O professor brasileiro está entre os que mais perdem tempo no mundo com indisciplina em sala de aula. Esse fato foi constatado pela Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis, em inglês), estudo realizado pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) com mais de 100 mil professores de 34 países e divulgado em junho de 2014. Segundo os dados compilados pela instituição, 20% do tempo de aula é perdido, pelos professores brasileiros, para manter o controle dos alunos. O índice é superior à média internacional obtida pela pesquisa, que é de 13%. Logo, é necessário entender os motivos da indisciplina e saber como lidar com os alunos mais indisciplinados, de modo que o tempo de aula seja mais bem aproveitado.

O consenso é que, se existe indisciplina, ela não tem apenas um fato originador, mas sim uma série de “gatilhos” que podem ser divididos em três “culpados”: o professor, a família e o próprio aluno. “Entendo a indisciplina escolar como atitudes de insatisfação que os alunos expressam quanto a uma situação ocorrida na relação pedagógica ou mesmo no encontro pedagógico entre os sujeitos escolares, ocasionadas por diversos fatores. Assim, a indisciplina escolar não apresenta uma causa única, ou mesmo principal, mas uma mistura de fatores que devem ser pensados, fatores internos e externos à escola”, explica Clóvis Brito, professor do Colégio Militar do Paraná e pesquisador da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Dentre os fatores internos, Brito cita o ambiente escolar; as condições de ensino-aprendizagem; a capacidade dos discentes de se adaptarem aos esquemas da escola etc. Já os externos podem ser a influência exercida pelos meios de comunicação; a violência social; o ambiente familiar etc.

A professora Elaine Lopes Novais, doutora em Estudos da Linguagem, concorda e destaca outro fator agravante para esse cenário: a relação aluno-professor. “O professor já não é um mero transmissor de conteúdos e único detentor de saber, participante em cuja performance se apoia uma boa aula e que baseia sua autoridade no respeito unilateral.  Tampouco o aluno assume o papel de receptor passivo e atento aos conteúdos considerados socialmente úteis e importantes. Ele traz consigo uma série de valores, crenças e culturas que deseja ver também valorizados na escola”, esclarece Elaine.

Tendo em vista essa mudança de comportamento do estudante, o educador se vê diante de um desafio: Como manter a atenção de seus alunos? “Temos consciência de que despertar o interesse do aluno não é algo fácil, mas não é impossível. Por isso, envolvê-lo nos processos de ensino e aprendizado e na organização de respostas a problemas e questionamentos lançados pelo professor pode constituir um interessante caminho pedagógico para despertar seu interesse”, sugere Maria Teresa Ceron Trevisol, professora e mestre em Educação. A educadora catarinense defende a ideia de um “contrato pedagógico”, no qual, no início de cada ano letivo, o professor converse com seus alunos e explique a eles os conteúdos que serão trabalhados durante o ano e a importância desses assuntos para a vida pessoal e/ou profissional deles. Cabe aqui também explicitar aos alunos os procedimentos de avaliação, para que todos estejam de acordo com os procedimentos.

Brito, por sua vez, ressalta outros desafios existentes nas salas de aula, como o número excessivo de alunos por sala (que dificulta uma relação mais afetiva do docente com os discentes) e a necessidade de “correr” com os conteúdos didáticos. “Nesses dois exemplos, o professor não tem como pensar na individualidade e muito menos na afetividade de uma relação com todos os seus alunos. No momento em que a escola, por diversos motivos, exige que o docente acelere o programa, nem todos os discentes conseguem acompanhar o ritmo determinado pela escola e, nesse caso, tais alunos apresentarão descontentamento com aquela aula, ou seja, serão de alguma maneira indisciplinados”, explica o pesquisador. Já Elaine destaca um elemento muito comum hoje em dia na sociedade: o celular, visto por muitos professores como “vilão” da educação, mas que deveria ser encarado como cúmplice para uma boa aprendizagem. “O celular pode ser um poderoso aliado em sala, se utilizado para buscar informações que serão discutidas ou para propor atividades que desafiem os alunos”, afirma.

Preparação

Um ponto em que os três especialistas concordam é que o educador deve buscar sempre se aprimorar, pois, se os alunos estão em constante mudança, cabe ao professor também procurar novas formas de trabalhar. “Ele precisa perceber que não é mais possível basear suas aulas somente em um modo expositivo, no qual ele repassa conhecimentos e os alunos copiam e assimilam sem questionamentos”, diz Elaine. Brito completa: “Por se tratar de um fenômeno em constante mutação, é também necessário uma constante atualização para que os professores rompam com conceitos arcaicos sobre a escola e a indisciplina, como pensar, de maneira saudosista, em uma escola que não existe mais, que ficou em épocas passadas”, critica o pesquisador. Já Maria Teresa defende a necessidade do diálogo constante entre gestores, coordenadores, pedagogos e professores para o estabelecimento de um ambiente propício às mudanças sugeridas pelos outros especialistas. “Se essa dinâmica revelar ausência de elementos e de condições de promoção de mudanças, que se possa buscar ajuda e contar com redes de apoio, como profissionais e pesquisadores que atuam nas universidades, entre outras instâncias”, esclarece Maria Teresa. Ela acredita também na formação de comunidades de aprendizagem que possibilitem a formação dos professores tanto dentro quanto fora do ambiente escolar.

Elaine e Maria Teresa ainda destacam o poder de um professor bem organizado em sala de aula. “Quando o aluno observa um professor organizado e bem preparado, sua predisposição se move para participar do processo em curso e envolver-se nele”, afirma Maria Teresa. A professora Elaine complementa que o ambiente da sala de aula também é ideal para uma atividade pedagógica eficiente. “Nenhum outro espaço social é tão propício para a construção do conhecimento de modo ativo como a sala de aula. É nela que diferentes valores, culturas, crenças, visões de mundo convivem diariamente, se confrontam, se constroem e constroem os indivíduos”, declara Elaine.

O papel da escola

A escola também tem sua parcela de responsabilidade nos casos de indisciplina e cabe a ela auxiliar o professor a combater o problema. O pesquisador Clóvis Brito destaca dois momentos principais em que a instituição deve atuar em conjunto com os docentes para lidar melhor com a desobediência: reuniões periódicas para discutir – e não apenas julgar – os casos de indisciplina escolar e o envolvimento concreto dos docentes na elaboração, no conhecimento e na divulgação das normas disciplinares da escola. “A partir do momento que toda comunidade escolar (alunos, responsáveis, professores, administradores e funcionários) se envolve na elaboração das normas da escola, a manutenção da disciplina na relação pedagógica fica mais democrática, pois todos terão conhecimento do que podem ou não fazer dentro daquele estabelecimento e quais serão as consequências”, acrescenta.

A professora Maria Teresa concorda com a ideia, também defendida por Brito, de que uma atuação mais coletiva gera melhores resultados em sala de aula. “Essa base norteadora do fazer da escola compõe o seu projeto político-pedagógico e as dimensões desse projeto deverão direcionar as ações que precisam ser tomadas, considerando os diferentes dilemas do cotidiano relacionados a questões pedagógicas, de relacionamento intra e interpessoal entre alunos, professores e direção, professores e pais, pais e alunos”, explica. A professora cita também como o filme Sociedade dos poetas mortos (direção de Peter Weir) mostra uma sala de aula moderna, “que se caracteriza como espaço de convívio e de aprendizado, com respeito às ideias dos que se encontram naquele espaço e, principalmente, que todas essas experiências e acesso ao conhecimento permitam a ressignificação do pensar e do agir dos que se encontram envolvidos nesse processo”.

Evitar a indisciplina?

Como diz o ditado, é sempre melhor cortar o mal pela raiz. Portanto, será que é possível evitar a indisciplina? Infelizmente, as chances de isso acontecer são mínimas, mas é possível o professor tomar outras medidas além das que já foram citadas até aqui. “O professor deve, além de estar preparado tecnicamente para lidar com esse fenômeno, estar preparado psicologicamente para, mesmo se cercando de diferentes práticas, defrontar-se constantemente com a indisciplina. É importante que os professores tenham consciência de que a indisciplina escolar sempre continuará a existir no ambiente educacional, em todos os níveis de ensino e em todas as matérias”, afirma Brito. O pesquisador crê que, ao se parar de pensar a indisciplina só como problema, mas considerá-la também como um gatilho para algo positivo, a atuação do docente só tem a ganhar. “A indisciplina presente no contexto da escola é um elemento que pode ser pensado como oportunidade de revisão, de reflexão, como possibilidade de reinvenção da prática pedagógica de nossas escolas”, assegura.

A educadora Elaine Novais, por sua vez, confia que, em uma sala de aula em que o aluno tem um canal aberto de comunicação com o professor, o relacionamento entre docente e discente tende a ser melhor e mais proveitoso. “A melhor forma de reduzir a questão disciplinar em sala de aula é por meio do respeito e do diálogo. Quando o estudante percebe que é ouvido, compreendido e respeitado em seus valores, suas ideias, suas crenças e sua cultura, ele muda seu comportamento”, afirma Elaine.

 

As causas da indisciplina

Relacionadas aos professores: pode-se afirmar que esse profissional também assume o “lugar de indisciplinado” quando se omite em exercer seu papel de educador, inclusive de mediador do processo de construção da disciplina dos alunos, ou está destituído de sua função de autoridade de saber. Uma das implicações desse tipo de postura do professor incide na não atribuição de confiança, pelo aluno, a esse profissional. Muitos profissionais da educação, por outro lado, apresentam-se desmotivados, desinteressados pelo processo educativo e pela sua condição de aprendizes, pelas formas de avaliação que não valorizam a atividade discente e são utilizadas como recurso coercitivo, entre outros. Nesse tipo de postura do professor, descomprometida com seus alunos, evidencia-se outro sentido para a indisciplina, identificada como uma “atitude indisciplinada na postura do professor”.

Relacionadas à escola: afirma-se que a instituição escolar também assume o “lugar de indisciplinada” no que se refere à organização, à exposição e ao acompanhamento das regras de funcionamento da escola. Da mesma forma, quando não há clareza em relação ao papel, aos objetivos, aos princípios, à função da escola e às intervenções produzidas nesse contexto, boas intenções acabam perdendo sua finalidade. A escola não pode ser compreendida como a “terra de ninguém”, na qual não há vínculos institucionais, profissionais e afetivos que se estruturam e são estruturados no decorrer do processo; da mesma forma, não pode ser entendida como a “terra do nunca”, construção fictícia, imaginada, no plano do ideal. O desafio é de construção de uma escola real, com um projeto de escola que se interroga continuamente sobre os professores e a formação docente, os currículos e os programas e, sobretudo, a organização do trabalho na escola.

Relacionadas à família: essa instituição social também assume o “lugar de indisciplinada” quando se exime de uma de suas grandes funções sociais, que é oportunizar a construção da base moral, das regras e dos limites, ao permitir que seus filhos possam viver e relacionar-se com outros atores sociais em diferentes ambientes que não o familiar. Deve-se partir da pressuposição de que as crianças não nascem detentoras desse conjunto de conhecimentos sociais, éticos e morais, necessário para viver em sociedade; elas necessitam construí-los, apropriar-se deles, vivenciá-los e, principalmente, atribuir valor a eles, desde a mais tenra idade, em sua família. Nesse sentido, os pais, no contexto familiar, são os principais educadores. Às vezes, ficam meio confusos ante à atitude dos filhos, não sabem como agir e acabam por permitir tudo com medo de que o filho venha a sofrer algum tipo de frustração e/ou trauma. A permissividade exagerada, enquanto a criança é pequena, dificulta, mais tarde, a retirada dessas concessões. Dessa forma, assumindo atitudes como essas, não somente geram indisciplina, mas são indisciplinados por não fornecerem subsídios para que a criança tenha comportamentos adequados no convívio com outras pessoas.

Fonte: Maria Teresa Ceron Trevisol, professora e mestre em Educação

 

10 práticas contra a indisciplina

Com base nos ensinamentos dos especialistas Clóvis Brito, Elaine Lopes Novais e Maria Teresa Ceron Trevisol, confira a seguir boas práticas que o professor deve adotar para coibir e lidar com a indisciplina.

1) Boa relação entre professor e aluno: o aluno pode se “rebelar” contra o educador quando se vê sem espaço na sala de aula. Cabe ao professor dar “voz e vez” para o estudante, de modo que ele se sinta motivado a fazer parte da aula. Cabe aqui o estabelecimento de um “contrato pedagógico” entre docente e discente, tendo em vista formar uma base concreta para um bom andamento das aulas durante o ano letivo.

2) Aulas mais modernas...: o aluno mudou, está mais conectado ao conhecimento e às novas mídias. O professor deve acompanhar essa transformação, modernizando e diversificando suas práticas em sala de aula.

3) ...e contextualizadas: faça uso dos acontecimentos do cotidiano e das notícias para contextualizar o assunto aos alunos e  torná-lo mais próximo deles. Um assunto bem contextualizado ganha outro significado na mente dos jovens.

4) Incentivar a participação de todos: estudante que pouco participa da aula também é considerado indisciplinado. Portanto, procure envolver todos os alunos, preferencialmente colocando alunos com melhor desempenho pareados com os de performance inferior.

5) Diálogo direto: se a indisciplina continuar a ocorrer, não tenha medo de conversar diretamente com o aluno indisciplinado. Assim, é possível conhecê-lo e entendê-lo melhor, podendo potencialmente atrair aquele educando para sua aula e encerrar os atos de indisciplina.

6) Reconhecimento: aluno reconhecido é aluno motivado. Logo, saber elogiar os estudantes quando merecido pode ser uma manobra eficaz para manter o bom ambiente em sala de aula.

7) Clareza sobre a importância dos conteúdos...: quando o aluno entende o motivo de ter que aprender um assunto qualquer, ele se sente mais motivado a prestar atenção e, consequentemente, não irá atrapalhar a aula.

8) ...e sobre as punições: às vezes, professores sentem dificuldades para lidar com alunos indisciplinados por não saberem as sanções previstas pela escola. Tendo esse apoio, o educador pode cuidar desses casos com mais segurança.

9) Formação continuada: por se tratar de um fenômeno com inúmeras causas e facetas, o professor deve estar em constante atualização, para aprender diferentes maneiras de como lidar com a indisciplina.

10) Não ter medo do aluno indisciplinado: o estresse gerado pela indisciplina pode causar certo receio por parte do docente e acabar afastando-o de sua vocação. Portanto, entenda que a indisciplina não é um bicho de sete cabeças e que um aluno indisciplinado pode ser a chave para você reformular sua prática pedagógica e se tornar um professor melhor.

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