Uma das principais características do Brasil é sua diversidade racial. Fruto da colonização do país por europeus (que trouxeram os escravos africanos) e da miscigenação com os índios, o povo brasileiro é hoje uma mescla de tons de pele, tipos de cabelo, hábitos e costumes originários desses povos. Esse cenário não é diferente na cidade de Itambé (PE), município de pouco mais de 36 mil habitantes, distante 92 quilômetros da capital Recife. Lá um professor de Arte do ensino médio resolveu utilizar essa diversidade característica do Brasil para ensinar seus alunos e também melhorar a autoestima dos jovens.

Apaixonado pelas artes desde pequeno, Jayse Antonio da Silva Ferreira não teve dúvidas na hora de escolher uma carreira e seguiu para as Artes Plásticas. “Eu escolhi essa profissão por afinidade mesmo. Sempre tive habilidade com artes, sempre gostei de desenho e pintura”, conta o educador, que leciona Arte desde 2006 e atua desde 2008 na Escola de Referência em Ensino Médio (Erem) Frei Orlando, na qual criou o projeto “Eu sou uma obra de arte: etnias do mundo”, atividade que surgiu com os intuitos de estimular os alunos e modificar o ritmo das aulas na escola. “Já que trabalhamos em uma escola de regime integral, os alunos passam muito tempo sentados em sala de aula e eu queria dinamizar. Aí surgiu essa ideia de tirar os alunos da sala com um conteúdo: a fotografia”, explica o professor. As aulas não iriam divergir do conteúdo proposto pelo currículo, mas teriam como meta final a representação de diversas etnias, cujas características estavam presentes dentre os alunos sem eles mesmos perceberem. O objetivo? Melhorar a autoestima dos estudantes por meio da valorização dessas características, muitas vezes rejeitadas pelos estudantes. “Nossos alunos vivem num lugar em que a maioria dos pais é cortador de cana. Eles não têm muitas opções de trabalho e, com esse projeto, a gente abriu novas oportunidades”, acrescenta Ferreira.

O projeto se fundamentou em três etapas. A primeira foi voltada para o conteúdo previsto, ou seja, os alunos pesquisaram a história da fotografia, suas características, a evolução das técnicas e tecnologias etc. Em seguida, os jovens estudaram as características de diversas etnias e analisaram os tipos de pele, de cabelo, o contexto histórico de cada país, em qual deles cada característica aparece com mais frequência (nessa etapa, os alunos contaram com o auxílio da professora de Geografia). Por fim, professor e alunos partiram para as cidades vizinhas em busca de paisagens que mais se assemelhassem às das nações estudadas. Nessa parte do projeto, Ferreira credita boa parte do sucesso obtido com a iniciativa à ajuda dos outros docentes da Erem Frei Orlando. “Como a gente viajou para tirar algumas fotos, os professores contribuíram com gasolina, emprestaram os carros para levar e trazer os alunos. Deu certo por isso, todo mundo abraçou o projeto e contribuiu um pouco”, diz o educador. O projeto foi concluído com uma exposição para a comunidade.

Se o apoio dos educadores já foi essencial para o sucesso da atividade, foi com os alunos comprando a ideia que o projeto alcançou todo seu potencial. “Eles ficaram encantados. A participação foi massiva mesmo, o que me surpreendeu”, revela Ferreira. Ao todo, foram 22 alunos e uma professora que participaram como modelos para as fotos (apenas um aluno não quis ser fotografado) – sem contar o apoio de outros estudantes na produção e na pesquisa para os ensaios. Para o arte-educador, o projeto foi o estímulo necessário para que os estudantes mudassem de postura. “O segredo está em você estimular o aluno. Não existe aluno desinteressado. Há aluno desestimulado. Se você propõe algo diferente, eles participam”, afirma Ferreira. E completa: “Hoje estou com uma demanda tão grande que, mal começou o ano letivo,  já estão me procurando. Os irmãos e primos dos alunos que estudam na escola também querem participar”.

Mudança de realidade

Com o sucesso do projeto em Itambé, Ferreira inscreveu a atividade no 8º Prêmio Professores do Brasil ao receber um e-mail da Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco. “Achei interessante essa premiação e inscrevi por experiência. Eu já tinha o relato, porque gosto de escrever o passo a passo, e enviei o projeto, como falei para os alunos, de forma desacreditada, porque eu achava que [ser selecionado] era algo muito difícil, quase impossível”, relembra o professor. Para sua surpresa, o projeto venceu a etapa regional do Nordeste e, em dezembro de 2014, recebeu o prêmio nacional na categoria Ensino Médio – tema Livre, o que, para Ferreira, é o ápice de sua carreira como educador. “Eu conto sempre a luta do professor de escola pública, de uma escola pobre, sem condições, e você tirar o primeiro lugar... Não há premiação maior que ter seu trabalho reconhecido”, afirma.

Além disso, Ferreira se orgulha de como o projeto melhorou a visão que os alunos e os outros habitantes de Itambé têm de si mesmos. “Eu tenho alunos cujos pais cortam cana e mães que são empregadas domésticas, e agora vemos os alunos representados em nível nacional, aparecendo na televisão. Isso me deixou mais feliz que minha própria imagem ser exaltada: dar aos alunos a possibilidade de eles se verem [de maneira] diferente”, diz o professor, que também ressalta como as fotografias afetaram positivamente a cidade. “Eu quis valorizar o pessoal de lá, então os fotógrafos, a maquiadora, o cinegrafista, todo mundo é de Itambé. Todos saíram ganhando e me dizem que aumentou a procura por filmagens, por fotos”, explica Ferreira, que continua: “É incrível como a cidade ganha com a educação. Era isso que eu queria que todos entendessem, como a gente pode mudar vidas por meio de algo tão simples”. 

Confira abaixo algumas fotos do ensaio e do making of:

 

Matéria publicada na edição de março de 2015.

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