Apesar de ter as melhores colocações no Pisa, a China tem trabalhado na reformulação de seu sistema educacional. Para o educador chinês Jiang Xueqin, o caminho consiste em investir na educação infantil e estimular o pensamento global e a criatividade

Durante décadas, o objetivo da China com a educação era fornecer uma formação básica nas áreas de alfabetização e matemática à maior quantidade de jovens possível, a fim de fazer a transição de um país essencialmente rural para uma nação industrializada. Nesse sentido, nos anos 1980 e 1990, a formação de muitos técnicos e engenheiros possibilitou o rápido crescimento industrial do país. Com uma cultura movida pela disciplina, os estudantes chineses compreendem facilmente a necessidade do trabalho árduo para o aprendizado, fato que os colocou nas melhores posições do ranking do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Xangai, uma das regiões da China participantes da avaliação, foi campeã em todas as categorias nas provas de 2009 e 2012.

 

No Brasil, costuma-se dizer que “em time que está ganhando não se mexe”. Contudo, essa máxima não se aplica aos chineses. Desde 2010, o sistema educacional vem sendo reformulado com a finalidade de oferecer um currículo capaz de formar profissionais mais criativos, possibilitando à China competir em pé de igualdade com países como Estados Unidos, reconhecido por sua capacidade de inovação. Para o educador chinês Jiang Xueqin, formado em Literatura Inglesa pela Universidade de Yale (EUA) e autor do livro Creative China (China criativa, em tradução livre – sem edição em português), o caminho é estimular a criatividade e o pensamento global nas escolas, investindo-se também em equidade, educação infantil e mais opções de cursos de ensino superior voltados ao mercado de trabalho.

Um dos principais estudiosos sobre a educação na China e colaborador das reformas educacionais, Xueqin desenvolveu um programa com foco nas habilidades de leitura e escrita em duas escolas de ensino médio.

Durante sua palestra no encontro internacional Educação 360, promovido pelos jornais O Globo e Extra no ano passado, no Rio de Janeiro, o professor falou de sua visão acerca da educação chinesa e das necessidades de mudança, apesar do bom desempenho no Pisa. Em entrevista à Profissão Mestre, o educador discorre sobre suas propostas de mudança e a importância de contribuir para a formação de cidadãos responsáveis, críticos e criativos. Além disso, Xueqin aborda aspectos que o Brasil poderia aprender com a China, como o conceito positivo de trabalho árduo que os estudantes asiáticos possuem e o processo de mentoria na formação de professores. Acompanhe a seguir.

 

Profissão Mestre: Mesmo com bons resultados no Pisa, como as primeiras posições em todas as categorias em 2009 e 2012 por Xangai, o sistema de educação chinês está sendo reformulado. Se os estudantes estão indo bem, por que mudar?

Jiang Xueqin: A China está obcecada em ser número um. O país quer ser melhor que os Estados Unidos. Como sabemos, os Estados Unidos são o centro de criatividade e inovação do mundo, por isso apresentam bom desempenho econômico. A China quer superar a América e isso significa ensinar coisas como criatividade, liderança e empreendedorismo nas salas de aula. O segundo ponto é que a economia chinesa alcançou um limite nos últimos dez, vinte anos. Investiu-se muito em infraestrutura, mas, se a China quiser se destacar em outros aspectos econômicos, precisa desenvolver mais sua indústria criativa, transformar seu sistema educacional para, em vez de produzir muitos engenheiros, formar também gestores, profissionais criativos e empreendedores.

 

Profissão Mestre: O governo não teme que essas mudanças gerem piores resultados no Pisa? Isso não é um problema?

Xueqin: O Pisa é importante, mas não direciona o debate interno. Existem muitos truques envolvidos no Pisa. A avaliação não é um reflexo preciso de um sistema educacional – cada país pode escolher quem faz o Pisa. O controverso a respeito de Xangai é que a cidade escolheu os melhores estudantes para fazer o Pisa. Quero falar um pouco do cenário atual: o governo não controla mais tudo na China. As pessoas, agora, têm mais dinheiro e escolhas. Criatividade no momento diz respeito à diferenciação. Uma escola que ensina criatividade permite aos estudantes se destacarem. Talvez no passado a alfabetização diferenciasse as pessoas umas das outras. Agora, no século 21, é a criatividade que funciona como fator de destaque, e não a avaliação.

 

Profissão Mestre: Quais são suas principais propostas de mudança para o sistema educacional chinês?

Xueqin: Existem duas maneiras de responder a essa questão: uma do ponto de vista individual e outra do ponto de vista das políticas. Primeiramente, vou responder sobre as políticas públicas. Acredito que deva existir melhor ênfase em equidade e mobilidade na educação chinesa. Isso significa que é preciso focar em ajudar os estudantes mais necessitados a aprender. Minha solução se divide em três partes. A primeira é investir em educação infantil desde cedo, na infância, porque o modo como uma criança se desenvolve pelo resto de sua vida é determinado pelos primeiros cinco anos de vida. É importante e fundamental garantir que as crianças tenham acesso à nutrição, a bons livros e a um ambiente emocional estável, propício ao crescimento e amadurecimento. Foco em educação infantil é algo que a China ainda não tem, e acredito que o governo chinês precisa olhar para isso. A segunda diz respeito à existência de faculdades vocacionais (correspondentes aos cursos técnicos de nível superior ou tecnológicos no Brasil). No momento, existe um desequilíbrio na China sobre ir ou não para a universidade e trabalhar. Sinto que, se houvesse mais faculdades vocacionais, os estudantes poderiam ir à escola e depois conseguir um emprego. Você vai à universidade para pensar, não para encontrar um trabalho. Acredito que muitos estudantes poderiam se beneficiar ao irem a faculdades vocacionais em vez das universidades, porque existe maior chance de emprego. A terceira parte é sobre impulsionar faculdades comunitárias. A ideia desse tipo de instituição é proporcionar aprendizado para a vida toda. Se você trabalha em uma fábrica, você pode estudar à noite em uma faculdade comunitária e atualizar suas habilidades para se tornar gerente ou técnico. Para isso funcionar, é preciso focar em mais mobilidade e opções, equipando as pessoas com mais oportunidades de aprender.

 

Profissão Mestre: Em sua opinião, quais mudanças precisam ser feitas?

Xueqin:Precisamos ensinar os estudantes a pensarem mais globalmente e a se transformarem em cidadãos responsáveis. Estamos preparando demasiadamente os estudantes para o mercado de trabalho. No entanto, somos seres humanos, indivíduos complexos com diferentes necessidades. Meu sentimento é de que as necessidades espirituais das pessoas não estão sendo supridas, estamos focando excessivamente em necessidades materiais, abandonando as questões espirituais, especialmente na China. Acredito que precisamos pensar mais profundamente em como podemos alimentar as almas das pessoas em vez de suas mentes. Como podemos fazer as pessoas serem melhores? Porque é difícil ser bom. Se sua escolha é ser bom, você precisa lutar bastante para ser uma boa pessoa. Na escola não ensinamos mais essas lições. Deveria haver mais foco em educação, conhecimento global e engajamento civil, ajudando as pessoas com mais dificuldades. Esses são propósitos de uma vida significativa.

 

Profissão Mestre: Foram esses aspectos que o senhor trabalhou nos programas que desenvolveu para estudantes do ensino médio?

Xueqin:O que você pode fazer de mais importante em uma escola é ensinar habilidades de leitura. Promover a habilidade de ler um texto complexo e analisá-lo, procurando subtextos e compreendendo a relação entre as palavras. Fizemos muito isso em sala de aula, mas a escola é um lugar complexo, em que os estudantes estão aprendendo muitas coisas. Nossa prioridade era ter certeza de que os estudantes tinham habilidades básicas de leitura e escrita, para irem bem na universidade e na vida. Em todas as disciplinas em que ensinamos aos estudantes questões como usar o computador e a internet, esquecemos o mais importante: a alfabetização. No futuro, o que definirá os bons estudantes, além da criatividade, será a alfabetização, ou seja, quais deles são capazes de ler bem e quais não. Hoje esse é um grande perigo. Meu objetivo era ensinar os estudantes a pensarem por eles mesmos e a alimentarem sua individualidade e criatividade.

 

Profissão Mestre: E quais foram os resultados desse trabalho?

Xueqin:Os estudantes foram muito bem e conseguiram entrar nas melhores universidades. Em meu primeiro programa, tínhamos 50 estudantes, e eles foram para Yale, Columbia [ambas nos Estados Unidos], passaram nas melhores universidades. Estimulo os estudantes a desafiarem-se constantemente, forçarem-se com novidades, porque é a única maneira de crescer e melhorar: aprender coisas diferentes do que você está acostumado, sair de sua zona de conforto. E, claro, ter disciplina mental. Uma vez que você consegue ter isso, é muito recompensador.

 

Profissão Mestre: Em que área o senhor atua como professor?

Xueqin:Minha formação principal é em Literatura Inglesa, então ensino habilidades de leitura e escrita. O mais importante que você pode ter é a habilidade de ler e escrever bem.

 

Profissão Mestre: No Brasil, as crianças vão para a escola, mas nem sempre aprendem a ler e a escrever.

Xueqin: Meus amigos disseram que o Brasil melhorou muito nos últimos dez anos. Porém, não se consegue resultados do dia para a noite. É preciso identificar os problemas e buscar soluções. Vocês precisam ter paciência em relação a esse assunto.

 

Profissão Mestre: No Brasil, ao contrário da China, costumamos ser bons em criatividade e péssimos em avaliações. Não temos uma cultura forte de disciplina como vocês. Devemos nos esforçar mais e mudar alguns valores?

Xueqin: Existe o preconceito de que criatividade e trabalho árduo não combinam ou não são a mesma coisa. Existe esse mito de que, para a criatividade [surgir], basta você ficar sentado até ter uma ideia. Criatividade é baseada em trabalho duro. Se você olhar para os indivíduos mais criativos, eles trabalharam arduamente para isso. Eles trabalham duro, mas também mudam o foco. Criatividade é mudar constantemente e envolve também a capacidade de trabalhar com multiplicidade de pessoas e de conhecimentos. Trabalho árduo é fundamental. É importante difundir esse conceito nas escolas. Estamos vivendo em um tempo em que os estudantes estão muito autocentrados e egoístas por causa do Facebook, YouTube etc., em razão de tantas distrações.

 

Profissão Mestre: Os professores brasileiros passam quase todo o tempo de trabalho em sala de aula. Na China, isso é diferente, e há também um trabalho de mentoria na formação dos educadores. Qual é a importância dessa ação?

Xueqin: Isso é algo que o resto do mundo pode aprender com a China. A colaboração entre professores é extremamente importante. A única maneira de melhorarmos como profissionais é aprendermos com outras pessoas, especialmente com aquelas que são melhores e mais experientes que nós. A melhor maneira de aprender é observando. Quando os professores chineses estão dando aula, convidam outros professores para observar e depois discutem a aula para ter um feedback. Essa é uma política fácil de ser implementada e que imediatamente tem um tremendo impacto na qualidade do ensino.

 

Profissão Mestre: O que o senhor acredita que é mais importante para um bom sistema educacional?

Xueqin: Em primeiro lugar, é preciso haver a crença de que a educação importa. Na China, acreditamos que a educação importa e o aprendizado conduz a uma vida mais feliz. Aprender requer sacrifícios, trabalho, dor, mas vale a pena. Os estudantes chineses estão mais focados em disciplina. É preciso  reajustar os valores sociais, as pessoas precisam levar a educação e o aprendizado muito a sério. Não estou certo de que isso existe no Brasil. Em segundo lugar, é preciso haver mais exemplos em educação. As pessoas, os políticos e os líderes precisam evidenciar mais a importância da educação. Esperamos que os estudantes nos respeitem, mas devemos respeitar mais os estudantes. Precisamos examinar as necessidades deles.

 

Profissão Mestre: Como o senhor identifica uma sala de aula voltada ao aprendizado?

Xueqin: A pergunta que faço é: na sala de aula, as crianças riem? Se você olhar para o processo de aprendizado, perceberá que aprendemos melhor quando estamos felizes, rindo. Aprender não é somente absorver o que está no quadro negro, são as atitudes, os valores do professor. Se o professor é bom, as crianças estarão felizes em sala de aula. Quando você entra em uma classe, sabe imediatamente se as crianças estão aprendendo, porque seus olhos brilham, elas estão prestando atenção, estão sentadas eretas. Nós sabemos como é um bom professor e uma boa sala de aula. A questão é como usar o que sabemos e o implementarmos na realidade.

Entrevista publicada na edição de maio da Profissão Mestre.

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