Plano de aula ensina e promove reflexão a respeito desse importante período da história do Brasil

Utilizar clássicos do cinema para conscientizar os alunos sobre o que foi a ditadura militar e de que forma a censura ocorrida no período afetou a vida da população durante um dos períodos mais tensos da história do Brasil. Esse foi o objetivo do professor Rafael Cruz, de Belo Horizonte (MG), ao preparar o plano de aula “Cinema e censura durante o governo militar”, que ensina ao mesmo tempo em que promove a reflexão e diverte. A inspiração para criar esse roteiro, que está dividido em debates e seminários, veio do fato de o cinema ser objeto de estudo do mestrado do professor, do potencial que a sétima arte tem de despertar interesse e da facilidade de compreensão que os filmes garantem. “Ao pensar em um plano de aula, o professor precisa ter a preocupação de escolher uma metodologia interessante, que garanta que os alunos interajam com o tema estudado”, aconselha Cruz, revelando sua visão por trás do planejamento educacional.

 

O que esperar desta aula

O cineasta, como lembra o professor, é um intérprete da realidade. “Os filmes também são documentos históricos de sua época e carregam ideias e uma visão de mundo muito particular do período. Eles ajudam a compreender importantes questões de uma forma diferente e não muito usual na sala de aula”, destaca. A aula proposta por Cruz evidencia como a censura foi utilizada pelos militares para silenciar a imaginação dos cineastas e impor uma imagem uniforme da sociedade brasileira nas telas de cinema. “Sem a censura, numa percepção mais ampla, os militares não teriam se sustentado no poder por quase três décadas”, reflete.

O foco principal da aula, portanto, é traçar um panorama sobre como a censura interferiu no processo criativo de quem se propôs a fazer cinema na época (cineastas, atores, roteiristas, produtores e demais profissionais), no Brasil, e também do público.

 

A aula na prática

Cruz aconselha que o regime militar brasileiro (1964–1985) já tenha sido trabalhado com os alunos antes da aplicação do plano de aula. Além disso, ele considera de extrema importância contextualizar os alunos sobre o período em questão. Para isso, sugere que os anos da censura sejam divididos em quatro momentos. Posteriormente, essa divisão servirá de base para a apresentação dos seminários.

 

1) Censura moralista  (1964–1966)

2) Militarização da censura (1967–1968)

3) Censura política e ideológica (1969–1974)

4) Censura da abertura (1975–1988)

 

Atividade 1: introdução e debates

Inicialmente, toda a turma deve se debruçar sobre a temática da censura. “É importante que os alunos entendam o que é a censura e como ela ocorreu em diversos momentos da história brasileira”, destaca Cruz. O professor pode utilizar os seguintes textos para iniciar a discussão:

- Censura no Brasil (Wikipédia) – bit.ly/censura-brasil;

- O que é censura (Blog Julius Pub) – bit.ly/o-que-e-censura;

- O regime militar e a liberdade de expressão (UOL Educação) – bit.ly/regime-militar-liberdade-expressao;

- Cinema brasileiro e censura durante a ditadura militar (PINTO, Leonor E. Souza. Memória da censura no cinema brasileiro) – bit.ly/cinema-censura.

 

Após as leituras, perguntas básicas como as listadas a seguir devem ser feitas para estimular a participação de todos:

 

  • O que é censura?
  • Em que momento ocorreu a censura no Brasil?
  • Vocês conhecem alguém que já foi censurado?
  • De que maneira a censura afetou a história do Brasil?

 

Depois da apresentação do tema e do debate inicial, conduzir um seminário (no formato mais livre possível) para perceber os conhecimentos prévios dos alunos. É fundamental conhecer os diversos momentos do cinema nacional e as diversas faces da censura para entender como os filmes cumpriram um importante papel de resistência à ditadura militar.

 

Organizando os seminários

O primeiro passo é dividir a turma em grupos. Os alunos devem pesquisar quais filmes foram produzidos na época em que seu grupo ficou responsável e que tipo de censura a produção sofreu. Após a pesquisa, cada grupo deve apresentar, em um seminário temático, as principais características da censura no período estudado. Os alunos precisam ser capazes de diferenciar a censura e seu modo de operação.

A pesquisa pode ser feita no site Memória da Censura no Cinema Brasileiro – 1964–1988:www.memoriacinebr.com.br.

 

Grupo 1: responsável por apresentar a censura moralista. Estes são alguns filmes importantes do período (é recomendável conhecer a sinopse do filme e, se possível, ver a obra completa):

 

  • Cinco vezes favela (1961);
  • Deus e o diabo na terra do sol (1962);
  • Vidas secas (1963).

 

Grupo 2: responsável por apresentar a militarização da censura. Sugestões de filmes:

 

  • El justiceiro (1966);
  • Terra em transe (1967);
  • Os herdeiros (1968);
  • Jardim de guerra (1968);
  • Macunaíma (1969).

 

Grupo 3: responsável por apresentar a censura política e ideológica. Sugestões de filmes:

 

  • Manhã cinzenta (1969);
  • São Bernardo (1972);
  • Como era gostoso o meu francês (1972).

 

Grupo 4: responsável por apresentar a censura da abertura. Sugestões de filmes:

 

  • Pra frente Brasil (1978);
  • Pixote, a lei do mais fraco (1980).

 

Para obter o melhor resultado possível

Segundo Cruz, o trabalho com o cinema em sala de aula é sempre uma questão delicada. Cabe ao professor conduzir o olhar dos alunos com questões e observações para que a ideia central possa ser trabalhada e compreendida. “O grande risco é o aluno se confundir e entender que o filme é uma reprodução fiel da realidade. Por isso, o professor deve trabalhar as diversas características – como os planos sequências, a narrativa, as preocupações do cineasta – e deixar claro que a produção cinematográfica é um produto das opções e intenções de seu autor. Fugindo dessa armadilha, o trabalho com o cinema tem a vantagem de ser uma linguagem que os alunos têm experiência em assistir”, destaca.

 

Como avaliar os resultados

É importante que o professor perceba durante a discussão dos grupos e ao final das aulas se os alunos entenderam quais conceitos estão envolvidos e as diferenças e proximidades de cada tema. “Além disso, é importante que sejam avaliados a participação e o envolvimento durante as atividades, principalmente na apresentação do seminário temático. A avaliação deverá ser constante”, finaliza.

Matéria publicada na edição impressa da Profissão Mestre de março de 2016.

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