Eh, companheiro, hum!
Eh, levanta pedra, hum!
Eh, lá vem ela, hum!
Eh, (es)tá pesada, hum!
Eh, bota força, hum!
Eh, lá vem ela acolá, hum!
Eh, companheiro, hum!
Eh, puxa pedra, hum! 

Canto de trabalho de Pernambuco, citado por Mário de Andrade na obra Ensaio sobre a música brasileira 

O canto de trabalho é apenas uma das muitas expressões culturais brasileiras e está presente em todas as regiões do país. Entretanto, muitos desconhecem esse rico patrimônio cultural. Manter viva a cultura popular brasileira é desafio para educadores e escolas e, na opinião de especialistas, o tema deve compor o planejamento anual, contemplar os costumes regionais e fortalecer a identidade brasileira. “A escola é, por excelência, um espaço de circulação de conhecimento, de expressões e valores da sociedade. É o lugar da cultura, de sua produção e reprodução”, afirma Lucila Silva Telles, coordenadora do Setor de Difusão Cultural do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP), do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Lucila acredita que referências dos próprios alunos e da comunidade escolar devem fazer parte dos repertórios culturais a serem explorados pela escola.

Para Cáscia Frade, professora de Cultura Popular na Faculdade Angel Vianna, no Rio de Janeiro (RJ), e responsável pela Coordenadoria de Exposições (Coexpa) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), cabe à escola o importante papel de identificar os aspectos que caracterizam a cultura brasileira e remetem às identidades daqueles que a frequentam. “Reconhecer as diversidades regionais e, ao mesmo tempo, as unidades que costumam perpassá-las é uma forma de torná-las mais atraentes, interessantes, educadoras”. A professora adverte, no entanto, que a cultura popular é dinâmica, sofre adaptações e ajustes, a fim de torná-la contemporânea. “Muitas vezes [a cultura popular] até desaparece, em razão do esgotamento de sua função na sociedade. Pensar em ‘manter viva’ uma cultura regional pode nos levar ao engessamento de aspectos que hoje já não fazem mais sentido para determinado grupo social e, consequentemente, provocar um distanciamento entre escola e vida. Cabe à escola buscar um diálogo harmonioso entre o que ocorre entre seus muros e fora deles”, enfatiza.

Lucila também considera que questões culturais se transformam, uma vez que sociedades, grupos sociais e pessoas mudam. “Os contágios e as trocas de referências são feitos e novas questões são criadas. A cultura sobrevive quando faz sentido para as pessoas, por isso é importante o trabalho de valorização e resgate, com o intuito de mostrar que aquilo tem um significado”, observa.

Izabel Cristina Alves Signoreli, presidente da Comissão Goiana de Folclore e vice-secretária da Comissão Nacional de Folclore, ressalta que, apesar de todas as transformações, é preciso entender que as raízes culturais de um povo não podem se perder no tempo. “É importante que [as raízes culturais] sejam protegidas, preservadas, e devemos buscar formas e locais para que elas possam se perpetuar”, afirma. Izabel defende o desenvolvimento de ação conjunta entre os ministérios da Cultura e da Educação, a fim de que o conteúdo do folclore e da cultura popular seja incluído, de maneira mais ampla, nos ensinos fundamental e médio como disciplina específica, com enfoques teórico e prático, por meio do ensino regular, de oficinas, de observações e de iniciação às pesquisas bibliográficas e de campo.

Propostas pedagógicas

Tornar a escola capaz de dialogar com a cultura da localidade em que está situada é a orientação da professora Cáscia Frade, que sugere que o primeiro passo seja uma pesquisa sobre usos e costumes, linguagem, celebrações, medicina caseira, artesanato, música, culinária, ou seja, as diversas formas de manifestações culturais da comunidade escolar. “Os próprios alunos poderão ser os informantes e, ao mesmo tempo, os pesquisadores, orientados por seus professores. Com base no material recolhido e sistematizado, é hora de buscar possíveis conexões com os conteúdos programáticos”, indica. Cáscia acredita que, dessa forma, há maior aproximação entre a escola e a cultura presente além de seus muros. “A escola não é a única fonte do saber, há instâncias que operam com igual ou maior eficiência, cujos conteúdos possuem valores e lógicas próprias que não podem ser ignorados”, sustenta.

Na Escola Estadual Camilo Dias, de Boa Vista (RR), projeto anual da Feira de Literatura envolve todos os docentes em temáticas relacionadas à cultura. Ano passado, o destaque foi a cultura popular e regional. Segundo o gestor Manoel Antonio Cardoso, foram desenvolvidas desde aulas e oficinas até trabalhos e apresentações culturais. Nem mesmo o perfil do aluno da atualidade, mais focado nas novas tecnologias, compromete o sucesso da ação interdisciplinar. “É necessário que os professores adotem estratégias e metodologias que despertem o interesse e a vontade do aluno de participar dos trabalhos direcionados ao tema proposto”, explica Cardoso. Na edição de 2014, foram apresentados na feira trabalhos referentes a artesanato, lendas e mitos indígenas da região, vida e obra de escritores regionais, culinária regional, elementos da criação do Estado e, ainda, informações relacionadas aos contextos social e cultural que envolvem os países de fronteira com Roraima (Venezuela e Guiana). “Este é o papel da escola: fazer com que os alunos tenham conhecimento de sua cultura, de sua história e do folclore de sua região, para que entendam o significado disso e possam cultivá-lo”, diz o gestor.

Com o objetivo de enriquecer o trabalho em sala de aula voltado à cultura popular e ao folclore, surgiu, em 2001, o grupo Beija-Fulô (foto), composto por educadoras da rede municipal de ensino de São Paulo. No grupo, as integrantes realizam pesquisas sobre herança musical, danças e folguedos brasileiros e as multiplicam nas escolas. “Os professores que participam da formação multiplicam o conhecimento com seus pares e alunos. E esta é a tarefa da escola: propiciar a todos que conheçam mais sua cultura, valorizem e respeitem as diferenças”, afirma a arte-educadora Zeneide Alves, coordenadora do grupo Beija-Fulô e formadora docente. Para Zeneide, é inegável a importância do papel que a escola exerce na formação das crianças em relação ao conhecimento de sua cultura. “A escola é o lugar em que a criança é sensibilizada para as questões sociais. É necessário que o tema [cultural popular] seja abordado e se rompam tradições preconceituosas, hegemônicas, a fim de que possa ser desenvolvida uma orientação ética, de aceitação das diferenças e valorização da diversidade cultural”, frisa. Além disso, ela defende que a valorização só pode ocorrer por meio do conhecimento: “Só se gosta daquilo que se conhece”.

Para abordar o tema em sala de aula, Zeneide acredita que inicialmente é necessário que o docente tenha sensibilidade. “É fundamental o professor se despir de todo preconceito”, ressalta. A arte-educadora explica que há raízes culturais de várias vertentes, ligadas a raças e religiões. Nas apresentações do Beija-Fulô, que ocorrem em escolas e eventos, procura-se apresentar um repertório variado, contemplando as mais diversas expressões do patrimônio cultural brasileiro, além de cantigas autorais e da memória de amigos e familiares. Ela cita como representações que podem ser trabalhadas na escola as cantigas de roda e de ninar, os cantos de trabalho e do Divino, as congadas, os congos, os sambas-de-roda, as brincadeiras de terreiro, o cacuriá, o bumba meu boi, o boi de mamão, entre tantas outras. Muitas das manifestações culturais vêm da Região Nordeste – como os bonecos gigantes de Olinda, que ilustram essa matéria –, mas a arte-educadora reforça que as expressões culturais estão presentes em todo o país.

Zeneide sugere que a temática seja introduzida na escola desde a educação infantil e que o assunto não fique restrito apenas ao mês Folclore (agosto): “Aí os alunos não entenderão essas representações como questões sociais, mas sim como espetáculo”. A professora ainda orienta que os docentes tirem proveito das tecnologias da informação e proponham atividades de pesquisa. “Antes, era mais difícil obter informações sobre cultura popular e folclore. Essas eram questões distantes e vistas como antigas, sem vida. A tecnologia permite acesso a vídeos e a uma série de informações que podem contribuir para que o aluno conheça mais suas raízes”. No trabalho de formação docente, Zeneide destaca que o repertório tem como proposta promover o reconhecimento e a importância da cultura popular no processo de construção da sociedade brasileira e favorecer um olhar transformador nos ambientes culturais que compreendem toda a comunidade inserida nesse contexto. “O professor tem que ser capturado [pelo tema], aí ele se sensibiliza. E tem que estar aberto a novos conhecimentos, ter curiosidade, ser um professor pesquisador, com interesse no que o aluno traz e com humildade para aprender também com ele e com a família dele”, comenta.

O grupo Beija-Fulô é um exemplo do efeito “capturar” da cultura popular brasileira. As professoras chegam ao grupo por meio da formação ofertada, encantam-se e, quando possível, permanecem, com o intuito de levar as expressões artísticas pelo país afora. Além das apresentações, o grupo lançou os CDs No quintal da nossa casa e Revoada com o cancioneiro popular. Para saber mais sobre o trabalho dos professores brincantes, visite o site www.beijafulo.com.br.

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Relatos de experiência

 

Matéria publicada na edição de agosto de 2015. Confira a matéria na íntegra, com sugestões de atividades, na versão impressa.

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