Em minhas andanças Brasil afora como professora e diretora do Instituto Crescer, em que coordeno projetos de formação de professores em diversas cidades do interior, sempre me impressionou o forte contraste entre a infraestrutura das escolas e a qualidade do ensino das áreas urbanas em comparação com as das áreas rurais. Com falta de verba, salários para professores ainda menos atrativos, prédios em estado de demolição e carência de recursos essenciais, crianças e jovens são obrigados a enfrentar horas de transporte, caminhadas e travessias em embarcações inseguras para frequentar escolas que ficam a uma longa distância de casa, levando à desmotivação e evasão. Muitas das escolas que são abertas na zona rural acabam fechadas sob a alegação de que não há alunos suficientes ou docentes dispostos a lecionar. Uma triste realidade.

 

O resultado do Enem de 2014 fez um retrato das escolas rurais no Brasil: a grande maioria das dez piores colocadas no ranking é de municípios do interior de estados do Norte e do Nordeste. São cidades como Borba, no Amazonas; Mazagão, no Amapá; Messias Targino, no Rio Grande do Norte; Ibipeba, na Bahia; Buriti Bravo, no Maranhão; Buriti do Tocantins e Maurilândia, do Tocantins. A discrepância na infraestrutura das escolas das cidades e do campo vai desde quesitos mais básicos, como água e esgoto, até a oferta de acesso à internet. Atualmente, o país contabiliza 122.214 escolas em área urbana e 67.604 em área rural, que respondem por somente 12% do total de alunos matriculados. De acordo com dados do Censo Escolar 2014, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), tabulados pela Fundação Lemann e pela Meritt, 70% das escolas das áreas urbanas têm esgoto encanado contra 5% das rurais; entre estas, 80% utilizam fossas, 15% sequer têm estrutura para lidar com os resíduos e 14% não têm nem mesmo água. O acesso à rede mundial de computadores está disponível em 86% das escolas urbanas, mas nas rurais apenas 16% oferecem conexão.

A transformação dessa realidade no ensino fundamental na zona rural passa por projetos que envolvem a iniciativa privada, o setor público e as universidades, como já vem acontecendo com o programa Escolas Rurais Conectadas, da Fundação Telefônica Vivo, que distribui laptops e modems para escolas rurais e realiza a formação de professores para inserir a tecnologia como ferramenta pedagógica, e o Programa Nacional de Educação do Campo (Pronacampo), do Ministério da Educação (MEC), voltado à implementação de ações para melhoria das escolas, como a oferta de cursos profissionalizantes para o campo e de laboratórios de informática, além de cursos de aperfeiçoamento para professores realizados em parceria com universidades federais.

Seja qual for o caminho a ser seguido para melhorar a educação no campo, é importante partir da premissa de que o ensino deve atender às peculiaridades da vida rural, o que é garantido pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN). Se a região onde o aluno mora tem uma economia basicamente agrícola, não faz sentido que o aprendizado seja sempre entre quatro paredes e dê ênfase ao estudo de temas distantes da realidade dele. Se o aluno aprender a trabalhar no campo e despertar sua vocação para desenvolver sua vida profissional na terra em que nasceu e vive, criaremos um cenário ideal para que finque raízes e impulsione a economia agrícola e pecuária do país.

Há ainda muitos hectares de oportunidades para semear em um país com tanta terra improdutiva como o Brasil. Enquanto países desérticos como Israel avançam na agricultura, ainda sofremos com a seca e a fuga do homem para cidade, onde há cada vez menos oportunidades de emprego.

Não há como reverter esse quadro se a educação rural não estiver pronta para dar bons frutos, não ter bons profissionais e gerar empresários do campo bem-sucedidos. Já passou da hora de adubarmos essa semente e colhermos uma safra de talentos que levarão o Brasil a retomar o crescimento e melhorar sua competitividade em um planeta cada vez mais carente de alimentos.

 

Matéria publicada na edição impressa da Profissão Mestre de fevereiro de 2016.

 

+ Educação
Assine a newsletter mensal e gratuita +Educação e receba ainda mais conteúdo no seu e-mail!