O circo é referência por sua capacidade de despertar a imaginação e de trabalhar com a ludicidade e a criatividade. É um espaço mágico, em que reinam a brincadeira e o riso, que acaba destoando da escola (principalmente a partir dos ensinos fundamental e médio), ambiente com regras e concentração, que deve ter menos barulho possível. No entanto, nas aulas de Arte da Escola Estadual Profª Maria de Lourdes Bezerra, localizada na periferia de Macau (RN), o circo e a escola ocuparam o mesmo espaço em 2013. O responsável por isso foi Emanuel Alves Leite – mais conhecido como Emanuel Coringa –, professor de Arte formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Como ele mesmo se declara, Emanuel é um palhaço antes mesmo de ser educador. “Sou filho de um movimento popular, o que me influenciou, além de ser de uma família de educadores. Desde 15, 16 anos, faço parte de um movimento chamado Movimento Escambo de Artistas de Rua, que existe há mais de 20 anos”, relata Emanuel. “Entrei nesse movimento por meio da Companhia Arte e Riso, que acompanha minha trajetória até hoje, grupo do qual eu sou um dos fundadores”, complementa.

Depois de conhecer e se apaixonar pelo circo, o professor começou a dar aulas de artes circenses em oficinas e projetos paralelos, o que o levou a procurar a UFRN, universidade em que cursou Licenciatura em Teatro. “Eu era instrutor de um ponto de cultura em que já se trabalhava com alguns meninos e fazia-se o que a gente chama de iniciação ao palhaço, dando suporte inicial para a construção dessa figura. É um processo ligado ao pedagógico, no qual eu já tinha contato com alunos”, explica o docente. Após a graduação, Emanuel foi aprovado em um concurso público e passou a lecionar na rede de ensino regular. Na EE Profª Maria de Lourdes Bezerra, iniciou o projeto Lugar de Circo é na Escola, no qual 25 alunos do 9º ano do ensino fundamental aprenderam com o palhaço Lombriga – personagem de Emanuel – atividades relacionadas ao circo. “Eu me apresento como professor de Arte, licenciado em Teatro, mas digo que minha primeira profissão é palhaço. Faço esse comentário [para as turmas] para não gerar choque, porque a figura do palhaço é mal-compreendida por alguns”, diz Emanuel. Na sequência, ele realizou um questionário com os alunos para averiguar os conhecimentos e os desejos desses estudantes, no qual, para sua surpresa, identificou uma curiosidade sobre o circo. “A gente, como professor, tem que estar atento a essas curiosidades ingênuas, mas que podem se transformar [em boas práticas]”, afirma. Emanuel credita o sucesso da atividade ao interesse dos alunos, que frequentavam os circos itinerantes que passavam por Macau. “Acabei descobrindo que eles já sabiam algumas coisas, como [o fato de] que, dentro dos circos tradicionais, existe uma relação familiar. Ou seja, o conhecimento inicial eles já tinham. Eles só não sabiam como era na prática”.

Para abordar o circo, Emanuel se baseou nos ensinamentos da pesquisadora brasileira Ana Mae Barbosa. Ela defende que as atividades pedagógicas sejam embasadas no tripé formado por contextualização, apreciação e prática. Na primeira parte, os alunos estudaram a história do circo, as diferenças e as semelhanças entre o circo tradicional e o circo moderno, como o Cirque du Soleil. Nessa etapa, Emanuel também ressaltou como é a organização do circo, como ele funciona, seus bastidores etc. Para auxiliar, o professor utilizou textos, imagens, vídeos e filmes, como O palhaço, dirigido e estrelado por Selton Mello, e depois pediu aos alunos para escreverem um texto sobre tudo que estava sendo estudado.

A segunda parte do projeto envolveu a apreciação e a vivência do circo, com o objetivo de ampliar o repertório cultural dos estudantes. “O acesso à internet existe, mas não posso falar que esse acesso em Macau é o mesmo que em Natal (RN). Tinha aluno que nunca havia visto o circo moderno”, explica o professor, que levava vídeos e imagens coletadas da internet e de seu acervo particular. Durante essa etapa, os alunos estabeleceram paralelos entre o circo popular e o moderno. A terceira etapa foi a prática. “Pela minha vivência anterior de artista, acho que a arte tem que ser vivenciada. Sem isso, vira uma disciplina a ser guardada na cabeça. Ela não pode ser guardada na cabeça, ela tem que ser guardada no corpo”, acredita o educador. O trabalho foi focado em três atividades: o malabarismo (os alunos aprenderam a produzir peças e depois a fazer malabares), a corda bamba (com a utilização de materiais como o slackline) e a palhaçaria (que é a criação da figura do palhaço, o andar, a voz, o figurino etc.). “O palhaço não tem como buscar características numa outra figura. As características dele são construídas a partir da pessoa que está interpretando o palhaço”, explica.

Após ensaiarem e treinarem bastante, os jovens começaram a realizar apresentações na própria escola e em outras instituições educacionais da cidade, o que, para eles, foi uma valiosa experiência. “O assunto foi muito interessante, pois eu pude aprender muito. Entramos na prática, não ficou nessa de ler e escrever textos, o que foi interessante, pois a gente não ficou só na nossa escola, nos apresentamos em outras escolas também”, relata a aluna Emanuely Palhares, que participou das aulas de Emanuel e hoje faz parte da Companhia Máscaras de Sal, grupo de teatro que se originou do projeto e segue ativo. Leonardo Varela, colega de Emanuely, hoje já se considera um palhaço: “Com essas práticas, comecei minha carreira como palhaço, com ele [professor Emanuel] e com o Vitor Miranda, outro colega nosso. Nós apresentamos [as performances] na escola, em outras escolas, fora delas, em vários cantos”. Emanuel, ao final do projeto, incentivou os alunos a fazerem apresentações na rua, pois foi onde ele conheceu e se apaixonou pelo circo.

Prêmio

No final de 2014, o circo armado por Emanuel rendeu a ele o Prêmio de Educador Nota 10, concedido pela Fundação Victor Civita, o que o docente considera um dos maiores reconhecimentos possíveis para o projeto. “O projeto tem um quê de ‘à margem’, de marginal. Às vezes, acreditar nisso é difícil, porque você é apontado como doidinho, utópico. Quando chego com um projeto numa escola de periferia, numa cidade do interior do Rio Grande do Norte, desenvolvido com a linguagem do palhaço, que é marginalizada dentro da arte, e sou o único do Nordeste premiado dentre 3.500 inscritos... Isso comprova que todo esse pensamento é válido”, comemora Emanuel. E completa: “Muito do que a gente vê na escola às vezes é sufocante para uma ideia de ensino de arte como essa. É sufocada pelo Enem [Exame Nacional do Ensino Médio], que obriga a gente a enfiar história e mais história da Arte na cabeça dos jovens. Não quero desmerecer isso, mas não acredito que ela seja a única forma de desenvolver um trabalho com arte na escola”.

 

Matéria publicada na edição de junho de 2015.

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