Pesquisador norte-americano Antonio Rodriguez explica como funciona a mentalidade de crescimento, que permite às crianças se desenvolverem por meio de novas experiências

Entre as funções da escola está a de possibilitar que a criança e o adolescente se desenvolvam, adquirindo novas habilidades ao longo dos anos. Isso significa não apenas obter mais conteúdo, mas também buscar novas experiências e novos aprendizados. Essa maneira de pensar e de se comportar diante da vida faz parte do estudo das mentalidades fixa e de crescimento, foco das pesquisas do norte-americano Antonio Rodriguez. Membro fundador da Brooklyn Theatre Company, Rodriguez criou e conduziu programas de arte e liderança em várias escolas de Nova York e trabalhou para a Posse Foundation – fundação sem fins lucrativos que foi uma dentre as dez organizações escolhidas pelo presidente Barack Obama para receber parte do Prêmio Nobel de US$ 1,4 milhão com o qual foi agraciado, em 2009. Atualmente, Rodriguez é consultor na GameChangers, plataforma de aprendizado que auxilia indivíduos e organizações a se comunicarem melhor e construírem relacionamentos mais profundos, interna e externamente. Em junho deste ano, ele esteve no International School of Curitiba para uma série de atividades, e a Profissão Mestre aproveitou para entrevistá-lo sobre seus estudos a respeito de como as crianças aprendem e podem continuar aprendendo ao longo da vida. Confira a seguir.

Profissão Mestre: Como podemos tornar o processo de aprendizagem mais interessante para crianças e adolescentes?

Antonio Rodriguez: Minha grande paixão, quando se fala dessa questão, vem de várias pesquisas que estão sendo publicadas atualmente com base nas ciências cognitivas. Estou pensando particularmente no célebre cientista cognitivo Daniel Kahneman, que escreveu Rápido e devagar: duas formas de pensar (Ed. Objetiva), livro que mais ou menos resumiu o trabalho da vida inteira dele. Ele fez sua carreira buscando entender como nosso cérebro funciona com algo que é contraintuitivo, complicado ou que não segue a sabedoria convencional. Uma das grandes descobertas de Kahneman é muito complicada, mas ele usa uma metáfora muito útil para explicar o processamento do cérebro. Existem dois grandes sistemas que nosso cérebro usa para processar informação, os quais ele denomina Sistema 1 e Sistema 2 (quero enfatizar [que essas explicações] são simplificações). Kahneman afirma que é tudo muito mais complicado que isso, mas que é útil pensar nisso como dois sistemas. O Sistema 2 é o que geralmente consideramos ser nossos pensamentos, nossa consciência. Quando falamos com nós mesmos ou quando pensamos ou refletimos sobre nosso dia, isso é processado pelo Sistema 2, com alta cognição, processamento com nível de consciência. E então temos o processamento do Sistema 1, que abriga os processos mais inconscientes e automáticos, coisas que necessariamente não controlamos. Um jeito divertido de pensar sobre isso é que os cientistas cognitivos têm identificado que as pessoas têm dois tipos de sorrisos. Existe o tipo de sorriso que você diz para si mesmo que deve sorrir, como quando você vê alguém de que não gosta e pensa “sorria para aquela pessoa”. Você sorri e o sorriso sai de determinado jeito. Isso é um exemplo de sorriso do Sistema 2, no qual sua consciência está dizendo o que seus músculos devem fazer. E aí temos os sorrisos automáticos, aqueles que nós não escolhemos sorrir. Eles acontecem quando vemos alguém que amamos ou quando somos tocados por algo que significa alguma coisa para nós. Esses sorrisos vêm do processamento automático do Sistema 1. Dito isso, muito do que penso que a educação se foca, hoje, é o mundo do Sistema 2, de alta cognição e consciência, e não nos importamos tanto com o Sistema 1. Várias das partes mais belas de nossas vidas acontecem no Sistema 1. Muitas vezes, as escolas tentam controlar isso, colocar uma “tampa” e reprimir. Não queremos risos e gargalhadas, as reações que queremos são silêncio e atenção. Queremos que nossos pensamentos estejam focados em determinadas tarefas.

Profissão Mestre: Como é possível mudar essa situação?

Rodriguez: Tenho grande interesse em ver como podemos trazer esses processos automáticos para a sala de aula. Sendo mais técnico: quero analisar como podemos trazer as emoções cruas para a sala de aula, como podemos levar alegria e riso, criar espaço para isso e usar isso para servir ao que queremos que nossas crianças e nossos estudantes aprendam. Quando penso sobre maneiras de tornar a educação mais atraente, penso muito em entender o processamento do Sistema 1, o processamento automático, como isso funciona e como podemos usá-lo na educação, ao contrário do que geralmente acontece agora – que é algo contra o que temos batalhado.

Profissão Mestre: Como funciona a mentalidade de crescimento? Ela é similar ao Sistema 1 que você mencionou?

Rodriguez: Muitas vezes ela está escondida no Sistema 1. A mentalidade de crescimento e a mentalidade fixa surgiram do trabalho de Carol Dweck, pesquisadora na Universidade de Stanford. Seu trabalho, durante décadas, tem sido tentar entender o que faz certos estudantes obterem sucesso e outros falharem. Ela identificou que isso tem relação com o que os estudantes pensam sobre si mesmos e como eles se sentem a respeito de si próprios. Há duas grandes filosofias que não somente os estudantes, mas todos nós usamos quando pensamos sobre nossas identidades e como elas se mexem pelo mundo. Para explicar isso brevemente: uma pessoa com mentalidade fixa geralmente vê suas características fundamentais, suas partes mais profundas, como caráter, bondade, inteligência e o tipo de pessoa que ela é, como algo definido. Cada um tem um conjunto definido de características e é com ele que irá conviver ao longo da vida. Claro que os indivíduos com mentalidade fixa acreditam que o trabalho duro compensa, mas não acreditam que isso muda as estruturas internas de cada um. Já uma pessoa com mentalidade de crescimento tende a ver essas características de maneira distinta: ela não valoriza tanto [o ato de] pensar sobre esse tipo de estrutura interna ou se essas são características fundamentais sobre quem são. Elas veem essas coisas de maneira mais fluida, variando de caso a caso ou crescendo e decrescendo.

Profissão Mestre: Como exemplificar esses dois tipos de mentalidades?

Rodriguez: É possível pensar sobre isso quando alguém diz “Eu sou uma pessoa da música”, ou “Eu não sou uma pessoa das artes”, ou “Ali tem uma grande pessoa para a matemática”, ou “Eu nunca vou ser um tipo de pessoa esportista”. Quando vemos pessoas falando sobre isso, elas estão falando sobre estruturas fixas em seus mundos. Uma pessoa com mentalidade de crescimento não pensa tanto assim sobre essas etiquetas ou identidades. Isso não significa que elas nunca vão pensar nisso, mas isso simplesmente não é tão importante para elas. Quando pensamos sobre o quão importante é algo para alguém, isso é definitivamente algo no território do Sistema 1, assim como a forma como você se sente sobre essas coisas [também o é]. Sentir, muitas vezes, está associado a como uma pessoa interage com os diferentes domínios intelectuais do mundo. Digamos que você não se vê como alguém com afinidade para matemática e precisa resolver um problema matemático. Sua posição será de resistência, descontentamento, estresse, e isso é uma das coisas que Dweck e sua equipe descobriram: o quão estressados são os alunos com mentalidade fixa. Eles podem ter grandes conquistas. Há vários alunos com mentalidade fixa que conseguiram grandes sucessos, conquistas históricas, mas eles o fizeram sob grande custo emocional. Quando penso sobre o tipo de crianças e de estudantes que queremos no mundo, [penso que] queremos que eles conquistem grandes coisas, mas também que aproveitem esse trabalho e, sempre que possível, que não vivam estressados, o que traz outros custos. Isso é realmente complicado. É fácil destacar essas coisas, mas é muito difícil, realmente, mudar de uma mentalidade para outra. É factível, mas não é tão fácil quanto simplesmente falar.

Profissão Mestre: Apesar de ser um processo complicado, é possível os professores estimularem essa mudança de mentalidade durante as aulas?

Rodriguez: Sim, absolutamente! Há várias pesquisas de qualidade que fundamentam isso. Na verdade, a maneira mais eficaz de um professor promover a mentalidade de crescimento é estimular os alunos a procurá-la e buscá-la neles mesmos. E é muito importante que o professor sirva de modelo. Quando comecei a trabalhar nessa pesquisa, isso foi impactante para mim, mas aí se tornou um verdadeiro desafio sobre como eu vivo minha vida. Olhei para mim mesmo e vi todas essas áreas fixas e outras com potencial de crescimento. Raramente as pessoas são apenas de um jeito. Você encontrará várias pessoas que falam “Ah, eu sou fixa em tal área” ou “Eu estou crescendo nessa área”. Sempre será uma mistura que muda conforme o contexto. Podem existir pessoas com quem você é mais estável, porque não quer estragar as coisas ao redor delas; já outras pessoas podem fazer você se sentir mais livre, mais orientado ao crescimento. Uma das coisas que me questionei desde cedo foi como essas mentalidades são decididas. Como meu sistema aprende essas coisas? Como o Sistema 1 não é exatamente esse processo altamente consciente, ele absorve informação de maneiras diferentes. Cientistas cognitivos como Daniel Kahneman falam que o Sistema 1 é muito associativo. Não é algo que trabalha com palavras, ideias e pensamentos, mas sim com associações e comparações. Um dos grandes fatores com os quais nos associamos são as pessoas de quem gostamos, como nossos pais. Eles modelam nosso comportamento e nossas ideias. O jeito que eles pensam sobre o mundo quase sempre se torna o jeito que nós, seus filhos, lidamos com o mundo. Professores também têm papel nisso, principalmente aqueles que têm relações ricas com seus alunos. Eles também se tornam exemplos poderosos se puderem dominar essas mentalidades, mas não de um jeito perfeito.

Profissão Mestre: De que maneira os professores podem trabalhar com essa questão?

Rodriguez: Penso que é [um trabalho] de buscar essas mentalidades, entendê-las e normalizar nossos próprios erros. É se tornar um exemplo de como é crescer e também de como é errar em sala de aula e estar tranquilo com isso. É realmente desafiador e um pouco controverso, porque significa que você deve se examinar como pessoa e como educador [e questionar] como você está transmitindo sua filosofia e seu jeito de viver aos estudantes. Muitas vezes, pensamos que não devemos fazer isso, mas não temos como evitar. Geralmente são lições que são transmitidas, quer a gente queira ou não. As maneiras mais importantes para um educador encarar esse desafio são ser uma pessoa com mentalidade de crescimento e, se possível, interagir em atividades que sirvam de exemplo e promovam essas capacidades. Uma das coisas que falo para os pais que querem que suas crianças sejam aprendizes pela vida toda é ser um exemplo. Isso significa que os pequenos vão se beneficiar de verem os pais e as mães encarando algo desafiador ou tentando algo que é difícil para eles, como aprender uma nova língua ou algum tipo de dança que não sabiam, encontrando jeitos de compartilhar com os filhos como tem sido esse processo e também servindo de modelo ao afirmarem que não desistirão, e sim continuarão. Essa é uma das maneiras mais poderosas para desenvolver essa mentalidade não somente na cabeça da criança, no Sistema 2, mas também no coração, no corpo e no sentimento dela, ou seja, no Sistema 1.

Profissão Mestre: Uma criança que está mais habituada em ter uma mentalidade fixa pode fazer a transição para uma mentalidade de crescimento?

Rodriguez: Essa questão tem se tornado grande parte de minha jornada [como pesquisador]. É também algo que tem sido focado na pesquisa de Carol Dweck, a qual tem mostrado que há potencial interessante [para o desenvolvimento humano]. Em seu trabalho, um dos principais focos é o fato de que o cérebro é um músculo que cresce quando você o desafia. Isso vai de encontro com o que pensamos sobre ele. Durante décadas, acreditamos que temos um número definido de células cerebrais ou que o cérebro que temos ao nascer é o mesmo que teremos por toda a vida. Dweck conta uma história de quando estava na terceira ou quarta série e a turma toda realizou um teste de QI. Quando a professora recebeu os resultados, ela ordenou as crianças colocando as mais inteligentes na primeiríssima fila e as que tiveram as piores pontuações no fundo da sala de aula, porque essas não teriam as mesmas condições para aprender. Somente a ideia de que nenhuma de nossas estruturas está definida e de que, conforme enfrentamos desafios, nosso cérebro está mudando e se tornando mais forte (é uma das intervenções que Dweck tem defendido em sua pesquisa) mostra grande potencial, pois assim uma pessoa pode sair de um tipo mais fixo de interagir com o mundo para outro mais orientado para o crescimento. Elas pensam “meu cérebro se desenvolveu”, mas, quando o desafio surge diante delas, elas pensam “não, obrigado”. [Nesse caso], emoções aparecem como “eu não quero fazer isso” [risos]. Ter maneiras de não somente pensar sobre essas atividades, mas também de senti-las, é muito poderoso e é uma área que eu estou interessado em explorar.

Profissão Mestre: Para desenvolver a mentalidade de crescimento, a criança precisa desenvolver habilidades não cognitivas, como perseverança e otimismo?

Rodriguez: Há uma grande iniciativa, pelo menos nos Estados Unidos, para implementar no currículo o que chamamos de padrões socioemocionais de aprendizagem.  [Isso significa] que ensinar habilidades como controle emocional e desenvolvimento de relações deve ser algo “costurado” à educação tal qual matemática ou ciências e que esses tópicos devem ser tão importantes quanto ou tão básicos quanto quaisquer outras disciplinas em nossas vidas. Ensinar esses tópicos ou tentar encontrar maneiras de desenvolver habilidades nessa área é absolutamente necessário. Obviamente, é mais fácil falar que fazer, e isso é desafiador porque muitas escolas já têm problemas suficientes, como cortes de orçamento e gerenciamento do dinheiro, tópicos em que, historicamente, já temos focado. Essa ideia é muito rica, mas é muito difícil para os professores. Como ensinamos controle emocional? Como ensinamos melhores habilidades sociais? Essas são áreas em que ainda estamos testando os melhores currículos, as melhores práticas e abordagens. É difícil, mas é factível. Existe um grande universo de trabalhos apoiados por pesquisadores inteligentes e educadores apaixonados, que estão realmente progredindo nessa direção. E isso é o mais empolgante na educação agora, esse crescente movimento nessa direção. Ainda não chegamos lá, mas estamos nos movendo devagar e sempre. 

Entrevista publicada na edição de novembro de 2015

+ Educação
Assine a newsletter mensal e gratuita +Educação e receba ainda mais conteúdo no seu e-mail!