A popularização dos smartphones trouxe uma série de mudanças para a sociedade, algumas positivas – como maior velocidade na troca de informações – e outras negativas. Um problema crescente entre os jovens tem sido o sexting, prática que envolve a troca de mensagens, fotos e vídeos sensuais. Infelizmente, tem se tornado cada vez mais comum o vazamento de tais conteúdos, o que prejudica a imagem das pessoas envolvidas (na maioria, adolescentes do sexo feminino) e gera constrangimento, vergonha e outras consequências. Ao se deparar com situações dessa natureza, Gina Vieira Ponte, professora de Língua Portuguesa do Centro de Ensino Fundamental 12, de Ceilândia (DF), ficou chocada. Ela viu, em uma rede social, um vídeo de uma garota de apenas 13 anos dançando de forma muito provocativa, o que a deixou espantada. “Ela mesma se gravou dançando e postou. E recebeu uma série de comentários muito depreciativos. O que me chamou a atenção é que ela não tinha noção do desrespeito que ali estava sendo imputado”, diz a professora.

O fato motivou a professora a pesquisar sobre o sexting e entender os motivos que levam as meninas a fazer isso. O resultado foi o projeto Mulheres Inspiradoras, realizado durante o ano de 2014 com os alunos do 9º ano do ensino fundamental. “Por mais que eu entendesse que não tinha o direito de intervir nas decisões das minhas alunas e dizer como elas devem usar seu próprio corpo, eu entendi que, como educadora, precisava pelo menos conscientizá-las”, comenta Gina.

O desafio que Gina se impôs foi o de mudar as referências de mulheres de sucesso que as alunas (e alunos também) tinham, centradas em atrizes e modelos. A professora apresentou à turma mulheres que fizeram e fazem a diferença na sociedade por meio de seu trabalho e exemplo, como a paquistanesa Malala Yousafzai (vencedora do Prêmio Nobel da Paz por defender o direito à educação para meninas e mulheres), a médica e sanitarista Zilda Arns, a alemã Anne Frank (vítima do Holocausto nazista, conhecida por seu diário em que conta os abusos sofridos) e as escritoras Cora Coralina e Carolina Maria de Jesus, entre outras, totalizando dez exemplos. “Tentei formar um time bem eclético, tanto que coloquei duas mulheres com idade parecida com a das minhas alunas, a Anne Frank e a Malala”, explica a educadora. E complementa: “Escolhi as que se aproximassem mais da nossa demanda, da nossa realidade, então apresentei mulheres negras, brancas, jovens, velhas, com pouca ou muita escolaridade, mas todas escreveram seu nome na história do Brasil e da humanidade”. A mensagem da educadora era clara: não aceitem ser reduzidas a esse padrão estético porque isso só nos empobrece.

Além do estudo das biografias das dez mulheres, Gina também levou quatro mulheres de Ceilândia para conversarem com os alunos e serem entrevistadas por eles. A professora escolheu ainda seis livros de autoria de escritoras para que fossem lidos pelos alunos: O diário de Anne Frank(Ed. Record), Eu sou Malala (Ed. Companhia das Letras), Quarto do despejo: diário de uma favelada (Ed. Ática), Não vou mais lavar os pratos (Ed. Dulcina), Só por hoje vou deixar meu cabelo em paz (Ed. Teixeira) e Espelhos, miradouros, dialética da percepção (Ed. Dulcina). “Outra ação importante do projeto foi convidar os meninos a escolherem uma mulher de seu círculo social que eles considerassem inspiradora e entrevistá-la. Eu os sensibilizei, os preparei para entenderem como é uma entrevista na perspectiva de história de vida e como oferecer uma escuta sensível para essa mulher”, complementa a professora. As entrevistas foram gravadas, transcritas e viraram textos, que foram orientados e corrigidos por Gina, tanto em sala de aula como por meio de redes sociais. As redações dos alunos agora devem virar um livro.

Identidade

A educadora destaca que, além dos ganhos de aprendizado, muitos alunos acabaram se reaproximando de suas famílias, pois, ao entrevistarem mães, avós e outras parentas, puderam conhecer mais sobre a história de seus familiares. “Como era um trabalho de escola que eles tinham que fazer, acabou que se criou um momento de percepção dessas mães, dessas mulheres. A gente recebeu um depoimento de uma mãe dizendo ‘Graças a Deus por esse projeto. Graças a ele eu me reaproximei de meu filho’. Quando a gente percebeu, tinha um documento histórico que mostrava a identidade dessa comunidade”, ressalta a educadora.

As alunas também admitem o quanto o projeto foi emocionante para elas. “A parte em que fiquei mais apaixonada foi biografar a minha mulher inspiradora, que é minha avó, uma forma linda de homenagear essa grande mulher e uma forma de demonstrar o quanto ela é guerreira e o muito que ela significa para mim”, revela Lorrany Stepanny Rodrigues. Sua colega Giovanna Luiza Gomes Rosa também enfatiza o impacto que as atividades deixaram. “Sei que, para mim e para outros, o projeto não ficará só no papel, em imagens. Ficará particularmente no coração e na lembrança de todos. Sou muito grata à professora Gina, pois não há muitos professores que se dedicam tanto à sabedoria de cada aluno”, diz. Para Gina, o projeto teve boa aceitação porque quebrou os paradigmas da escola tradicional. “Os meninos estão na escola, eles gostam de estar na escola, mas as propostas das atividades em sala de aula muitas vezes não têm sentido para eles, porque é como se tivéssemos uma escola que ficou parada no século XIX, com professores que foram formados nesse contexto, mas os alunos são do século XXI”, critica a educadora.

Outro problema que Gina enfrentou foi o machismo, principalmente nas opiniões de alguns dos colegas docentes. “Ouvi comentários de que escola particular tem resultados melhores porque não perdem tempo com essas bobagens. As pessoas às vezes não têm compatibilidade com o tema, como a própria questão do machismo: ‘por que trabalhar a valorização da mulher na escola? Isso é perda de tempo’. Mas em nenhum momento tive dúvida do que estava fazendo porque não foi uma aventura. Foi fruto de um longo processo”, afirma.

Prêmios

Mesmo com as críticas, Gina foi amplamente reconhecida por sua iniciativa. Seu projeto Mulheres Inspiradoras foi vencedor do Prêmio Nacional Educação em Direitos Humanos, do Prêmio Professores do Brasil, na categoria Anos Finais do Ensino Fundamental (ambos concedidos pelo Ministério da Educação) e também recebeu o Destaque Flores de Aço 2014, na categoria Educação & Cultura, concedido pelo Instituto Flores de Aço. “Foi uma forma de confirmar que eu não estava errada em buscar um novo fazer pedagógico. Vale a pena você ter o compromisso de construir uma educação pública de qualidade”, frisa Gina.

 

Matéria publicada na edição de abril de 2015.

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