Escritor Pedro Bandeira aposta no incentivo à leitura para melhorar a educação no Brasil e afirma que precisamos aprender a alfabetizar direito

Pedro Bandeira sabe como agradar jovens leitores. As aventuras d’Os karas, os poemas de Isabel e o fantástico mistério de Feiurinha, por exemplo, partes de três de seus enredos de maior sucesso, além de conquistarem crianças e adolescentes do Brasil inteiro desde a década de 1980, ajudaram a dar ao escritor o título de autor de literatura juvenil mais vendido no Brasil (até 2015, foram mais de 30 milhões de exemplares vendidos) e vários prêmios, como o Prêmio APCA, da Associação Paulista de Críticos de Arte, e o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro (CBL). Conquistas que impressionam por si só, mas que chamam ainda mais atenção quando colocadas ao lado da descoberta do estudo NOP World Score Index, realizado em 2015 pela agência NOP World para medir “hábitos de mídia” em 30 países, que posicionou o Brasil na 27ª posição no ranking de leitura – à frente apenas de Taiwan, Japão e Coreia do Sul –, e mais ainda se analisadas levando-se em consideração o fato de seu público (infantojuvenil) ser reconhecido por dedicar cada vez mais tempo aos aparelhos eletrônicos e à internet e menos aos livros.

No entanto, não é apenas sobre como escrever histórias que vendem que o premiado autor tem autoridade para falar. Especialista em Letramento e em Técnicas de Leitura, Bandeira, que também atua como pesquisador e conferencista das áreas de literatura, educação e psicologia do desenvolvimento, conhece muito bem as dificuldades enfrentadas pelos educadores brasileiros e propõe interessantes reflexões sobre como contorná-las. Durante passagem por Curitiba (PR) para participar da 34ª Semana Literária do Sesc, Bandeira concedeu entrevista exclusiva à Profissão Mestre, em que fala sobre como lidar com os “piores alunos”, analisa a questão da evasão escolar, explica como a poesia pode facilitar o processo ensino-aprendizagem e muito mais. Acompanhe e inspire-se com as palavras do escritor.

Profissão Mestre: O senhor declarou recentemente aos professores que quem mais precisa da ajuda deles são seus piores alunos. O senhor acredita que os professores não estão atentos aos alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem e de relacionamento?

Pedro Bandeira: Na história do Brasil, os professores sempre foram treinados para dar aula apenas aos bons alunos. Por muito tempo, nosso país teve uma escola que excluía os estudantes que não eram brilhantes. O foco dos educadores deveria estar no aluno que tem um futuro promissor (o que, naquele pensamento de então, era algo exclusivo de quem tirava boas notas). Ou seja, não dá para dizer que tínhamos um país democrático, em que todos têm direito ao ensino. Por conta disso, os piores alunos eram sempre deixados de lado. Como resultado, passamos a ter uma população muito mal preparada, sem acesso à informação, o que fez do Brasil um país atrasado. Mas as coisas têm melhorado gradualmente. Hoje já temos vaga para todo mundo nas escolas, então o que precisa acontecer é um novo processo de capacitação dos professores, para garantir que os alunos com dificuldade tenham os mesmos direitos dentro das salas de aula. Se você parar para pensar, a lógica é simples: se uma criança que tem dificuldade no aprendizado e, por conta disso, não compreende uma lição, levar uma bronca do tipo “você é burro” ou “você é preguiçoso”, as chances de ter medo de tentar de novo serão maiores no futuro e a probabilidade de ser tornar um adolescente rebelde, também. Como consequência, o que diminui é sua garantia de sucesso no futuro. Por isso, acredito que a missão de cada professor precisa ser cuidar melhor desses “piores alunos”. Para tanto, é preciso de dedicação e da consciência de que, nesse processo, será impossível conseguir salvar todos.

Profissão Mestre: Como é possível fazer essa mudança de pensamento? Isso é papel do gestor ou do professor?

Bandeira: Acredito que essa seja uma missão que devemos abraçar juntos. No entanto, sabemos que a gestão é a maior responsável pelo sucesso das escolas. Pesquisas e estudos têm demonstrado que as melhores escolas são aquelas que são mais bem dirigidas, que têm uma boa diretoria. Do lado contrário, o que se vê em escolas em que os gestores só cuidam da parte financeira é um soneto desastroso: os professores não conseguem se desenvolver, os alunos não atingem os melhores resultados... Enfim, nada funciona como deveria. Ou seja, para que essa mudança de pensamento aconteça e possamos colher os resultados dela, é preciso que as escolas ofereçam o “pacote completo”: boa estrutura, excelentes professores e gestão focada no todo, não apenas no desempenho financeiro da escola (que é importante, mas não é tudo).

Profissão Mestre: A evasão ainda é um problema nas escolas brasileiras. Em sua opinião, está nas mãos do professor fazer com que o aluno se mantenha interessado pelo aprendizado e pela escola? Como ele pode fazer isso?

Bandeira: Eu analiso a questão da evasão escolar fazendo um comparativo com uma festa. Pare e pense: você só vai embora de uma festa quando ninguém lhe tira para dançar, quando a conversa com os convidados não está boa ou o garçom passa com a bandeja cheia de salgadinhos e nem lhe oferece. Ou seja, os outros são os culpados pela sua desistência, não você. Da mesma forma, a culpa da evasão escolar não é do estudante, é da própria escola, que não é interessante para ele – ele teve dificuldades, foi perseguido, teve más notas. Por que continuar sofrendo? Você só segura um aluno se proporcionar um bom ambiente para ele, se fizer ele se sentir acolhido e compreendido. Agora, se dentro da escola ele se sentir perseguido, castigado, suspenso, é claro que vai preferir não voltar para lá. Claro! Então, para mim, a questão vai além do esforço do professor em agradar seus alunos. Isso é importante, sim, mas é apenas uma parte do todo. O esforço precisa ser coletivo.

Profissão Mestre: Em sua palestra, o senhor disse que a poesia pode ajudar a despertar o interesse do aluno e facilitar o ensino e o aprendizado. Quais são suas dicas para que os professores utilizem essa forma literária como aliada?

Bandeira: Eu entendo que a poesia pode ajudar, e muito, a resolver um grande problema que enfrentamos nas escolas brasileiras: o fato de que os alunos leem mal. Muitas vezes, nossos estudantes vão mal na escola porque não são bons em leitura. Eles não compreendem o que leem e, por conta disso, não conseguem atender às solicitações dos professores nas provas e nos exercícios. A poesia, por geralmente ter uma linguagem agradável ao leitor, serve como forma de resolver esse problema. Portanto, sugiro que o professor dê muita poesia simples para seus alunos lerem, mas muita mesmo! A ideia é que eles continuem lendo e treinando até atingir o letramento, que é a compreensão leitora. Isso fará com que compreendam melhor os conteúdos estudados, conquistem melhores notas e melhorem sua autoestima, o que fará a roda continuar girando. Vou citar um exemplo que explica essa ideia de que geralmente o desempenho ruim dos alunos está relacionado à dificuldade de leitura. Recentemente, uma garota de 13 anos me contou que tinha acabado de ler seu primeiro livro; um livro que eu escrevi voltado para o público infantil – não para a idade dela, para crianças mesmo! E ela gostou. Por quê? Porque aquela linguagem estava adequada à capacidade de leitura dela. Ela foi mal alfabetizada, os professores não notaram isso e não trabalharam para melhorar essa questão quando deveriam, gerando um atraso na formação da garota, que já deveria estar lendo livros mais complexos. Minha sugestão é que o reforço seja feito com poesia, com piadinhas, para que os estudantes leiam e se divirtam, aprendendo de maneira leve e de fácil compreensão. Atraindo a atenção dos alunos, será mais fácil evoluir.

Profissão Mestre: E isso pode ser feito em qualquer disciplina, não apenas no ensino da língua portuguesa?

Bandeira: Claro. Os professores de qualquer disciplina podem usar a poesia como ferramenta de ensino. Para isso, cabe ao educador abrir os olhos para ver que o sucesso não depende de fórmulas prontas. É possível inovar, educar e colher os resultados. 

Profissão Mestre: E como o professor pode incentivar a leitura hoje, em que as novas tecnologias dominam o interesse das crianças e dos jovens?

Bandeira: Só conseguiremos melhorar o índice de leitura se realmente fornecermos a compreensão leitora, o que não acontece hoje. Você sabia que estudos revelam que a cada quatro adultos que dizem ser alfabetizados, apenas um é capaz de compreender um texto desta revista? Isso significa que, na prática, os outros três são analfabetos. E se 75% de nossa população adulta é analfabeta, temos um país fraco. E esse é nosso problema. A lição que fica dessas constatações é simples: precisamos lutar pelo letramento nas escolas. Como é que uma criança vai entender bem o conteúdo de História se ela lê mal Chapeuzinho vermelho? O que precisa ser entendido de uma vez por todas é que o aluno vai mal em todas as matérias porque não sabe ler. Este é nosso primeiro ponto: precisamos aprender a alfabetizar direito. Minha sugestão é de que tentemos isso pela quantidade. Quanto mais você ler, mais aprenderá a ler. Quanto mais você escrever, melhor vai escrever. Agora, se você lê pouco e escreve só de vez em quando, como é que vai escrever bem? Ou seja, sugiro aos professores que aumentem a quantidade de leitura e de tarefas de redação. Façam seus alunos lerem e escreverem o tempo todo. Não precisa nem corrigir as redações, apenas deixe os alunos treinarem essa habilidade. Invente maneiras para fazer a criança escrever que uma hora ela vai chegar lá.

Profissão Mestre: Como o senhor avalia as políticas de incentivo à leitura no Brasil?

Bandeira: Acredito que ainda temos que evoluir muito; olhar para fora e nos inspirar nos países com índices de leitura de fato convincentes. Se conseguirmos avançar nesse sentido, podemos mudar o Brasil. Mas, para isso, é preciso mais esforço. Vejo muitas iniciativas isoladas, mas pouco empenho conjunto, e é isso que falta para podermos comemorar bons resultados.

Profissão Mestre: Os resultados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) mostram que 34% dos alunos do 3º ano do ensino fundamental têm nível inadequado de conhecimento na escrita. Em sua opinião, o que o país deve fazer para melhorar esse índice?

Bandeira: Precisamos, primeiro, investir nos professores. Quem investe no aluno é o professor, mas nosso investimento deve ser no professor. Quando falo em investimento no professor, não falo apenas em termos de capacitação. É claro que é preciso cuidar do treinamento dos educadores, mas não é só isso. O investimento deve ser também em motivação. Nossos professores estão desmotivados, não somente por causa do salário baixo, mas também pela falta de apoio e admiração da sociedade, coisa que existia há 40 anos. Por conta disso, o orgulho de ser professor não existe mais. Há vários meninos e várias meninas com talento para o magistério que não estão nem cogitando se tornar professor, já iniciam a vida profissional excluindo a possibilidade de entrar em sala de aula. Estamos perdendo talentos! Por isso, se desejamos reverter esse resultado ruim apresentado na Avaliação Nacional de Alfabetização, precisamos voltar a valorizar o professor. A luta da sociedade precisa ser essa. Se nós pressionarmos o governo, ele será obrigado a melhorar o salário, a capacitar nossos educadores, e a profissão voltará a se fortalecer. Se não pressionarmos, nada será feito e o cenário não mudará, ou seja, não teremos resultados melhores nas próximas avaliações. Portanto, meu apelo é para que a sociedade se una e apoie nossos professores. O futuro do Brasil depende disso.

Profissão Mestre: O que o senhor pode compartilhar da experiência de escrever para crianças e jovens, tendo em vista a mudança do perfil desse público nas últimas décadas? E o que pôde observar de perto nos 14 anos que separaram seu último livro do mais recente?

Bandeira: O ser humano não muda, ele é sempre o mesmo, não é a tecnologia que faz o ser humano mudar. A criança, quando nasce, quer o colo e o cheiro da mamãe. Quando chega aos 14 anos, o adolescente quer namorar, e assim por diante. Até hoje as peças de William Shakespeare, que têm 400 anos, fazem o maior sucesso. Por quê? Simples: ele não escreveu sobre o tempo dele, ele escreveu sobre o ser humano. Escreveu sobre o amor em Romeu e Julieta, sobre o ciúme em Otello, sobre a ambição em Macbeth. Enfim, escreveu sobre as emoções humanas. E emoção humana não muda. Não há internet que faça isso mudar. O que eu quero dizer com isso é que os meninos de hoje são os mesmos que eram os avós deles e que serão os netos deles. Todos nós passamos pela fase de sentir atração sexual, sofrer por um amor perdido, sentir ciúme de quem amamos, raiva por uma derrota, e assim por diante. E sempre será assim. Por isso, para mim, pode ser difícil escrever sobre as tecnologias do momento, pois não fazem parte de minha realidade como fazem da realidade de meus leitores, mas jamais será difícil escrever sobre as emoções humanas, porque elas não mudam.

Colaboração: Tom Schiebel

Entrevista publicada na edição de dezembro de 2015

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