Inspirada em reportagem de TV, professora de Lorena (SP) desenvolveu projeto sobre desastres naturais e trouxe resultados positivos até para a comunidade

Uma aula de geografia ajudou a salvar centenas de pessoas na Indonésia, em 2004. Na época, uma garota que morava em uma das regiões afetadas pela catástrofe lembrou-se dos sinais que mostram quando um tsunami está prestes a acontecer (fato que tinha aprendido em sala de aula) e conseguiu fazer com que sua família e muitas outras pessoas fugissem da área de risco em que se encontravam antes de a onda gigante atingir a costa.

Ao ver uma reportagem sobre a história na TV, aqui no Brasil, a professora Monique Godoi Lescura, da Escola Municipal Caic, em Lorena (SP), decidiu seguir o exemplo e ensinar seus alunos a identificar a possibilidade de ocorrência de um desastre natural. “Todo projeto surge da necessidade de aprendizagem ou de temas inerentes ao cotidiano. Nesse caso, depois de assistir ao arquivo sobre o tsunami, comecei a pensar: ‘Meus alunos saberiam identificar esses sinais?’”, relata Monique. Foi assim que nasceu o projeto “Desastres naturais: informar para prevenir”, que envolveu 55 alunos de duas turmas do 8º ano do ensino fundamental e rendeu à professora o Prêmio Educador Nota Dez de 2014 (organizada pela Fundação Victor Civita, a premiação reconhece as boas práticas da educação infantil, do ensino fundamental e de gestores escolares de todo o país).

Embora a ideia do projeto tenha surgido com base em um caso de tsunami, o objetivo da educadora era abordar desastres mais próximos da realidade brasileira, que pudessem ser identificados e pesquisados pelos estudantes em seu cotidiano, como enchentes, secas, deslizamentos, entre outras ocorrências registradas nas principais cidades do Brasil. “A ideia era tratar de desastres naturais em diferentes escalas: local, regional, nacional e global”, explica a professora.

Na prática

O primeiro passo para tirar o projeto do papel foi fazer um levantamento bibliográfico – tomando como base os bancos de dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Centro de Monitoramento de Alertas e Desastres Naturais (Cemaden) e do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos. Com as principais informações sobre os desastres naturais em mãos, foi feita uma sondagem inicial para compreender quais eram os conhecimentos prévios dos alunos a respeito do assunto.

Em um segundo momento, os estudantes foram divididos em equipes e aprofundaram as pesquisas para entender o conceito de um desastre natural, com a apresentação de um seminário. Com base nisso, foi realizado o agrupamento produtivo com a aproximação de saberes, vídeos, análises de mapas e gráficos, avaliações, visita técnica, entre outras atividades.

Fernanda Cristina Capelette dos Santos, de 13 anos, foi uma das estudantes impactadas pela ação e compartilha sua experiência. “Com o projeto, aprendemos muitos conteúdos que não tínhamos visto antes em sala de aula, como a definição de desastres naturais, suas causas e consequências, quais são os eventos que mais ocorrem no Brasil e no mundo e as formas de prevenção”, conta. Sua colega Mariana de Oliveira Zago, também de 13 anos, complementa: “Aprendemos a formular relatórios e seminários, o que provavelmente usaremos em nossos próximos anos e, ao apresentarmos o conteúdo, ainda perdemos nossa timidez”, revela, mostrando que os conhecimentos e as experiências adquiridos ao longo do trajeto serão úteis não apenas na escola. O depoimento das estudantes comprova que os objetivos da professora foram atingidos. “Em todos os projetos que desenvolvo, quero que o meu aluno leve a aprendizagem para a vida. Obviamente, não sou negligente e também foco nos saberes que os nortearão para o próximo ano”, explica Monique. No fechamento do projeto, um relatório foi produzido e um grupo de caçadores de fenômenos, formado. “Eu me surpreendi com o engajamento dos estudantes na atividade, em que cada aluno deveria trazer fotos ou vídeos de desastres naturais ocorridos na cidade. Eles registraram enchentes e erosões, demonstrando seu interesse pelo projeto. Aliás, nesse aspecto, o celular é uma ferramenta importante, pois torna mais simples para o aluno a realização desse trabalho”, ressalta a professora.

Além dos muros da escola

Mas não foram apenas os alunos de Monique que se beneficiaram do projeto. Aos sábados, os monitores passaram a orientar a comunidade sobre os riscos de desastres naturais, ampliando ainda mais o alcance dos ensinamentos. O trabalho resultou na confecção de uma carta endereçada ao prefeito Fábio Marcondes, atingindo um dos objetivos iniciais da educadora. “Outro propósito era aprender a dialogar com as autoridades, a fim de sugerir e solicitar soluções para a comunidade, e isso foi possível por meio dessa ação”, pontua. Na correspondência, os estudantes explicaram a tipologia de desastres naturais registrados no município e indicaram soluções para os problemas com sugestões viáveis – além de solicitarem a aquisição de um pluviômetro para o município. A resposta do prefeito, dando atenção aos alunos, fechou o projeto com chave de ouro.

A avaliação de Monique sobre o desfecho da ideia que nasceu inspirada em uma reportagem de TV é a melhor possível. “Plantar uma semente de esperança no coração de alunos carentes, fazendo com que eles percebam o valor do conhecimento em suas vidas, é algo extraordinário. Isso dá a certeza de que a educação é o motor, o início de tudo”, conclui a premiada professora.

Este é apenas um trecho da reportagem publicada na edição de dezembro de 2015. Confira o material na íntegra na revista impressa

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