Primeira educadora do Brasil com Síndrome de Down, Débora Araújo defende a inclusão dentro e fora de sala de aula 

A rotina e a carreira de um professor são repletas de desafios. Seja pela falta de condições ideais de trabalho ou pelos problemas diários que ocorrem em sala de aula, como indisciplina e falta de infraestrutura, ser docente é enfrentar obstáculos. Para Débora Araújo Seabra de Moura, os desafios são ainda maiores: professora há dez anos, Débora é a primeira educadora do Brasil com Síndrome de Down e atua hoje como professora auxiliar da educação infantil na Escola Doméstica, instituição de ensino privada em Natal (RN).

Sua trajetória como docente teve início com um estágio voluntário em uma creche pertencente à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Eu fui fazer estágio em uma escola de educação infantil, senti o desejo de ser uma professora de crianças, então fui fazer o curso de magistério”, relembra a educadora de 33 anos. Chegar aonde chegou é motivo de orgulho para Débora: “Trabalho com crianças entre 2 e 5 anos. Comecei como voluntária e hoje sou contratada, tenho carteira de trabalho assinada e todas as obrigações de uma professora da escola. Sou feliz”, afirma.

Em sua trajetória, Débora precisou lidar com o preconceito, mas isso era algo que ela já esperava. “Meus pais me orientaram desde criança sobre [lidar com] o preconceito”, diz. “Falo sempre para as pessoas que a Síndrome de Down não é uma doença; ela faz parte de mim, do meu jeito de ser. Tenho os mesmos direitos e deveres que todo mundo tem”, alerta a professora. Débora conta que, hoje, graças a seu trabalho e dedicação, não encontra mais problemas nessa esfera. “Minha relação com meus alunos e meus colegas da equipe é muito boa. Eu participo de tudo como qualquer professora da escola”, comenta.

Além do trabalho com as crianças na Escola Doméstica, Débora atua em tempo integral para promover a inclusão. Em 2013, ela escreveu o livro Débora conta histórias (Ed. Objetiva), publicação que reúne fábulas curtas e divertidas a respeito de como deficiências e diferenças não impedem a construção de belas relações de afeto. “Eu queria falar sobre inclusão e preconceito. O preconceito é muito ruim e prejudica todas as pessoas, todo mundo perde o direito de ficar junto, ter bons amigos, querer bem”, diz a professora. A iniciativa de Débora chamou atenção até mesmo do escritor João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), que, na época do lançamento do livro, declarou: “São contos que ensinam docemente – e não só às crianças, porque os adultos também têm muito que aprender com gente da grandeza de Débora”.

Outra ação de Débora em prol da inclusão é a realização de palestras para conscientizar as pessoas sobre os riscos da discriminação. “[Ministrar as palestras] é importante para diminuir o preconceito que existe no Brasil e no mundo. Por isso, eu viajo para falar. Sou caminheira da inclusão”, afirma. A professora já falou sobre o tema em países como Argentina e Estados Unidos, em que ministrou palestra na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque.

Ensino regular

Débora é contra a existência de escolas especiais, pois acredita que com essa postura ela ajuda a evitar a discriminação e o preconceito em relação aos estudantes com deficiência. “A escola especial é discriminatória porque os alunos ficam excluídos, sem o direito de participar da escola regular como os outros. Não é preciso ter duas escolas. Basta ter a escola regular para todas as pessoas e uma estimulação em outro horário [para alunos com deficiência]. Comigo foi assim”, conta Débora. Ela promete não parar seus estudos e pretende continuar crescendo na profissão. “Quero continuar trabalhando na escola e estudando. Professor precisa estudar muito mesmo, para ensinar bem”, diz a professora. 

Reportagem publicada na edição de outubro de 2015

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