Projeto Participar, da Universidade de Brasília, desenvolve softwares gratuitos que ajudam a alfabetizar e dar autonomia a estudantes autistas e com deficiência intelectual

Tecnologia e interação nem sempre caminham juntas. No entanto, quando aliada às necessidades dos seres humanos, a tecnologia tem o poder de abrir novos mundos para aqueles que a utilizam. É exatamente isso que os softwares do projeto Participar fazem: promovem uma mudança radical na vida dos usuários. O projeto é uma iniciativa do Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Brasília (UnB), que tem o objetivo de desenvolver softwares educacionais gratuitos para estudantes com autismo clássico e com deficiência intelectual. De acordo com o professor Wilson Veneziano, coordenador da iniciativa, as funcionalidades dos programas estão focadas em ajudar os estudantes no dia a dia. “Os conceitos trabalhados são orientados para a aplicabilidade social, sem academicismo, visando dar maior autonomia ao estudante”, explica.

Até o momento, cinco softwares foram desenvolvidos pelo projeto: Aproximar, Expressar, Somar, Participar e Perceber. Além de Veneziano, fazem parte da equipe de desenvolvimento dos programas alunos de Licenciatura em Computação da UnB, profissionais da área de educação especial e uma jornalista, que contribui na produção dos vídeos dos softwares. Esses materiais, aliás, contam com a participação de atores autistas, o que ajuda a potencializar os resultados das ferramentas, pois os alunos conseguem se identificar com as experiências retratadas. Além disso, as tarefas propostas em cada programa são interativas, o que melhora a comunicação e a assimilação do conhecimento pelos estudantes.

 

Os programas do projeto Participar

Aproximar

Mandar um beijo, acenar com a mão e fazer movimentos de afirmação e de negação com a cabeça são ações que podem ser consideradas desafiadoras por autistas clássicos. O objetivo do Aproximar é dar apoio educacional no ensino desses gestos sociais para esses estudantes. O software trabalha essas habilidades por meio de vídeos e uma câmera ao vivo ligada a um computador.

Como funciona: o programa apresenta os gestos sociais por meio de vídeos que atuam como estímulos. Quando o estudante repete o gesto corretamente, um sensor ligado ao computador o detecta, e o software apresenta um vídeo motivacional de recompensa. Assim, ele pode ir aprendendo por meio da visualização e da prática.

 

Expressar

Esse programa também é direcionado a autistas clássicos. Um dos principais obstáculos no aprendizado desses alunos é a dificuldade que eles têm em reconhecer e em fazer expressões faciais de choro, raiva, susto e sorriso. Para ajudá-los, a ferramenta traz atividades pedagógicas que reforçam tais expressões.

Como funciona: o software apresenta imagens de pessoas com diferentes expressões faciais e solicita que o estudante as identifique e indique, por exemplo, qual imagem representa um sorriso. A câmera frontal no tablet atua como um espelho para que o estudante possa acompanhar sua própria expressão facial e perceber a evolução na forma como demonstra seus sentimentos. 

 

Participar

Ferramenta pedagógica de apoio a professores atuantes no processo de alfabetização de jovens e adultos com deficiência intelectual, que apresentam atraso cognitivo e dificuldade em relação à psicomotricidade (que trata da relação com o próprio corpo e seus movimentos).

Como funciona: o sistema apresenta imagens de objetos e alimentos do cotidiano, bem como vídeos de lábios pronunciando as palavras referentes a esses objetos ou mostrando como as letras são “desenhadas”. Depois, o estudante é convidado a executar exercícios de assimilação. Quando ele executa as tarefas de maneira correta, é exibido um vídeo com uma mensagem motivacional de congratulações pela superação.

 

Somar

Sistema direcionado a jovens e adultos com deficiência intelectual que, por causa de seu atraso cognitivo, têm dificuldade em aprender operações matemáticas básicas, em entender o relógio digital e as cédulas monetárias e encontram problemas para realizar compras. Ou seja, seu foco está no ensino da aplicabilidade social da matemática.

Como funciona: o software propõe exercícios que mostram uso de cédulas monetárias, calculadora e relógio digital em supermercados, padarias e farmácias. Isso impacta diretamente na autonomia do estudante no dia a dia. O relógio digital, por exemplo, vai ajudá-lo a controlar os horários dos compromissos, como a hora de tomar a medicação.

 

Perceber

Os autistas clássicos têm dificuldade em distinguir tamanhos de objetos – maior e menor – e também em fazer a associação entre eles – chave com fechadura, escova de dentes com creme dental, e assim por diante. O programa Perceber contempla atividades pedagógicas que podem colaborar com o desenvolvimento da percepção visual desses estudantes.

Como funciona:o sistema mostra imagens de diferentes objetos para que o aluno faça a associação e a seriação (menor, médio e maior) dos itens. O software oferece também exercícios para que o estudante realize tarefas como a distinção entre alimentos doces e salgados, a organização de bandejas em restaurantes que cobram por quilo (copo, prato, talheres na própria bandeja) e a colocação de arroz e feijão da panela para o próprio prato.

 

O trabalho não para!

Com o sucesso dos programas, que já são utilizados por milhares de escolas e ONGs no Brasil, Wilson Veneziano revela que novos programas serão apresentados em breve. “Serão dois softwares para deficientes intelectuais: um voltado para o aprendizado de agenda estruturada (compromissos, vestuário condizendo com o clima etc.) e para ajudar nas atividades da vida diária (escovar os dentes, fazer a barba, trocar absorvente e pentear os cabelos) e outro para o trabalho de história social e ambientação com autistas”, revela o coordenador do projeto Participar. Para saber mais informações sobre o projeto, baixar gratuitamente os programas e conhecer o material de apoio dirigido a profissionais e familiares, acesse www.projetoparticipar.unb.br.

 

Eu testei

“As ferramentas [digitais] já são um atrativo por si só, pois as crianças de hoje nasceram em um mundo digital e aprendem melhor com a ajuda da tecnologia. Além disso, questões práticas são vivenciadas pelos estudantes com o apoio dessas ferramentas. Isso facilita muito o processo de aprendizagem. Recentemente, uma aluna minha que não realizava gestos sociais que eram trabalhados diariamente em situações do cotidiano mostrou grande evolução depois que começou a utilizar o software Aproximar. Ela passou a balançar a cabeça em sinal de sim e de não, jogar beijo, dar tchau e bater palmas. É muito gratificante ver a evolução e o desenvolvimento dos estudantes. Os produtos do projeto Participar têm ajudado muito nesse processo de aprendizagem”.

Mara Rúbia Martins, mestre em Psicologia e especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional, trabalha com estudantes autistas

 

Matéria publicada na edição impressa da Profissão Mestre de março de 2016.

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