Um relacionamento positivo e envolvente entre educadores e alunos é fundamental para o aprendizado

 

“Eles não me pagam para gostar das crianças. Eles me pagam para ensinar a lição. As crianças devem aprender. Eu devo ensinar. Caso encerrado”. Rita Pierson, educadora norte-americana que faleceu em 2013 e lecionou durante 40 anos, não conseguiu ficar quieta ao ouvir essa declaração de uma colega. Em sua palestra no TED (assista em www.bit.ly/rita-pierson), Rita conta que respondeu: “Crianças não aprendem com pessoas das quais elas não gostam”, deixando claro que, com essa postura, a professora em questão não estava fazendo o que foi paga para fazer: a missão dela era ensinar, mas, como não se preocupava em se relacionar com os alunos, dificilmente atingiria os resultados esperados. Assim como a colega citada por Rita, muitos professores entram em sala de aula operando no “modo automático”, repassando o conteúdo programático sem interagir com os alunos e sem se preocupar em cultivar um relacionamento com eles.

 

 

Heloisa Helena Oliveira de Azevedo, professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), também acredita que as crianças não aprendem com quem elas não gostam. Segundo Heloisa, partindo do pressuposto teórico de que afetividade e cognição não se dissociam, pode-se afirmar que uma relação afetiva positiva entre professores e alunos beneficia de maneira significativa a aprendizagem dos estudantes. “Se os alunos gostam de como o professor os trata, de como se relaciona com eles, é possível alcançar ótimos níveis de aprendizagem. O contrário também pode ocorrer. Se professores não gostam de seus alunos e vice-versa, não vão construir uma relação afetiva agradável para que estejam abertos ao aprendizado”, analisa. Celso Ilgo Henz, professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Educação da mesma instituição, acrescenta que é por meio da educação que as pessoas se humanizam e que nenhuma forma de sentir/pensar/agir dispensa uma educação para e pela convivência dos seres humanos uns com os outros e com o mundo. “Todos os processos ensino-aprendizagem começam com uma relação, um encontro entre pessoas. Em muitas escolas, a preocupação é ‘vencer o conteúdo programático’, sem ter um olhar cuidadoso e uma escuta sensível para os estudantes em sua totalidade – com sua razão, seus sentimentos, seus desejos, seus sonhos, suas esperanças. Sem essa relação interpessoal, dialógica e afetiva, não acontecem processos ensino-aprendizagem, embora sejam repassados e depositados os conteúdos”, aponta.

Henz ressalta também a influência das emoções vivenciadas pelos estudantes no processo de construção do conhecimento. “Eles esperam encontrar na escola mulheres professoras e homens professores em sua inteireza, capazes de vivenciar emoções, permitindo-se assumir sentimentos, sonhos, amores e indignações. Pedagogicamente, é impossível desenvolver a dimensão cognitiva desconectada da dimensão emocional e da realidade vivida. Qualquer mudança que mexa com nossas emoções afeta e modifica também nosso modo de interagir com os outros e com o mundo e, consequentemente, também os processos ensino-aprendizagem”, destaca.

Para Maria Malta Campos, doutora em Ciências Sociais, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas (FCC) e presidente da organização não governamental Ação Educativa, o relacionamento é fundamental, sim, mas a preocupação com o lado humano da relação aluno-professor não deve anular a relevância do repasse do conteúdo necessário. “É preciso deixar claro que reconhecer a importância das relações humanas não deve significar, de maneira alguma, colocar em segundo plano a necessidade de o professor contar com uma sólida formação profissional, que deve contemplar o domínio dos conteúdos previstos no currículo escolar, o conhecimento sobre as diversas fases de desenvolvimento de crianças, adolescentes e jovens, o interesse pelo contexto social e cultural da população atendida pela escola e o domínio dos instrumentos pedagógicos necessários para o trabalho docente”, comenta. Henz complementa que quando as relações são positivas, sérias e rigorosas, os estudantes criam vínculos de cumplicidade e comprometimento com o professor, sentindo-se responsáveis pelo que é proposto pelo grupo. “Quer dizer, aprende-se muito mais do que ‘conteúdos científicos’, sem deixar de trabalhar com eles: aprende-se que nos constituímos pela história com os outros e com o mundo, aprende-se mais e melhor, para ser e viver mais feliz”, pontua.

Reportagem publicada na edição de abril de 2016. Leia a matéria completa na revista impressa

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