O ano era 1970. Mauro é um garoto mineiro de 12 anos que adora futebol. Um dia sua vida muda completamente: seus pais saem de férias de forma inesperada e sem motivo aparente para ele – na verdade, eles foram obrigados a fugir por serem perseguidos pela ditadura. Mauro é levado para ficar com o avô paterno, que enfrenta problemas de saúde. O menino acaba tendo que morar com um vizinho – um velho judeu solitário. Enquanto aguarda ansiosamente um telefonema dos pais, Mauro tenta lidar com sua nova realidade, na qual há momentos de tristeza e angústia, mas também de alegria, por conta do desempenho da seleção brasileira na Copa do Mundo. Essa é a sinopse do filme O ano em que meus pais saíram de férias, dirigido por Cao Hamburger, que retrata um momento da história da ditadura militar, período que modificou drasticamente a vida dos brasileiros. Neste ano, o golpe militar completa 50 anos e, como destacam as professoras de História Adriane Sobanski e Rita de Cássia Gonçalves Santos, em 1964 não era possível prever que, durante os próximos 21 anos, a sociedade brasileira seria destituída de muitos direitos, como o voto e a liberdade de expressão.

Momento tão significativo na história política e social do País, a ditadura militar é um tema rico para ser abordado em sala de aula. As professoras Adriane e Rita de Cássia sugerem um plano de aula em que o filme que conta a trajetória de Mauro é usado como fonte histórica e busca desenvolver o senso crítico e analítico dos alunos. Acompanhe o plano de aula a seguir.

O Brasil governado por militares

No último dia 31 de março de 2014, completaram-se 50 anos do início de um dos eventos mais conturbados de nossa história. O Brasil daquela época passava por uma grave crise econômica e social, o que levou os militares a acreditarem que seriam os únicos capacitados a exercer o poder e a iniciarem, com um golpe, a ditadura militar. Naquele ano de 1964, não era possível prever que, durante os próximos 21 anos, a sociedade brasileira seria destituída de muitos direitos, como o voto e a liberdade de expressão.

Hoje vivemos em um país diferente. De 1989 pra cá, o Brasil adota um regime democrático em que os governantes são escolhidos pelo voto popular e há liberdade de expressão. Mas os quase 30 anos de regime democrático após o término da ditadura não conseguiram resolver as controvérsias provocadas pelo golpe militar e pela ditadura. Tais controvérsias se mantêm, inclusive, com relação ao ato em si: Foi um golpe ou uma revolução? Neste material, optamos pela forma corrente defendida por grande parte dos historiadores, que afirmam que o Brasil foi vítima de um golpe.

Discutir as questões que provocaram o golpe militar e as consequências do período que se seguiu no desenvolvimento histórico do país dos últimos 50 anos pode auxiliar o aluno a perceber como o passado está presente na vida e nas ações das pessoas ao nosso redor.

Com base nesse contexto histórico bastante singular de nossa história, fazemos uma proposta de trabalho que tem como ponto de partida a utilização de fontes históricas. Como fontes históricas podem ser utilizadas imagens (fotografias, desenhos), músicas, discursos, cartas, jornais, ou seja, qualquer vestígio do passado que sirva como evidência acerca de um determinado assunto. A fonte escolhida foi o filme O ano em que meus pais saíram de férias.

1ª parte:                   

O trabalho deve ter início com o levantamento das ideias prévias de seus alunos a respeito dgolpe militar e de como o governo militar interferia na vida das pessoas durante aquele período, uma vez que eles podem ter conhecimentos históricos que vão, muitas vezes, além do conhecimento histórico escolarizado. Proponha essa discussão antes da apresentação do filme. A atividade pode ser feita com a utilização de uma imagem ou de um texto apresentado aos estudantes.

Apresente o filme O ano em que meus pais saíram de férias, dirigido por Cao Hamburger. Antes de assisti-lo, explique a seus alunos o que é uma fonte histórica e qual a sua importância para se conhecer o passado. É importante que os estudantes entendam que o filme, assim como qualquer outra fonte histórica, apresenta apenas uma versão do passado e que, no caso do filme, essa foi uma escolha do autor e do diretor. Também é importante explicar que o filme foi produzido em outro período (2006), e não durante o momento analisado, e que, portanto, a interpretação dessa fonte é fundamental.

Peça para os alunos se atentarem às informações apresentadas no início e no fim do filme, bem como no desenrolar da trama (início, desenvolvimento e conclusão) e em seus personagens principais.

2ª parte:

Nesse momento, a ideia é fazer o trabalho de análise e interpretação do filme como fonte histórica. Depois de assistir ao filme, incentive os alunos a discutirem as ideias apresentadas. Estimule-os a perceber os significados do momento histórico apresentado, os personagens principais, a trama desenvolvida e como o período da ditadura militar está inserido na narrativa. Organize os estudantes em pequenos grupos e incentive a discussão entre eles, observando sempre que existem diversos modos de entendimento da narrativa apresentada no filme. Incentive-os a realizar uma comparação entre o que viram sobre o Brasil, com base no filme, e o que percebem na atualidade.

Perceber o filme como uma fonte histórica acerca de um determinado passado possibilita o entendimento de que nem sempre as mesmas ideias estão presentes em outros documentos sobre o mesmo período.

3ª parte:

Agora é possível identificar se os alunos, com base no trabalho feito com o filme, mantiveram ou modificaram as ideias apresentadas sobre a ditadura antes de assisti-lo. Solicite que cada grupo elabore um comentário crítico sobre o filme, explicando as questões relacionadas à ditadura e as diferenças entre o que foi apresentado na narrativa e na sua vida.

Depois que as críticas estiverem prontas, organize um debate entre os vários grupos. Converse com seus alunos para que percebam como o mesmo conteúdo – a ditadura militar – foi observado e compreendido de forma diferente, apesar de ter sido analisado com base em uma mesma fonte histórica. Também é interessante que os alunos, durante a apresentação, reflitam sobre as mudanças ou permanências ocorridas entre o passado estudado e o presente.

 

FONTES:

Adriane Sobanski, doutoranda em Educação pelo Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná (PPGE-UFPR) e técnica de História da Secretaria de Educação do Estado do Paraná (Seed-PR).

Rita de Cássia Gonçalves P. Santos, doutora em Educação e pesquisadora do Laboratório de Pesquisa em Educação Histórica (Lapeduh) da UFPR.

 

FICHA TÉCNICA:

O ano em que meus pais saíram de férias

Diretor: Cao Hamburger

Produção: Cao Hamburger, Caio Gullane e Fabiano Gullane

Produtora: Gullane Filmes e Caos Produções Cinematográficas, Miravista, Globo Filmes, 2006.

 

Matéria publicada na edição de maio de 2014.

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