dimensões da violência escolar. Mas, afinal, o que significa isso?

A palavra bullying, de origem inglesa, “é utilizada principalmente em relação aos atos agressivos de violência física ou psicológica, intencionais, repetidos e sem motivação evidente, praticados por um ou mais indivíduos”. Segundo Tatum e Herbert (citado em Fante & Pedra, 2008), é o desejo consciente e deliberado de maltratar uma outra pessoa e colocá-la sob tensão. É um termo utilizado na literatura de Psicologia sobre problemas da violência escolar, para nomear comportamentos agressivos e antissociais, capazes de causar dores e angústia com o objetivo de intimidar ou agredir a outra pessoa.

O termo bullying, no Brasil, é traduzido como o ato de assediar, atormentar, bulir, caçoar, constranger, depreciar, desmoralizar, desvalorizar, dominar, hostilizar, injuriar, oprimir, perseguir, ridicularizar, tripudiar, vexar, zombar, colocar apelidos jocosos, colocar em dúvida a masculinidade ou a feminilidade da vítima.

O bullying geralmente é feito contra alguém que muitas vezes não consegue se defender e não entende os motivos daquela agressão gratuita. De acordo com Lopes Neto e Saavedra, o bullying compreende todas as atitudes executadas dentro de uma relação desigual de poder, tornando possível a intimidação da vítima. Essas ações geralmente acontecem onde não há uma supervisão de adultos ou esta é insignificante. As pessoas que testemunham o bullying geralmente são colegas que silenciam por medo de serem as próximas vítimas, mas sofrem sentindo muito medo e ansiedade.

A escola deveria ser um espaço de aprendizado de conteúdos acadêmicos e de favorecimento de situações que corroboram para o crescimento de cidadãos conscientes e críticos. No entanto, tem sido, infelizmente, palco de um tipo de violência silenciosa, cruel e que muitas vezes pode deixar sequelas nas vítimas, como baixa autoestima, dificuldades de aprendizagem, distúrbio do sono, transtornos alimentares, irritabilidade, depressão, transtornos de ansiedade, pensamentos destrutivos, como desejo de morrer, entre outros. “A maioria das escolas ainda não está preparada para o seu enfrentamento. Algumas por desconhecimento, outras por omissão, muitas por comodismo e negação do fenômeno” (Fante & Pedra, 2008).

Trabalhar para reduzir o bullying não é fácil, muitas pessoas desconhecem totalmente o problema, e para outras esse tipo de agressão significa apenas “brincadeirinha”. Portanto, pode ser que um projeto antibullying encontre muitos obstáculos na sua execução.

No Brasil, uma pesquisa realizada em 2010 com alunos de escolas públicas e particulares revelou que as humilhações típicas do bullying são comuns em alunos do 6º e 7º anos do ensino fundamental. Frente a esses dados, propomos, sob a ótica da prevenção, um projeto visando à construção da cidadania para alunos do 5º ou 6º ano do ensino fundamental, uma vez que um trabalho de conscientização constante ajuda a evitar que o problema se instale.

Projeto Assembleia de Alunos: ins­trumento de construção de cidadãos

ÁREAS DE ATIVIDADE:

Português, História, Artes.

NTERDISCIPLINARIDADE:

Com base nos conteúdos trabalhados nas assembleias, entre as seguintes áreas:

- Matemática: conceito de média simples e os cálculos necessários para sua determinação.

- Português: conceitos de diferentes tipos de texto – estatuto (normas de funcionamento), código de ética (normas de condutas), descrição e narração.

- Artes: trabalho de artesanato – construção do “pedidor de palavra”

OBJETIVOS:

- Promover a construção de conceitos éticos nos relacionamentos sociais.

- Desenvolver habilidade de participar de discussões dentro de princípios democráticos de justiça, igualdade e equidade.

- Discutir questões da rotina de sala de aula.

- Desenvolver reflexão sobre as posturas de convivência nos diversos ambientes sociais.

- Levar o aluno a pensar que valores, como cooperação, diálogo, tolerância e solidariedade, são utilizados em todas as situações do cotidiano.

- Estimular a criação de relacionamentos saudáveis, em que os colegas tolerem as diferenças e tenham senso de proteção coletiva e lealdade.

- Desenvolver, no grupo, a capacidade de se preocupar com o outro, construindo uma imagem positiva de si e de quem está no entorno.

MATERIAIS NECESSÁRIOS:

1 Caderno para anotar o desenrolar da assembleia.

2 Um pequeno sino ou qualquer outro objeto sonoro para que o presidente interrompa discussões ou restabeleça a ordem.

3 “Pedidores de palavra”: objeto construído pelos alunos para indicarem seu pedido de palavra (um palito de sorvete ou churrasco com um disco na ponta, decorado e que tenha o nome do aluno de forma visível).

4 Um relógio com ponteiros de minutos e segundos que fique à vista de todos e que possa ser usado pelo presidente para controlar o tempo da assembleia e das falas concedidas.

5 Cadeiras em círculo, uma mesa para o presidente (marcada com uma toalha ou vaso de flores ou qualquer objeto de decoração que mostre a importância e a responsabilidade da função), uma mesa para o secretário, bem como caderno, lápis e borracha.

DESENVOLVIMENTO:

1 A cada reunião, a turma deve eleger um secretário e um presidente. A rotatividade dos cargos permite que todos experimentem o desenrolar da função, ampliando a vivência de diferentes papeis no decorrer das atividades. As responsabilidades do presidente e do secretário são apresentadas pelo professor em atividade anterior à primeira assembleia. As eleições permitem evolução de posturas e aprimorando, trazendo à consciência os critérios dos eleitores.

2 Cabe ao presidente conduzir a reunião, assessorado pelo professor de classe, que pode interromper ou encerrar a reunião quando julgar adequado.

3 Cabe ao secretário anotar as de­mandas e as decisões assumidas pela assembleia. Fazer uma ata ainda é muito difícil para essa faixa de desenvolvimento, portanto opta-se por registrarem-se as demandas apresentadas e as decisões votadas e aceitas pelo grupo.

4 A assembleia, em primeira reunião, elaborará seu código de conduta, que será impresso e distribuído a todos os participantes. Esse código também pode ficar exposto na sala de aula para consulta dos interessados. Anteriormente à primeira assembleia, o professor apresentará ao grupo regras aceitas em assembleias. Ler e discutir esse tipo de texto faz com que os alunos se preparem para construir o seu próprio código. Alguns exemplos podem ser apresentados, como:

- Os alunos escolhem o tema do dia, entre os apresentados por votação direta, sendo escolhido o caso que obtiver maioria simples;

- Não mencionar nomes;

- Falar um aluno por vez;

- Procurar ser descritivo ou narrativo, evitando o tom de reprovação;

- O aluno poderá mostrar-se indignado, porém não entrará em discussões pessoais;

- Aproveitar oportunidade para elogiar ou agradecer e, nesse caso, o uso de nomes não é restringido.

5 A assembleia poderá ser iniciada com todos cantando uma canção significativa à atividade como É preciso saber viver (Roberto Carlos, Erasmo Carlos), na versão gravada pelo grupo Titãs.

6 O presidente abre a discussão, perguntando quem gostaria de iniciar a pauta, e vai listando na lousa os assuntos sugeridos e que serão objeto de eleição. Exemplo de sugestões anotadas:

- Mau uso do banheiro masculino;

- Atropelamento na fila da cantina;

- Uso de palavrões na recreação;

- Uso de apelidos pejorativos;

- Zoar o colega durante a aula ou fora dela.

7 As crianças precisam refletir e encontrar uma ou mais soluções para os problemas. Quando a solução encontrada necessitar da execução de alguma tarefa, esta pode ser delegada a algum aluno ou grupo de alunos, em comum acordo com o professor (exemplos: a elaboração de um cartaz, a limpeza e manutenção de um local, uma carta aos pais pedindo colaboração, etc.).

8 Para se introduzir o tema bullying, propor que seja realizada uma pesquisa com alunos dos 6º, 7º, 8º e 9º anos, sem que sejam identificados, aplicando o questionário ao lado para verificar como os alunos se relacionam.

9 As informações, depois de compiladas, devem ser levadas à assembleia e servem de base para discussões sobre como estimular a cordialidade e o respeito entre os colegas.

AVALIAÇÃO:

Avaliar as atitudes dos alunos quanto à construção de cidadania em seu conví­vio diário, observando:

- O fortalecimento da autoestima dos alunos;

- O desenvolvimento do senso crítico;

- O enfrentamento adequado nos conflitos sociais, como: questionamentos referentes a preconceitos morais, étnicos, homofóbicos e religiosos.

A avaliação pode ser feita com base nas contribuições individuais ou das contribuições do grupo, assim como a partir do envolvimento dos(as) alunos(as) na atividade.

 

Autora: Quézia Bombonatto, professora dos ensinos fundamental, médio e superior, psicopedagoga e presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Coautora: Edimara Lima, pedagoga, psicopedagoga e diretora da Escola Prima Montessori, de São Paulo.

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