Segundo estimativa da psicóloga Ângela Maria Vieira Pinheiro, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), 10% da população mundial tem dislexia. Trata-se de um transtorno de linguagem no qual a pessoa sente dificuldades em ler, escrever, soletrar, memorizar, concentrar-se, organizar-se e sequenciar letras, números, palavras etc. Em crianças, a condição se manifesta em graus variados e, muitas vezes, ocorre em associação com outras dificuldades de aprendizagem. Para auxiliar os educadores no trabalho com alunos disléxicos, a organização não governamental (ONG) Dyslexia International tem criado diversos portais on-line com materiais de apoio para educadores e pais. No Brasil, o material foi traduzido como Conhecimentos básicos para professores: dislexia: como identificar e o que fazer ou simplesmente Dislexia Brasil (dislexiabrasil.com.br), portal coordenado pela professora Ângela, o qual em pouco mais de um ano de existência possui 78 mil usuários cadastrados. “Como suas versões originais, o site Dislexia Brasil é indicado para professores do ensino fundamental, em exercício de suas funções ou ainda em formação, que desejam desenvolver uma compreensão básica sobre os processos de desenvolvimento da leitura e sobre a dislexia”, explica a curadora do site.

O portal tem como objetivos tornar explícitas as relações entre a linguagem falada e a escrita; estimular a identificação precoce de futuros problemas de leitura; proporcionar aos professores conhecimentos que os capacitarão a entender o que é dislexia, como identificá-la e como ajudar os alunos com dislexia ou não; disponibilizar um instrumento útil que servirá como referência; e prevenir o fracasso escolar. “A principal característica [do portal] é disponibilizar aos professores falantes do português conhecimento sobre o ensino da leitura baseado em evidências científicas, oferecendo-lhes gratuitamente o que há de mais avançado na ciência da educação, em neurociência, linguística, neuropsicologia e psicolinguística, bem como material pedagógico de alta qualidade”, complementa Ângela.

A plataforma oferece informações sobre o desenvolvimento típico e atípico de leitura, capacitando os professores a traçar uma distinção entre dificuldades de aprendizagem e transtornos de leitura. O site permite também que os professores sejam capazes de levantar suspeitas de dislexia e adaptar o ensino em sala de aula às necessidades de aprendizagem individuais de seus alunos, criando assim um contexto de educação inclusiva. Além disso, o conteúdo analisado pelo professor para lidar com crianças disléxicas beneficia o ensino das crianças com desenvolvimento normal.

Para a coordenadora do site, o real valor da iniciativa está na divulgação e na proliferação de conteúdos de alta qualidade em linguagem de fácil acesso a professores. “Com esse trabalho, aceitamos o desafio de tornar acessível todo o conhecimento que temos adquirido como pesquisadores e de direcioná-lo à formação continuada de professores, a fim de garantir que todas as crianças recebam o tipo de instrução em leitura que as transformarão em melhores leitoras, utilizando a leitura como fonte de prazer, de ganho de conhecimentos, de melhor desempenho acadêmico e de inclusão social”, explica Ângela.

Seções

A plataforma é dividida em três seções. A primeira define o que é dislexia, explica suas causas e consequências nos níveis pessoal, social e acadêmico. A segunda apresenta testes informais que auxiliam os professores a levantar a suspeita de dislexia e identificar os pontos fortes e fracos da criança, de maneira a adaptar o ensino as suas necessidades específicas e, quando for necessário e de comum acordo com os pais, encaminhar a criança para uma avaliação completa por um especialista. Por fim, a terceira parte tem foco na inclusão da criança com dislexia na escola regular e nos instrumentos e nas técnicas para assegurar as necessidades de aprendizagem dessas crianças. “Como esses instrumentos e técnicas trazem benefícios para todas as crianças, podem ser facilmente implementados em qualquer sala de aula”, diz a curadora. O material é transmitido por meio de informações complementares, videoclipes, ilustrações, animações, apresentações de conferências realizadas em importantes eventos científicos e testemunhos de professores e de pessoas com dislexia. Ao longo dessas três seções, o participante realiza 26 atividades sobre os conteúdos trabalhados e, no fim de cada etapa, deve responder a um teste para medir sua aprendizagem.

Segundo Ângela, o portal tem sido muito bem recebido pelos professores. De acordo com uma pesquisa realizada com um grupo de educadores que utilizou a plataforma por um mês, 99,4% dos usuários consideraram o curso bastante relevante para a formação docente. Futuramente, o portal emitirá certificado aos participantes. “Estamos nos preparando para suprir essa demanda [da certificação] até o final deste ano”, revela a docente. Outra novidade prevista para a plataforma é a capacitação de alunos de Psicologia, Fonoaudiologia, Pedagogia e Letras para atuarem como tutores dos usuários da plataforma. “Os membros dessa equipe serão os interlocutores entre a coordenação do projeto Dislexia Brasil e as redes de educação básica, para a formação e o acompanhamento de professores”, explica Ângela.

Também está prevista a criação de um ambiente virtual de aprendizagem (AVA) baseado no portal, o que permitirá, de acordo com a coordenadora, “acompanhar sistematicamente o estudo dos professores e lhes oferecer certificado mediante exame de conhecimento; ampliar a plataforma para incluir outros programas pedagógicos inovadores, também sem custo e de fácil acesso para a formação de professores, levando-os a aplicar as novas metodologias para o ensino-aprendizagem da leitura; e formar especialistas para ensinar populações de baixa renda e de zonas rurais”. O AVA, contudo, não possui previsão de lançamento.

+ Educação
Assine a newsletter mensal e gratuita +Educação e receba ainda mais conteúdo no seu e-mail!