Muito se discute sobre o papel da leitura no mundo contemporâneo. Professores se queixam da dificuldade em contrapor a cultura dos livros, das publicações, do texto escrito e impresso ao interesse que os jovens devotam às novas tecnologias com suas múltiplas e complexas funções. Cada vez mais irresistivelmente interativas, as novas tecnologias parecem muito mais atrativas que um livro pesado, com letras pequenas, páginas opacas, textos longos cheios de palavras, com poucas ilustrações e nenhuma ferramenta de upload.

Ao tentar resolver essa dificuldade, deve-se considerar que aprender a “ler” (ou seja: aprender a realizar interconexões entre os conteúdos) é o objetivo principal do aprendizado.

Temos disponíveis hoje inúmeras ferramentas de que podemos dispor para melhorar e ampliar nossa capacidade de leitura. É preciso fazer uso dessas ferramentas consciente e objetivamente, de modo a fortalecer o ensino e a aprendizagem na escola. Não é possível conceber a sociedade sem o uso das tecnologias de comunicação e das redes sociais. No entanto, há ainda muita resistência em relação à sua utilização nas escolas.

Ler deve ser um propósito na vida do leitor, e corresponder aos diversos anseios de sua individualidade. A leitura torna-se atrativa e sedutora quando ultrapassa do próprio ato de ler. Estimular a leitura é um grande desafio para os professores – não apenas os da área da linguagem, mas de todas as outras disciplinas. Lembremos que o leitor é protagonista da leitura. Ler não é algo passivo: para que haja sentido e fruição, o leitor deve ser capaz de contextualizar e imaginar as cenas descritas, com base em seus conhecimentos. O bom leitor é aquele que relaciona a leitura com sua vida cotidiana: pensamentos, projetos, sonhos, emoções, ações devem ser frutos da leitura contextualizada.

Fazer uso de tecnologias, como ferramentas de estímulo à leitura, entretanto, não significa abandonar os livros e as publicações. É necessário estabelecer conexões entre os diferentes suportes do conhecimento, buscando sua integração em benefício da leitura. O impacto das redes sociais na comunicação e sociabilização das informações, na formação ética, estética e política da sociedade, no modo de se relacionar e, fundamentalmente, no aprendizado das novas gerações, ainda não foi totalmente absorvido. As possibilidades de utilização das ferramentas, suportes e redes existentes na educação são amplas. Por isso, os professores devem fazer uso constante dos recursos e suportes tecnológicos disponíveis. Infelizmente, a relação entre escola, redes e tecnologias nem sempre tem sido fácil. Há muitas dúvidas e distorções sobre o papel educativo das redes e de aparelhos cada vez mais sofisticados na educação. O caminho, muitas vezes, tem sido de renegar ou excluir as tecnologias do cotidiano escolar. Os smartphones e celulares são considerados problemas, mas seu uso como ferramenta deveria ser encarado desafiador para a educação contemporânea.

Fazer uso da tecnologia na sala de aula, entretanto, não significa pirotecnia. Não é preciso transformar a aula numa rave para provocar interesse e curiosidade nos alunos. Há momentos em que uma boa aula expositiva é suficiente para bem ensinar. É papel da escola integrar suportes tecnológicos disponíveis ao seu projeto. Definir regras e situações de uso é o primeiro passo. Depois, devem-se planejar aulas e trabalhos que utilizem as tecnologias e as redes para atingir seus objetivos e divulgá-los.

Leitura não significa, unicamente, “ler obras literárias”, mas, sobretudo, contextualizar, compreender, processar, produzir, obter e compartilhar informações e utilizá-las na interação social. O leitor deve ser visto como um escritor – não no sentido de “autor literário”, mas um sujeito capaz de expressar suas ideias por meio de um texto coerente, coeso, em que o domínio da língua em seus diversos níveis esteja evidente.

Esse planejamento, destinado ao ensino médio, está dividido em quatro momentos. Aproveite o Dia Mundial do Livro, comemorado em 23 de abril, para colocá-lo em prática. O objetivo é a produção de textos e a criação de blogs, a partir da leitura e análise de obras previamente selecionadas. O conteúdo dos blogs será criado pelos alunos e supervisionado pelo professor, e deverá apresentar os textos relacionados com imagens que ajudem a contextualizar as informações sobre a obra lida, e também sobre a própria atividade desenvolvida.

Objetivos:

- Realizar a leitura e análise de obras literárias, de forma contextualizada.

- Produzir textos críticos, dissertativos, analíticos a partir das obras analisadas.

- Coordenar a publicação de um blog com conteúdo criado pelos alunos, relacionado à leitura de obras literárias pré-selecionadas.

- Divulgar o resultado em redes sociais.

Conteúdos:

- Literatura brasileira

- Modernismo

- Blogosfera

Materiais necessários:

- Livros indicados para o trabalho;

- Cópias do material em quantidade suficiente para cada equipe;

- Computador e aparelho projetor (data-show) para apresentação dos trabalhos. 

DESENVOLVIMENTO

Primeira etapa: Seleção da plataforma para o blog

Professor: descubra e reconheça os passos para criar um blog. Há plataformas que oferecem gratuitamente o suporte e a publicação, como o Blogger (www.blogger.com) e o Wordpress (www.wordpress.com). Ambas dispõem de vários recursos e ferramentas dinâmicas e interativas. A criação de um blog é um processo bastante simples, por isso, é muito importante que o professor descubra as operações básicas antes de levar a atividade aos alunos. O tutorial das plataformas é bastante claro, para quem não está familiarizado. É provável que alguns alunos tenham conhecimentos sobre blogs. Caso seja necessário, não se acanhe e peça ajuda a eles.

Segunda etapa: Seleção de obras literárias

Para esse planejamento, sugerimos os seguintes títulos: Duas viagens ao Brasil, de Hans Staden (Editora L&PM, 2008); o conto A nova Califórnia, de Lima Barreto (Contos completos de Lima Barreto, Companhia das Letras, 2010), juntamente com a adaptação em quadrinhos, feita por Francisco Vilachã (Escala Educacional, 2010); e o livro La divina increnca, de Juó Bananére (Editora 34, 2001).

Duas viagens ao Brasil narra a história do alemão Hans Staden no Brasil, logo após o descobrimento. Preso pelo governador-geral por aportar num navio espanhol, Staden acabou capturado pelos índios tamoios, inimigos dos portugueses e praticantes da antropofagia. A descrição das paisagens ainda inexploradas, aspectos da vida e do cotidiano de povos indígenas, a tensão diante da iminência do ritual de canibalismo em que o autor seria o prato principal, pode proporcionar calafrios.

A nova Califórnia, de Lima Barreto, é um dos grandes contos brasileiros. O enredo se desenvolve na pacata cidade de Tubiacanga, que um dia é sacudida por terríveis acontecimentos, relacionados à estranha presença de um cientista forasteiro. Se num momento a cidade se põe em polvorosa, no minuto seguinte a hipocrisia, o cinismo e o materialismo contaminam até o mais pacato cidadão. A leitura, complementada com adaptação em quadrinhos do conto, deve fomentar discussão a respeito da ética e dos limites da ciência em nossos tempos.

La divina increnca, de Juó Bananére, é o livro de poesias satíricas do autor pré-modernista. O dialeto “macarrônico” (a língua franca falada pelos imigrantes italianos em São Paulo, no início do século 20), é utilizado de forma irônica, como exemplo da blague modernista, que escandalizou a tradicional família paulistana e expôs, com muito humor, as deficiências e contradições da literatura, política e economia brasileiras no início do século passado. O autor (na realidade, um personagem criado pelo escritor Alexandre Marcondes Machado) realizou uma crítica irônica e ácida das principais personalidades brasileiras do período. O livro é um excelente ponto de partida para o estudo das primeiras manifestações modernistas, da sátira e da paródia como formas literárias, e também de aspectos marcantes da linguagem brasileira.

Terceira etapa: Selecione as equipes e apresente o projeto

Faça uma breve apresentação/contextualização do conteúdo das obras e dos autores aos alunos. Exponha os objetivos do projeto: produzir um blog contendo textos de análise e contextualização das obras indicadas e seus autores. Divida a turma em três grupos. Cada grupo ficará responsável pela leitura de uma das obras selecionadas e, na sequência, pela criação de um blog. O livro de Bananére deve ser lido integralmente. Oriente os alunos para destacarem: a) humor da blague; b) a sátira de figuras da literatura e da política da época; c) paródias; d) características da primeira fase Modernista; e) dados biográficos do autor. O conto de Lima Barreto deve ser lido integralmente, complementado pela adaptação em quadrinhos. Devem ser destacados: a) aspectos linguísticos: o significado de palavras e expressões encontradas no conto; b) semelhanças entre os personagens de Tubiacanga e personalidades do Brasil de hoje; c) a controvérsia inicial em torno do personagem Flamel; d) os limites entre ética e a ambição humanas; e) dados biográficos do autor. Em Duas viagens ao Brasil, selecione a leitura de capítulos ou trechos mais significativos. Destaque: a) as descrições da paisagem brasileira no início da colonização; b) o e comportamento dos índios; c) os rituais de antropofagia; d) a relação existente entre a Carta de Pero Vaz de Caminha, o Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade, e a obra analisada; e) dados biográficos do autor.

Após a leitura, peça aos alunos que produzam textos com base nos temas sugeridos. Os textos podem ser apresentados na forma de dissertação, poesia ou narrativa. Faça uma avaliação das produções, corrija o que for necessário, oriente a finalização dos textos para publicação nos blogs.

Quarta etapa: Produção do blog

Após o término da produção textual, inicie a produção dos blogs. Deixe claro que a linguagem utilizada deve ser formal, objetiva e sucinta. O blog é uma criação coletiva, mas cada texto deve ser postado em tópicos, e assinado por seu respectivo autor. Oriente os alunos a fazer uma introdução sobre o projeto.

Observe que todas as imagens utilizadas devem conter uma legenda explicativa.

AVALIAÇÃO

Ao final do trabalho, peça que os alunos produzam textos em que dissertem sobre a importância da contextualização para uma leitura eficiente. Avalie também se os alunos foram capazes de: a) ler e compreender as obras indicadas; b) produzir textos coesos e coerentes, sobre os temas indicados pelo professor; c) produzir e publicar um blog com conteúdos criativos, relacionados à leitura das obras indicadas; d) compartilhar os blogs nas redes sociais.

 

Autor: André Luis Rosa e Silva, mestre em Educação, professor de Literatura e Língua Portuguesa. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

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