Iniciativa desenvolvida por professor de Parintins leva água limpa para moradores, reduz problemas de saúde em comunidade ribeirinha e ensina ciências na prática 

Levar o conteúdo de ciências para fora das quatro paredes da sala de aula e transformar a realidade da comunidade na qual se vive. Essa foi a ambiciosa meta do professor Valter Pereira de Menezes ao desenvolver o projeto “Água limpa para os curumins do Tracajá”, um dos vencedores do Prêmio Educador Nota Dez de 2015, organizado pela Fundação Victor Civita com o objetivo de reconhecer boas práticas da educação infantil, fundamental e de gestores escolares de todo o país. Formado em Ciências pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Menezes, que atua há 20 anos na comunidade ribeirinha de Santo Antônio do Rio Tracajá, em Parintins (AM), e leciona a disciplina de Ciências para estudantes do programa Ensino Presencial com Mediação Tecnológica na Escola Estadual Álvaro Maia, teve a ideia de desenvolver o projeto ao refletir sobre um recorrente problema ambiental e de saúde enfrentado pela comunidade. “Sofríamos com muitos problemas de diarreia nos períodos de enchente em função da criação de bois nas proximidades da comunidade. Em parceria com os alunos, começamos a pensar: o que pode ser feito para oferecer água tratada a essas pessoas?”, conta Menezes.

Com objetivo de resolver o problema (ou ao menos minimizá-lo) e com apoio da ONG Asas do Socorro, nascia, então, o projeto “Água limpa para os curumins do Tracajá”. Inicialmente, as ações fariam parte do plano de aula da disciplina de Ciências de uma turma de 22 alunos do 9º ano e funcionariam assim: juntos, estudantes, professor e representantes da ONG levariam filtros a cerca de dez comunidades que não tinham água encanada e sofriam com problemas de saúde e instalariam fossas biológicas nos locais que podiam contaminar o lençol freático. Depois de um período de identificação do problema e estudo de soluções, tomou-se a decisão de se instalar filtros de areia (180 no total, compostos por camadas com seixo, areia grossa e fina para reter impurezas), beneficiando aproximadamente 600 pessoas. “Podemos afirmar que houve redução de 80% a 90% dos problemas relacionados à saúde”, revela o professor. Mas esse era apenas o começo. Em pouco tempo, o projeto evoluiu e passou a contar com o apoio de todos os alunos dos ensinos fundamental e médio da Escola Estadual Álvaro Maia. Foram cerca de 350 estudantes engajados na causa. “Conseguimos agregar e motivar, porque era um problema em comum”, avalia.

Benefícios

Para o professor, o diferencial do projeto, além de seu resultado prático para as comunidades envolvidas, foi tirar os conceitos de ciências do discurso e dos livros e colocá-los em prática. “Trabalhamos a ciência em um espaço não formal e fomos aplicar na prática a questão do meio ambiente e da água, mostrando que se faz ciência fora da sala de aula”, pontua. E acrescenta: “Nós, professores, precisamos entender que existe um laboratório a céu aberto que deve ser explorado em todas as disciplinas”.

Mas o projeto não parou na primeira etapa. Após o sucesso da instalação de filtros, passou-se a cuidar dos poços artesianos que abastecem a comunidade. O objetivo era eliminar as “fossas negras” (escavação sem revestimento, usada como banheiro pela população), que, com o passar do tempo, contaminariam os poços artesianos e poderiam fazer com que os problemas de saúde coibidos pelos filtros retornassem. “Descobrimos a solução chamada de ‘fossa biológica’, que aproveita as propriedades de plantas para fazer o tratamento e evitar que os poços sejam contaminados. No total, a iniciativa beneficiou 70 famílias de uma das comunidades”, relata o professor, que explica ainda que as fossas biológicas evitam que os dejetos sejam lançados no lençol freático, visto que os líquidos são retirados pelas raízes de plantas, como a bananeira. Sua construção faz com que os líquidos caiam em um local no qual as raízes das plantas auxiliam no tratamento e em que há camadas de pedras, seixos e terra queimada.

Dessa forma, o processo foi dividido em duas etapas (filtros e fossas biológicas), com diversas fases intermediárias, como a identificação do problema; o diagnóstico; o planejamento da solução em si; a definição do apoio da ONG; a definição da equipe de trabalho para instalar os filtros; e, por fim, os comitês gestores (formado por membros da comunidade, pais e alunos) para acompanhar o trabalho. Um pacote completo de lições para os estudantes que aprenderam não apenas um pouco mais sobre ciências, mas também sobre a vida. 

A educação vencendo distâncias

O professor Valter Pereira de Menezes é um dos educadores do programa estadual Ensino Presencial com Mediação Tecnológica. Com apoio do Centro de Mídias de Educação, coordenado pela Secretaria de Educação (Seduc) do Amazonas, o projeto oferece aos estudantes das comunidades rurais do estado um ensino diferenciado. “No Amazonas, enfrentamos muita dificuldade para que alguns alunos cheguem até as escolas. Esse projeto permitiu que eles tivessem aulas sem sair de sua comunidade”, explica Kátia Regina Menezes Mendes, diretora do Departamento de Gestão Escolar da Seduc.

As aulas dos estudantes do programa são geradas em Manaus, nos estúdios do órgão, e transmitidas em tempo real para as comunidades rurais do estado. Nas salas de aula, um professor desempenha o papel de mediador e facilitador, coordenando as aulas e auxiliando os estudantes, que se reúnem em um mesmo horário. O sistema está disponível para os 61 municípios do Estado. Por meio da tecnologia, é possível criar interações com diferentes ferramentas nas aulas, como o uso de filmes, de animações em 3D, entre outras técnicas para ilustrar o conteúdo. Outro dos benefícios está na possibilidade de reunir todos os gestores para dar orientações e diretrizes definidas pela secretaria.

De acordo com o professor Valter Menezes, a possibilidade de apoio obtida pela sala tecnológica foi fundamental para que o projeto “Água limpa para os curumins do Tracajá” desse certo. “Quando tínhamos dificuldades, corríamos para a sala tecnológica”, ressalta. O bom resultado, segundo Kátia Regina, está relacionado a uma soma de fatores que envolve a tecnologia e a preocupação com o ensino. “Buscamos oferecer acompanhamento pedagógico por meio dos coordenadores regionais nas comunidades. Isso faz com que sejam desenvolvidos muitos projetos interessantes dentro das escolas”, afirma.

Reportagem publicada na edição de novembro de 2015

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