As contribuições africanas para a formação e a constituição da sociedade brasileira fazem parte do imaginário coletivo nacional. Para compreender o que é o Brasil em suas raízes mais profundas, é fundamental a análise acurada das vertentes dessa numerosa contribuição em seus vieses cultural, social, afetivo, musical, literário, artístico, religioso e arquitetônico. É espantoso, porém, o modo como ainda persistem dúvidas, erros, controvérsias, preconceito e desconhecimento da história dos negros no Brasil quando se aborda o tema consciência negra na escola. Para mudar esse quadro, é preciso abandonar os velhos clichês e apresentar o tema de maneira mais propositiva, buscando o conhecimento e o reconhecimento das tradições afro-brasileiras. Só assim é possível dirimir as discrepâncias e a infâmia dos mais de três séculos de escravidão.

Quando se fala nas artes, na música e na literatura, são muitos os nomes afro-brasileiros que vêm à tona entre os principais vultos de nossa história: Zumbi dos Palmares, herói da liberdade, mito fundador da ideia de autonomia nacional; Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, criador de importantes obras da arte barroca brasileira; o poeta Cruz e Souza, renovador das letras nacionais, que colocou a literatura brasileira em consonância com seu tempo; o romancista Lima Barreto, autor da mais autêntica descrição das idiossincrasias e contradições da Primeira República; os engenheiros Rebouças, responsáveis pela construção da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá, uma das obras de engenharia mais importantes do século 19, que até hoje impressiona pela ousadia; os pintores Estevão Silva, Emmanuel Zamor, Artur e João Timóteo da Costa; os esportistas Leônidas da Silva, Garrincha, Ademir da Guia, João do Pulo, sempre lembrados entre os mais autênticos heróis populares brasileiros; os músicos Henrique Mesquita, Joaquim Callado, Anacleto de Medeiros, Pixinguinha, João da Baiana, Clementina de Jesus, Sinhô e Cartola, fundadores da música brasileira. A citação poderia continuar indefinidamente, acrescida de nomes plenamente reconhecíveis nas mais diversas áreas e indissociáveis dos maiores feitos nacionais.

Mesmo assim, é possível afirmar que a maneira como a escola trata do tema da consciência negra é marcada, em geral, por superficialidade – ainda que a abordagem tenha evoluído bastante nos últimos tempos graças, sem dúvidas, às ações afirmativas e à abordagem mais positiva da história dos negros no Brasil.

Partindo da diversidade que marca a influência africana na cultura brasileira, é plenamente possível realizar ações transdisciplinares para desenvolver o tema na escola. É um grande desafio aos mestres pensarem em métodos de inclusão da africanidade nas várias disciplinas, seja por meio dos temas transversais, seja por meio dos temas curriculares, sem recorrer aos clichês da abordagem recorrente, recheada de equívocos.

A referência permanente aos elementos constituidores da brasilidade – a culinária, o folclore, os modos de falar e o vocabulário, os costumes, as vestimentas, as artes, a literatura, a fotografia, a música – é a forma de evidenciar a influência cultural africana na sociedade brasileira. Ainda que a escravidão e a segregação racial (explícita ou velada) sejam temas sempre presentes quando se discute a africanidade no Brasil, é importante focar na contribuição afro-brasileira de forma mais ampla. Consciência negra não se refere apenas à consciência e à autoafirmação dos afrodescendentes a respeito de seu passado e seu presente, mas, sobretudo, à consciência de todos os brasileiros sobre a organização social e a constituição nacional. A miscigenação e as diversas trocas culturais que marcam o povo brasileiro têm em suas raízes africanas a sua essência – talvez sua pedra fundamental –, a qual agregou, acolheu e processou em si a contribuição de outros povos ao longo dos séculos de colonização para formar o Brasil do século 21.

O plano didático a seguir propõe a utilização de fontes e de referências históricas, musicais e antropológicas, com o intuito de levar os alunos a refletir, de maneira crítica e analítica, a respeito da contribuição africana para o desenvolvimento e a evolução do Brasil contemporâneo.

Objetivos:

  1. Compreender a contribuição africana para a constituição da identidade brasileira, por meio do desenvolvimento sociocultural e musical;
  2. Identificar as diversas origens dessas contribuições;
  3. Reconhecer e ouvir a obra de compositores afrodescendentes;
  4. Produzir textos e infográficos que apresentem as principais contribuições da cultura negra para a sociedade brasileira.

Conteúdos:

- Formação da sociedade brasileira;

- Cultura e música afro-brasileiras.

Materiais necessários:

Textos e músicas indicados para o trabalho; publicações e gravações; computador; aparelho projetor (data show) para apresentação de trabalhos.

 

Desenvolvimento

Primeira etapa:

As contribuições africanas nas raízes brasileiras

Inicie a sequência com uma contextualização a respeito do tema consciência negra com seus alunos. Pergunte o que sabem a respeito do Dia da Consciência Negra e o que isso significa para eles. Após ouvir os comentários, faça uma explanação sobre a história da escravidão no período colonial e durante o Império. Aqui, é possível expor e discutir o quanto a escravidão foi uma experiência que marcou profundamente as relações sociais e de trabalho no Brasil e também como surgiu o problema do preconceito racial e social que ainda persiste em nossa sociedade. Nessa etapa, explane sobre a economia colonial, que tinha como base o trabalho escravo e o tráfico negreiro. Explique aos alunos que esse tipo de economia teve início logo nos primórdios do século 16, atingiu seu auge com o ciclo da cana de açúcar, persistiu com o ciclo do ouro e permaneceu como base da economia do período Imperial, já no Brasil Independente. O estigma da escravidão ainda impõe suas consequências, pois existe preconceito social e racial, ainda que camuflado, nas diversas camadas sociais. Utilize referências iconográficas para ilustrar a apresentação.

Alguns aspectos da história da escravidão no Brasil (cuja abordagem nem sempre é adequada): as diversas etnias que foram escravizadas e suas origens em pontos geográficos distintos, as religiões que se fixaram no Brasil desde o início da escravidão, a contribuição da cultura dos povos africanos para a formação de religiões afro-brasileiras, da música, da culinária, do vestuário e da língua portuguesa e também a história de resistência dos quilombos, cujo ponto central é a formação do Quilombo dos Palmares, em Alagoas, no século 17, e sua liderança por Zumbi dos Palmares.

Como referência, utilize o livro A incrível e fascinante história do Capitão Mouro, de Georges Bourdoukan (Editora Casa Amarela, 1999), e o filme Atlântico negro: na rota dos orixás, dirigido por Renato Barbieri. O livro conta a história de Zumbi e das relações sociais na colônia durante o século 16, por meio do intrigante relato do encontro entre um náufrago muçulmano e um comerciante judeu que vieram ao Brasil e tiveram participação na resistência do Quilombo de Palmares contra os ataques portugueses. A essa abordagem inusitada e pouco usual, o documentário – rodado no Maranhão, na Bahia, em Benin e na Nigéria – complementa a análise, com base em aspectos esquecidos ou quase nunca mencionados: as surpreendentes interações entre religião, cultura, língua e identidade afro-brasileiras, a história dos “retornados” – escravos que foram obrigados a voltar à África contra sua vontade –, as comunidades de origem brasileira em Benin e na Nigéria, as mesquitas africanas construídas a partir do modelo das igrejas barrocas brasileiras, entre outros.

Essa abordagem inusitada e diferente do currículo tradicional pode servir como estímulo para a produção de textos ou a apresentação de trabalhos em equipe a respeito das informações e dos conhecimentos analisados.

 

Segunda etapa:

As origens da música brasileira

A música brasileira é um tema prazeroso. As riquíssimas contribuições afro-brasileiras tiveram início com a escravidão. Apesar da tentativa dos mercadores e senhores de escravos de destituir os indivíduos escravizados de sua memória, sua língua e sua cultura, a resistência cultural dos escravos conseguiu não apenas manter suas raízes como também formar um caldo cultural com elementos europeus e indígenas. Essa fusão daria base para o surgimento e a fixação da música brasileira ao final do século 19.

Destaque à contribuição africana por meio da diversidade de ritmos, instrumentos, formas de tocar, cantos e danças. Ilustre a exposição com imagens e sons de alguns desses ritmos e instrumentos. O disco O canto dos escravos, de 1982, com interpretações de Tia Doca, da Velha Guarda da Portela, Geraldo Filme, um dos principais nomes da música paulista, e Clementina de Jesus, maior intérprete do samba tradicional, foi relançado em formato digital, em 2003, pela gravadora Eldorado. O conteúdo é resultado de pesquisas que procuraram encontrar, fixar e realizar um levantamento sonoro das raízes musicais brasileiras, e apresenta em forma tradicional os cantos e ritmos de vários povos africanos que aqui foram escravizados.

A coleção Princípios do choro, composta por cinco volumes, lançada pela gravadora Biscoito Fino com patrocínio da Petrobrás, apresenta gravações inéditas, recuperadas em um trabalho quase arqueológico, o qual proporcionou a fixação de melodias e harmonias das composições dos “chorões” do século 19. Ilustrar a profícua produção musical brasileira do período imperial com essas gravações contemporâneas pode ser uma experiência muito gratificante.

Não deixe de contextualizar o período, falando sobre a chegada da Família Real ao Brasil, em 1808. Do ponto de vista musical, a contribuição mais importante desse acontecimento histórico foi a apresentação das chamadas danças de salão (valsa, polca, mazurca, scottische) e a chegada do piano (instrumento musical proibido na colônia). Em poucas décadas, houve uma proliferação do piano mesmo em casas mais modestas; além disso, a fusão das danças europeias com os ritmos coloniais, principalmente a modinha e o lundu, de origem africana, proporcionaram o nascimento do primeiro gênero musical brasileiro: o choro. Apresente a vida e a obra dos principais compositores do período, quase todos afrodescendentes: Henrique Alves de Mesquita, Joaquim Callado, Viriato Figueira da Silva, Irineu Batista, Anacleto de Medeiros, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth.

Para ilustrar a música brasileira do século 20, não faltam referências: a obra de Pixinguinha, Clementina de Jesus, Donga, João da Baiana, Sinhô, Cartola, entre outros compositores, é bastante indicada, e há vários títulos desses e de outros autores em catálogo. Utilize como referência os livros Almanaque do choro e Almanaque do samba, de André Diniz (ambos pela editora Zahar, 2003), Música popular – um tema em debate, de José Ramos Tinhorão (Editora 34, 1997), e o filme Cartola – música para os olhos, de Lírio Ferreira (2007).

Após a contextualização e a apresentação das principais características da música brasileira, o professor pode sugerir e orientar a produção de um podcast ou programa de rádio para ser veiculado na internet e na escola, tendo como base a pesquisa sobre a formação musical brasileira ao longo de sua história.

 

Avaliação

Ao final do trabalho, além da produção de textos e de podcast, oriente os alunos a produzir um infográfico sobre as contribuições africanas para o desenvolvimento sociocultural, artístico e musical brasileiros. Após a finalização do produto, exponha os resultados na escola.

 

Referências:

Livros:

Almanaque do choro e Almanaque do samba.André Diniz. Zahar, 2003.

A incrível e fascinante história do Capitão Mouro.Georges Bourdoukan. Casa Amarela, 1999.

Filmes:

Atlântico negro – na rota dos orixás.Renato Barbieri, 1998.

Cartola – música para os olhos. Lírio Ferreira, 2007.

Fonografia:

O canto dos escravos.Vários intérpretes. Eldorado, 1982/2003.

Princípios do choro, vol. 1 ao 5.Vários intérpretes. Acari Records, 2001.

Série Dois Momentos: Clementina de Jesus (com Pixinguinha e João da Baiana).Warner Music, 2000.

Verde que te quero rosa. Cartola.Sony/BMG, 2000.

 

Autor: André Luis Rosa e Silva é mestre em Educação, professor de Literatura e de Língua Portuguesa. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

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