Docente capixaba premiado, que atua desde 1982 na mesma instituição, é exemplo de que experiência e capacitação constante fazem a diferença na carreira de um educador

Pedro Antônio Galli é um colecionador de grandes números. De seus 60 anos de vida, ele dedicou 36 anos ao magistério (número que não vai parar de aumentar tão cedo, se depender da disposição do professor) – 34 deles na mesma instituição, a Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Eurico Salles, de Itaguaçu (ES), em que leciona Arte. Além disso, é recordista em inscrições no Prêmio Sedu: Boas Práticas na Educação, realizado pela Secretaria de Educação do Espírito Santo, que visa valorizar os profissionais da rede pública do estado. No total, foram quatro projetos inscritos – e quatro prêmios – em nove edições. O que esses dados mostram, além da consistência do trabalho que desempenha, é que, ao contrário do que muitos imaginam, tempo de casa, experiência e “quilômetros rodados” não são, necessariamente, sinônimos de acomodação na evolução profissional. Muitas vezes, esses ingredientes funcionam como combustível para o professor que deseja se destacar. Na receita do sucesso de Galli, aliás, são ingredientes fundamentais.

 

Capacitação técnica

Membro de uma família de professores, Galli sempre enxergou sua profissão como uma vocação. Porém, apesar de reconhecer seu “dom”, ele nunca se baseou apenas no talento para conquistar bons resultados. “Cabe ao professor encontrar as maneiras de se manter qualificado para que as necessidades dos alunos, bem como as da própria sociedade, sejam atendidas. Apenas a formação inicial não é suficiente para garantia de qualificação”, avalia o educador, que é formado em Matemática e Ciências e tem especialização em Orientação Educacional, Planejamento Educacional, Métodos de Ensino e Arteterapia.
No entanto, não é apenas em processos formais de desenvolvimento que Galli apoia sua evolução como educador. A busca incessante por metodologias que despertem o interesse dos estudantes das novas gerações e o desenvolvimento de projetos que envolvem várias disciplinas também são alicerces de seu crescimento. “A longa caminhada possibilitou a ele escutas e aprendizados que deixam clara a necessidade de se estar em constante processo de mudança na educação, aberto a aprender com colegas e estudantes”, analisa Araci Maria Hell Andrade, diretora da escola em que Galli trabalha desde 1982. Dessa forma, avalia Araci, a bagagem do professor sempre se ajusta ao momento. “Sejam novos alunos ou novas tecnologias, os anos de experiência são uma base sólida para ele, mas uma bagagem que não tem caráter de rigidez, mas sim de leveza, servindo de alicerce para que ele possa compreender melhor as necessidades dos estudantes e se adaptar a elas”, considera a diretora.

 

Capacitação pessoal

No entanto, não é só de técnica que se faz um bom professor. Desenvolver o lado pessoal também é essencial para conquistar os alunos e, consequentemente, o sucesso. Em um mundo no qual a tecnologia ganha corpo e conquista cada vez mais espaço, é preciso compreender as especificidades de cada indivíduo em um grupo complexo como a sala de aula. “O professor, hoje, deve ter sensibilidade, consciência e saber lidar com as diferenças. É preciso ter flexibilidade para ajudar o aluno a descobrir que ele emancipa seu saber, garantindo oportunidades iguais para que cada um tenha capacidade, potencialidade e vontade”, reflete o professor. Galli não só sabe disso, como usa sua sensibilidade como diferencial para encontrar caminhos para despertar o interesse dos alunos. “Trata-se de uma busca por práticas que possam auxiliar os estudantes em sua relação com o mundo e aprimorar meu trabalho em sala de aula. As metodologias precisam tornar a aprendizagem significante e satisfatória e oferecer o que há de melhor para formar cidadãos mais conscientes”, pontua.
Foi essa visão, aliás, que garantiu a ele o 1º lugar no Prêmio Sedu de 2012. Seu projeto “Música, linguagem artística na educação” buscava valorizar a música como ferramenta que colabora diretamente para o desenvolvimento do conhecimento, pois envolve capacidades sensíveis, afetivas, cognitivas e imaginativas de cada estudante, e rendeu, além do título ao professor, um prêmio de R$ 25 mil para a escola. Com a recompensa, a instituição adquiriu novos instrumentos musicais, com o objetivo de possibilitar aos alunos o acesso ao aprendizado de música instrumental.

 

Preparação e aula

No que diz respeito à sua atuação em sala de aula, Galli é direto: “Não existe receita de bolo a respeito do planejamento e da metodologia que devem ser inseridos em sala de aula”. Na opinião dele, cada professor conta com diferentes experiências de vida e ideias que podem ser aplicadas em classe. “As ferramentas e a forma de abordagem são aspectos individuais de cada um, e os profissionais devem ter liberdade nesse momento”, afirma. Segundo o professor, seu método de trabalho prevê com antecedência o acompanhamento do conteúdo e uma maneira de torná-lo mais palpável. “Busco ampliar minha visão para além dos conceitos, inserindo procedimentos, atitudes, valores e recursos para desenvolver a ligação dos conceitos teóricos com a realidade do dia a dia”, conta.
O professor ressalta ainda a necessidade de compreender que cada estudante trabalha em um ritmo individual. Enquanto alguns precisam de auxílio e incentivo para acompanhar o andamento das aulas, outros aprendem com mais facilidade. Por isso, a escola deve proporcionar ambientes para a construção do conhecimento e o desenvolvimento de inteligência na velocidade de cada um. “Para isso, é preciso saber ouvir, observar e analisar, tendo paciência para ensinar e esperar que os frutos sejam colhidos conforme o ritmo de cada aluno”, conclui. Além do projeto citado anteriormente, nos últimos anos o professor Pedro Galli inscreveu no prêmio os trabalhos “A expressão da arte através da dança”, em 2011; “O teatro na escola”, em 2013; e “Retratando a dança como uma linguagem de arte”, em 2014. A combinação dos quatro projetos garantiu uma menção honrosa a Galli, por ter sido o educador com mais projetos inscritos nos nove anos de prêmio.


Boas práticas na educação

Voltado a professores, pedagogos e gestores educacionais com experiências bem-sucedidas nas unidades escolares da rede estadual de ensino do Espírito Santo, o Prêmio Sedu: Boas Práticas na Educação, realizado pela Secretaria de Educação do Estado, teve sua nona edição realizada no ano passado, em que foram avaliados projetos concluídos em 2014 ou realizados em 2015. Dividido em três categorias, o prêmio valoriza as boas práticas do professor (voltadas ao uso de tecnologia em sala de aula e temas contemporâneos), do pedagogo (abordando o cotidiano escolar e a avaliação da escola) e do gestor (com foco nas gestões pedagógica e administrativa). Enquanto os classificados em 1º e 2º lugar recebem uma televisão de LED de 46 polegadas, as escolas nas quais os projetos acontecem são contempladas com R$ 25 mil (1º lugar) e R$ 20 mil (2º lugar). A escola com maior número de projetos inscritos também é homenageada, assim como a Superintendência Regional de Educação.


Matéria publicada na edição impressa da Profissão Mestre de fevereiro de 2016.

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