Abdeljalil Akkari, que estuda a diversidade cultural no contexto educacional brasileiro, fala sobre como tratar dessa questão nas escolas e sugere de que maneira é possível combater a desigualdade educacional no país

Ensinar os conteúdos dos livros didáticos e garantir que os alunos obtenham bons resultados em avaliações são algumas das funções da educação escolar, mas definitivamente não são as únicas. Educar plenamente envolve também trabalhar questões relativas à diversidade cultural, enfrentar as desigualdades sociais em busca de uma educação de qualidade para todos, utilizar boas práticas internacionais como inspiração para evoluir constantemente, e assim por diante. Como isso é possível na realidade educacional brasileira? Para Abdeljalil Akkari, doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Genebra (Suíça) e pós-doutor pela Universidade de Baltimore (EUA), além de criar leis que sejam favoráveis à educação, é necessário, antes de tudo, criar condições favoráveis às aplicações dessas leis. Akkari afirma ainda que o caminho para trabalhar as diversidades culturais na educação não precisa necessariamente passar pelo currículo educacional, mas defende que é essencial que essa questão seja abordada na formação dos professores. Acompanhe a seguir entrevista exclusiva concedida pelo especialista à Profissão Mestre no fim do ano passado, quando ele esteve no Brasil para participar do XII Congresso Nacional de Educação (Educere), realizado em Curitiba (PR).

 

 

Profissão Mestre: O Brasil discute atualmente a criação de uma base nacional comum curricular. Em sua opinião, a questão da diversidade cultural na escola deve fazer parte desse documento?

Akkari:Na verdade, tanto a abordagem intercultural quanto os parâmetros culturais nacionais devem ser considerados temas transversais. Percebo que é necessário que a questão intercultural esteja presente nos parâmetros curriculares, porém vai ser difícil...

 

Profissão Mestre: Por que vai ser difícil?

Akkari: Porque é uma tendência das políticas internacionais fazer a avaliação somente de algumas matérias escolares, que são as línguas de ensino (português, no caso do Brasil), ciências, matemática e, às vezes, língua estrangeira. Todas as outras matérias acabam ganhando lugares periféricos. Além disso, a questão intercultural é uma questão qualitativa. Você não vai poder avaliar com perguntas de múltipla escolha. Por isso, vai ser difícil operacionalizar a questão intercultural nos parâmetros curriculares.

 

Profissão Mestre: O que o senhor recomenda no que diz respeito à operacionalização da interculturalidade na educação?

Akkari: É possível inseri-la no sistema de formação do professor. Os parâmetros curriculares são uma maneira de aplicar a interculturalidade, mas pode-se aplicá-la de outra forma, por exemplo, na formação inicial do docente ou na formação continuada.

 

Profissão Mestre: Como enfrentar as desigualdades educacionais em um país tão grande como o Brasil?

Akkari: A questão do tamanho do país não dever ser uma desculpa para não se fazer nada. Não estou falando que é fácil dar solução para as desigualdades educacionais, mas vejo que existem duas classes de soluções. Existem as soluções superficiais, que procuram arrumar algumas coisas, que é a educação compensatória. Por exemplo: se filhos de pessoas mais pobres não têm educação infantil, abre-se uma creche. Mas parece-me que esse tipo de medida tem uma limitação. Precisamos pensar a desigualdade educacional de acordo com as desigualdades sociais. Se você quer acabar com a desigualdade educacional, precisa acabar com a desigualdade social. Entendo que isso também é difícil, mas não podemos acabar com a desigualdade na educação se não enfrentarmos a questão da diferença do ensino particular e do ensino público. Dito de outra maneira, a qualidade (ou a falta dela) do ensino público se paga a preço de baixa qualidade do ensino particular. O ensino público não tem a atenção que merece por parte do poder público. O fato, então, é que não podemos arrumar o ensino público sem pedir que o ensino particular participe desse esforço.

 

Profissão Mestre: O senhor desenvolve pesquisas no Brasil na área educacional. O que devemos mudar na política educacional para melhorar os resultados?

Akkari: Primeiro, não se pode pensar que uma lei vai dar a solução do problema educacional. A lei é uma condição necessária, mas, sozinha, ela não é suficiente. O que acontece no Brasil é que sempre tem uma lei que, na teoria, é muito boa, mas que sempre deixa brechas. Por exemplo: pedir o curso superior do professor é uma boa medida, mas será que os cursos de formação de docentes ofertados atualmente bastam para que a lei seja efetiva? Pois é, talvez não. Portanto, a primeira medida não deveria ser mudar a lei, mas pensar na estrutura necessária para que ela seja colocada em prática de maneira efetiva. A segunda possibilidade é que me parece necessário fazer alguns trabalhos para melhorar a imagem do ensino público, que é responsável por 85% das matrículas escolares no Brasil. Para melhorar a educação pública, precisamos melhorar sua imagem perante a opinião pública. Isso é possível, basta avaliar as universidades federais, que são escolas públicas e têm êxito e boa imagem porque têm qualidade. A terceira e última medida é a questão da infraestrutura. Agora, vou falar com um olhar de estrangeiro. No Brasil, mesmo nas escolas particulares caras, não se tem infraestrutura adequada. Os prédios estão sempre passando por reformas (ou necessitando de reformas), não há planejamento, os espaços são pequenos. E nem falamos da escola rural pública, que é ainda pior. Acredito que o país precisa pensar um pouco sobre o padrão da infraestrutura adequada para a educação. Isso envolve dinheiro, envolve regularização do estado e envolve uma luta contra a corrupção. Porque, na verdade, uma boa infraestrutura escolar precisa de uma gestão educacional sem corrupção, para que, quando você pagar para construir algo em uma escola, a resposta venha com qualidade.

 

Profissão Mestre: Quais as implicações da globalização na educação e nos modelos educacionais?

Akkari: Agora, a política nacional brasileira não é mais uma política totalmente nacional, que se decide em Brasília (DF), Curitiba (PR) ou Rio de Janeiro (RJ), por exemplo. Ela tem, sim, influência internacional, e atualmente existem vários estudos internacionais dos quais o Brasil participa. Assim, o sistema educacional brasileiro está em competição com o sistema dos países vizinhos e dos países emergentes. Não estou falando que esse estudo internacional é a Bíblia [do ensino], mas precisamos entender que o Brasil tem um resultado muito mais baixo que Chile, China, Indonésia e Tailândia, por exemplo. Da mesma forma que o Brasil está em competição econômica com o resto do mundo, seu sistema educacional também está. Outra influência da globalização é a questão da língua estrangeira. Você observa no Brasil que, nos últimos dez, vinte anos, na universidade e em cursos de pós-graduação, a maioria dos alunos fala pelo menos uma segunda língua, como espanhol, inglês ou francês. É que o sistema voltou a valorizar a língua estrangeira, e isso acaba globalizando o ensino. Outro impacto da globalização é a questão da inovação. Atualmente, inspirado em países como Finlândia, Coreia do Sul e Itália, o Brasil tem buscado inovar no que diz respeito ao ensino. O país está procurando copiar modelos que existem em outros cantos do mundo, mas não é só isso, há uma veia inovadora buscando evoluir com base nessa inspiração. Penso que isso é muito interessante, visto que copiar não é se apropriar, porque, antes de copiar, é preciso adaptar o modelo ao contexto cultural do Brasil.

 

Profissão Mestre: Como o senhor avalia a questão da privatização da educação?

Akkari: Tenho uma postura bastante alternativa sobre essa questão. O problema não é privatizar ou não privatizar. De um lado, o privado já está na escola pública, em matéria de governança, gestão e organização da escola. Em várias universidades federais, por exemplo, os restaurantes são particulares. Então, você tem, no sistema público, alguma forma de privatização. De outro lado, existem instituições privadas que, quando se analisa o contexto interno, fala-se que fazem um serviço público. Com base nisso, percebo que vivemos uma etapa de definição de fronteira entre público e privado. Tem dinheiro público que vai para empresa privada e tem dinheiro privado que vai para instituição pública. Assim, considero que as perguntas importantes sejam estas: a privatização é em benefício de que grupo? E quem a regula? Os benefícios precisam sempre ser para o povo, para quem usa esses serviços, mas nem sempre é assim. A lei no Brasil dá a liberdade de existir uma empresa privada no ensino, então precisamos analisar: quais são os impostos que essa instituição privada de ensino paga? Quanto ela ganha? O que faz com seu dinheiro? Quais são os grupos educacionais? O fato é que a privatização tornou-se um interesse econômico. Há vários grupos estrangeiros comprando grupos privados aqui no Brasil. Assim, como organizamos essa relação da indefinição de fronteira entre público e privado? Vejo que isso vai passar por várias brigas políticas e merece uma análise profunda para não deixar feridas que podem prejudicar o resultado no futuro. Vou dar mais um exemplo: em uma pesquisa feita no Brasil, vimos que o ensino público financia a qualidade do particular. Fizemos outra pesquisa com cem professores da rede pública e descobrimos que a maioria desses profissionais trabalha também na rede particular. Eles falaram que trabalham mais na rede particular, mas ganham mais na pública. Por que isso acontece? Porque quando os professores estão na rede pública e passam em concursos, alguns ficam acomodados, não trabalham muito, faltam etc. Mas, quando trabalham na rede particular, precisam chegar 15 minutos antes, porque a coordenadora pedagógica fica atrás, a dona de escola fala que se o professor trabalhar mal, ele vai embora. Então, curiosamente, a instituição privada no Brasil está se beneficiando da capacidade de alguns professores, que não é totalmente explorada na rede pública. É muito interessante analisar e controlar isso, além de oferecer um salário digno para o professor para que ele não seja obrigado a trabalhar tanto na rede pública como na particular. Mas, por enquanto, é isso que a maioria faz. É claro que podemos também mudar a cultura do servidor público, mas esse é outro tema. A pergunta que deixo para encerrar esse assunto é: por que precisamos de um “guarda” atrás de um professor? O ideal é que o professor do ensino público, tendo em conta que recebe dinheiro público, tenha ética de trabalho e procure trabalhar bem, sem se acomodar porque é funcionário do governo.

Colaboração: Tom Schiebel

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A fim de aprofundar as análises sobre a discussão e o tratamento metodológico das questões multiculturais em escolas públicas brasileiras de educação básica, Abdeljalil Akkari, que é consultor da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e diretor de Pesquisas na Haute École Pédagogique (de Lausanne, na Suíça), realizou recentemente, em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), o estudo Gestão da diversidade cultural no contexto educacional brasileiro. O resultado da pesquisa está disponível em bit.ly/estudo-Akkari.

Matéria publicada na edição impressa da Profissão Mestre de fevereiro de 2016.

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