Especialistas explicam os papéis da família e da escola no desenvolvimento cognitivo e emocional dos estudantes e revelam os caminhos para que essas duas importantes instituições estejam cada vez mais próximas 

Crianças e jovens aprendem a todo momento e em todo lugar: na sala de aula, conversando com amigos, na mesa de jantar, nos passeios com os pais, nos debates com os irmãos, no supermercado, na internet, nas férias. Definitivamente, o aprendizado não se restringe ao ambiente escolar. Nesse sentido, a família tem papel fundamental no desenvolvimento intelectual dos alunos. Quando família e escola atuam em sintonia, os ganhos para a formação do estudante são inúmeros, pois ele se sente mais motivado e engajado nos estudos e no ambiente escolar. Por outro lado, o distanciamento da família das atividades escolares impacta negativamente o desempenho do aluno.

Mais que ninguém, o professor sabe a diferença que há entre um aluno com família ausente e um estudante com pais interessados em seu desenvolvimento. No entanto, a influência da família no desempenho estudantil não é só questão de percepção de quem vive essa realidade. Diversos estudos confirmam isso. Um deles foi realizado em 2014 pelo Instituto Ayrton Senna (IAS), em parceria com a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em uma análise na rede estadual de Educação do Rio de Janeiro em que participaram quase 25 mil crianças, o IAS e a OCDE comprovaram aquilo que quem trabalha em sala de aula já sabe: pais engajados, mesmo com baixo índice de escolaridade, promovem grande impacto no desenvolvimento escolar dos filhos. O estudo mostrou que crianças e jovens que recebem apoio e atenção dos pais na vida escolar estão, em média, quatro meses à frente no aprendizado em comparação com os que não recebem. O relatório apontou ainda que o incentivo ao estudo pelos pais tem duas vezes mais influência que a renda em aspectos como disciplina, iniciativa e curiosidade dos estudantes.

De acordo com Luís Carlos de Menezes, professor da Universidade de São Paulo (USP), membro do Conselho Estadual de Educação de São Paulo e consultor da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), houve um período em que o ensinamento de valores era restrito à família, que era responsável pela formação ética e moral do estudante, e a escola não deveria se envolver nisso. No entanto, hoje em dia essa separação não faz sentido. Para ele, atualmente os papéis da escola e da família são complementares. “A escola é um lugar de muitos jovens e crianças juntos e, portanto, é necessariamente um espaço de conflitos. E a escola tem que trabalhar, entre outras coisas, resolvendo embates, ensinando a negociar diferenças de visão, de perspectiva ou de vontade. E isso, portanto, envolve aspectos éticos e emocionais que os professores devem, sim, cumprir”, aponta, evidenciando que o papel do professor não é apenas ensinar português, matemática, história etc., mas também o de formar cidadãos plenos.

Inês Kisil Miskalo, gerente executiva de Políticas de Aprendizagem do Instituto Ayrton Senna (IAS), concorda com Menezes e ressalta que as responsabilidades da família e da escola se complementam para garantir o sucesso dos estudantes. “O desenvolvimento de uma criança ou de um jovem é uma junção de esforços e responsabilidades da escola e da família. Cada uma tem uma responsabilidade num campo, só que devem estar unidas para que a criança seja realmente beneficiada”, declara.

União de forças

A psicologia indica que as crianças e os jovens seguem modelos a sua volta para encontrar sua própria identidade. A lógica também se aplica no caso da relação com a escola. “Se a criança sente que a escola é importante para a família, ela tende a encará-la com um compromisso maior. Caso contrário, a criança também tende a dar papel menos relevante para a educação em sua vida”, explica Inês. Por outro lado, acrescenta a especialista, quando o professor percebe que a família está mais presente, ele se sente mais seguro e mais respaldado em suas ações. “Esse alto nível de responsabilidade mútua mostra ao estudante que ele é importante para as duas instituições. Dessa forma, a tendência é se envolver mais, se comprometer mais com seu desenvolvimento”, frisa.

Além dos benefícios para a aprendizagem do aluno, a relação do estudante com a família ganha mais profundidade quando esta se envolve no desenvolvimento emocional dele. Menezes comenta que o ambiente familiar pode contribuir para o desenvolvimento integral das crianças e dos jovens. “Às vezes, você tem uma família com baixo letramento, que é incapaz de organizar o próprio orçamento familiar, por exemplo. Nesse sentido, o jovem pode ser um vetor de informações. A criança pode treinar seu letramento ajudando a fazer a lista de compras, organizando as contas, e assim por diante. Esse exercício é bonito porque a família ajuda a avaliar a competência que o aluno está adquirindo e, ao mesmo tempo, a desenvolvê-la”, destaca. Em contrapartida, quando a família e a escola estão distantes, acontece um abandono duplo do estudante. Para ilustrar esse pensamento, Menezes conta o caso que acompanhou de uma adolescente que passou vários meses sem ir à escola: só descobriram que a estudante não estava frequentando a instituição quando ela apareceu grávida. “Por isso, até mesmo em coisas básicas, mas fundamentais, como o comparecimento do aluno, é imprescindível que escola e família atuem em conjunto”, analisa.

Inês defende que o professor deve comunicar imediatamente à família se o aluno não estiver frequentando a escola e, da mesma forma, a família precisa avisar quando o estudante vai se ausentar. Segundo a especialista, essa comunicação direta contribui para que sejam tomadas medidas rápidas para não prejudicar o desenvolvimento do aluno. “O sucesso dele é diretamente proporcional ao apoio que existe nas duas instituições, ao compromisso que elas têm de evitar que ele esteja em situações que possam comprometer sua integridade de alguma forma”, alerta. Para ela, quanto menor a criança, maior a necessidade de aproximação, inclusive no aspecto afetivo, pois é nessa fase que as sementes são plantadas. No entanto, apesar desse posicionamento, a especialista lembra que é essencial ficar ao lado dos estudantes também quando eles começam a ganhar autonomia (nos ensinos fundamental e médio), dando responsabilidades e acompanhando seu desenvolvimento, para que não se percam no caminho.

Dificuldades de aproximação

Uma das grandes dificuldades para que haja participação mais ativa dos pais nas atividades escolares é o fato de que, muitas vezes, os integrantes da família têm baixa escolaridade e não entendem o que os filhos estão aprendendo. Mas isso, como mostra o estudo do IAS, não impede que os pais tenham influência positiva na formação dos estudantes. O incentivo, a participação ativa e o interesse pela vida escolar trazem grandes resultados. Luís Carlos de Menezes defende que o papel dos pais não é ajudar a criança a fazer lição de casa, “mas sim propor, junto com a escola, atividades que sejam interessantes para os alunos e a família”. Inês complementa que, muito mais que o nível educacional dos pais, muitas vezes é o estilo de vida deles que dificulta essa aproximação com a escola. “A gente vive um momento histórico em que a família precisa sair em busca de recursos que garantam sua sobrevivência. E isso está levando pai e mãe ao trabalho. E o que acontece? Por falta de condições e tempo, a família acaba não acompanhando a vida do estudante na escola”, explica.

Outro grande desafio, para Menezes, é a ideia equivocada que muitos pais têm em relação ao papel da escola. Ele relembra que houve um tempo em que boa parte das famílias, especialmente de classe média, não queria que a escola interviesse na formação de valores dos alunos e que, hoje, às vezes, acontece o contrário. “A principal dificuldade é a ideia de que a educação é só mais um serviço. A família leva a criança para ser educada pelos professores e vira as costas, como se a escola sozinha pudesse fazer isso. A escola não é um serviço, a escola é formação. É preciso acompanhar, e não é só acompanhar da perspectiva acadêmica, mas também da perspectiva emocional”, opina. Mas o distanciamento entre pais e escola não é responsabilidade apenas da família. A gestora do IAS aponta que a escola também tem sua parcela de culpa nessa falta de aproximação. “Muitas vezes, a escola não busca trazer a família para dentro dela como parceira. Ela busca a família quando tem algum problema com a criança ou, ainda, chama em horários em que os pais não podem estar presentes”, argumenta. Isso, segundo a especialista, faz com que a família não tenha vontade de participar das atividades escolares. Entretanto, segundo os especialistas, dá para reverter esse panorama, aproximar família e escola e colher excelentes resultados. As sugestões dos especialistas entrevistados pela reportagem, além de histórias de sucesso de integração entre família e escola, você conhece na edição impressa da Profissão Mestre de novembro de 2015.

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Reportagem publicada na edição de novembro de 2015.

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