Figuras de linguagem nem sempre são fáceis de entender. Compreender o que o autor quis realmente dizer exige concentração e criatividade do aluno, algo que, nas etapas mais avançadas de ensino, em que os alunos têm mais tarefas para resolver, pode se tornar um problema. Com isso em mente, Walleska Bernardino Silva, professora de Língua Portuguesa da Escola de Educação Básica da Universidade Federal de Uberlândia (Eseba/UFU-MG), elaborou um plano de aulas baseado em poemas e músicas famosos. Os objetivos das tarefas são que os alunos consigam identificar as figuras de linguagem, justifiquem o emprego delas e analisem possíveis efeitos de sentido quanto ao uso delas em composições poéticas.

 

Módulo 1

Para começar a atividade, separe a turma em quatro grupos. Cada um irá estudar uma das seguintes composições: Metáfora, de Gilberto Gil; Amor é fogo que arde sem se ver, de Luis Vaz de Camões; A estrela e Consoada, ambos de Manuel Bandeira. “A tarefa dos alunos será descobrir e justificar a figura de linguagem predominante em cada poema. Após o tempo de discussão, o professor proporá um semicírculo para que todos os alunos observem os poemas, que podem ser projetados na sala, e cada grupo deverá ir à frente da sala para identificar as ocorrências da figura predominante”, explica Walleska. As respostas que o educador deve esperar dos alunos são, respectivamente, metáfora, antítese, prosopopeia e eufemismo.

Em seguida, ainda divididos em grupos, peça que os alunos, com o auxílio da internet (se possível), selecionem músicas que também façam uso de figuras de linguagem. Cada grupo deverá escolher uma canção, e os outros grupos terão que adivinhar e explicar o uso das figuras de linguagem. Como exemplo, a professora mineira cita a música Epitáfio, do grupo Titãs, que faz uso de recursos como elipse, zeugma, anáfora, hipérbole e antíteses.

 

Módulo 2

Na segunda aula, o professor irá distribuir entre os alunos pequenos questionários sobre alguns poemas, os quais estão descritos a seguir. Para concluir o plano de aulas, debata com os alunos os usos das figuras de linguagem em cada um dos poemas estudados nessa aula. Indague os alunos sobre os seguintes aspectos: Os sentidos percebidos por cada um de vocês foi exatamente o mesmo? Caso contrário, por que há essa variedade de sentidos em um mesmo poema? O que se pode concluir acerca dos efeitos de sentido e dos efeitos de sentido relacionados às figuras de linguagem?

 

Poeminha do contra(Mário Quintana)

Todos estes que aí estão

Atravancando meu caminho,

Eles passarão.

Eu passarinho!

 

a) O que justifica o título do poema?

b) É possível perceber que o poeta usa de ironia para dizer sobre os que "atravancam" seu caminho. Qual(is) verso(s) evidenciam a ironia?

c) Por que o uso dessa figura de linguagem nesse contexto?

 

Poema sinestésico(Cleyton Cabral)

Li cores em você

que tinha um sabor

que não sei de cor.

Meio azedo e meio doce.

Cítrico, cínico e hostil.

 

a) Qual o sentido de "ler cores" quando o eu lírico afirma "li cores em você"?

b) Quem seria o interlocutor? Por que acha isso?

c) É possível cores terem sabor? Comente sobre suas impressões e percepções.

d) Qual a função da sinestesia nesse poema?

e) Quais sentidos são misturados no último verso? Explique-o, entendendo que ele é o "fecho" do poema.

 

Inscrição para uma lareira(Mário Quintana)

A vida é um incêndio: nela

dançamos, salamandras mágicas

Que importa restarem cinzas

se a chama foi bela e alta?

Em meio aos toros que desabam,

cantemos a canção das chamas!

 

Cantemos a canção da vida,

na própria luz consumida...

 

a) No primeiro verso, qual a figura de linguagem apresentada?

b) Qual a relação proposta entre o primeiro verso e os demais?

c) A expressão "salamandras mágicas" pode ser considerada uma figura de linguagem? Se sim, explique a quem faz referência e por quê.

d) Proponha sentidos para o 3º e 4º versos.

e) Em geral, qual a percepção do eu lírico quanto à vida?

 

O relógio (Vinicius de Moraes)

Passa, tempo, tic-tac

Tic-tac, passa, hora

Chega logo, tic-tac

Tic-tac, e vai-te embora

Passa, tempo

Bem depressa

Não atrasa

Não demora

Que já estou

Muito cansado

Já perdi

Toda a alegria

De fazer

Meu ti-tac

Dia e noite

Noite e dia

Tic-tac

Tic-tac

Tic-tac...

 

a) Como chama a figura de linguagem "Tic-tac"?

b) O uso dela, nesse poema, foi aleatório? Explique os efeitos de sentido.

c) Para além dela, o que o encadeamento dos versos propõe ao poema?

 

Canção do vento e da minha vida (Manuel Bandeira)

O vento varria as folhas,

O vento varria os frutos,

O vento varria as flores...

 

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia

De frutos, de flores, de folhas.

 

O vento varria as luzes,

O vento varria as músicas,

O vento varria os aromas...

 

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia

De aromas, de estrelas, de cânticos.

 

O vento varria os sonhos

E varria as amizades...

O vento varria as mulheres...

 

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia

De afetos e de mulheres.

 

O vento varria os meses

E varria os teus sorrisos...

O vento varria tudo!

 

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia

De tudo.

 

a) Qual o efeito de sentido da repetição do fonema “v”?

 

Matéria publicada na edição de julho de 2014.

+ Educação
Assine a newsletter mensal e gratuita +Educação e receba ainda mais conteúdo no seu e-mail!