É na educação infantil que as crianças recebem a base que sustentará toda sua vida escolar (e pessoal também). Tendo em vista que tanto os métodos de ensino quanto as exigências da sociedade têm evoluído e demandado mais dos indivíduos, o trabalho dos educadores nessa etapa inicial da educação das crianças se torna ainda mais crucial e necessita de fundamentos para ser mais eficaz. É aí que entram as teorias do desenvolvimento psicológico infantil, que ajudam pedagogos e professores a compreenderem os pequenos educandos, de maneira que estes evoluam de acordo com suas capacidades. “Toda atividade docente é mais eficaz se os professores embasarem suas propostas educativas nas teorias de desenvolvimento infantil. Entender como a criança se desenvolve, como aprende, como lida com suas frustrações e conquistas e, diante disso, quais são as etapas de seu desenvolvimento, ajuda o professor a mapear o desenvolvimento infantil e, assim, fazer uso de propostas educativas condizentes”, afirma Luciana Rocha de Luca Dalla Valle, pedagoga especialista em Psicopedagogia e Educação Infantil e coordenadora do curso de Pedagogia da Faculdade Educacional da Lapa (Fael), no Paraná.

Da mesma forma, o psicólogo Cloves Amorim, professor do curso de Pedagogia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e doutorando em Educação, ressalta que na educação infantil atendem-se “crianças, e não alunos; assim, mais que em qualquer outra etapa da vida, precisamos compreender as quatro dimensões do desenvolvimento, que são as mesmas em todas as fases: físico-motora, afetiva, cognitiva e social. Os planejamentos das ações pedagógicas que observarem tais características vão contribuir para estimular o desenvolvimento pleno da pessoa que é o objeto de cuidado e de aprendizagem do profissional”.

Os especialistas também concordam que o trabalho embasado na educação infantil traz benefícios a curto, médio e longo prazos. “A influência imediata diz respeito ao desenvolvimento da autoestima positiva, do autoconceito saudável, da socialização, do desenvolvimento da linguagem e do pensamento, da criatividade, da autonomia e do prazer. Por outro lado, o educador que conhece as teorias de desenvolvimento e as aplica no seu cotidiano formata no educando um vínculo e apego ao trabalho intelectual que possivelmente interferirão ao longo da sua vida escolar e acadêmica”, explica Amorim. O professor Eugênio Cunha, que também é psicopedagogo, conferencista e escritor, acredita que, com esse trabalho, há um desenvolvimento mais harmônico das habilidades cognitivas, sociais e acadêmicas. “Quando a criança executa atividades que desenvolvem a coordenação motora fina, ela adquire maior domínio na escrita durante o processo de alfabetização e nos anos posteriores da escola, evitando, assim, possíveis dificuldades na área da linguagem”, observa.

Além do conhecimento relacionado ao desenvolvimento psicológico infantil, outros aspectos são relevantes ao professor. “Não basta um bom repertório de conhecimento teórico sem amar crianças, sem gostar do lúdico que a tarefa exige”, afirma Amorim (veja no quadro ao final da matéria cinco pontos que o especialista considera fundamentais ao professor). Cunha, por sua vez, ressalta que o profissional de educação infantil deve ser observador, de modo a tornar as atividades um momento mais prazeroso para as crianças. “Tão importante quanto desenvolver atividades com o aluno é observar como ele se comporta diante delas”, diz. E acrescenta: “Porém, não podemos esquecer que será preciso descobrir os afetos do seu educando. É necessário estimular na criança o desejo de aprender. Podemos vincular o prazer naquilo que fazemos com o amor ao despertar no aluno o desejo de aprender”, observa. Para o psicopedagogo, “a escola é uma árvore. A árvore é alimentada e alimenta. [Ela] abriga e ensina aos passantes à sua sombra. Sustenta os que se aconchegam, fazem seus ninhos e, como pássaros, alçam seus voos. E todo esse processo começa na educação infantil”.

O educador, no entanto, não está sozinho nessa jornada. Os especialistas concordam que é preciso se aproximar da família, explicar o trabalho que está sendo feito com os pequenos e tornar os responsáveis pela criança parte integrante do processo educacional. “A criança requer olhar atento e ações comprometidas por parte dos adultos com quem ela convive, quer no espaço institucional, quer no familiar, exercendo funções distintas, mas complementares. Assim, a interação com as famílias das crianças é parte constitutiva da profissão docente na educação infantil”, afirma Amorim.

Luciana defende que a família deve servir de exemplo para as crianças e elenca uma série de atividades (confira no quadro ao final da matéria) que os pais podem realizar com os filhos e que os auxiliam nesse processo de interação com as crianças. A pedagoga lembra ainda: “Como afirma Vygotsky, a linguagem é um fator muito importante no desenvolvimento das crianças, e a família pode ocupar um grande papel nesse sentido, conversando com elas, ouvindo suas hipóteses, desafiando-as, apresentando a elas coisas do mundo e pequenas culinárias”.

As teorias

No campo das teorias do desenvolvimento infantil, dois pesquisadores se destacam por suas obras: o suíço Jean Piaget e o bielo-russo Lev Vygotsky. Para Piaget, o conhecimento resulta da interação das pessoas com seus objetos de estudo. “Piaget destaca justamente que as crianças precisam interagir com os objetos, e a isso corresponde pegar, morder, lamber, encaixar, jogar e outras ações que ela precisa realizar como sujeito, e não expectador”, explica Luciana. Já Vygotsky defendia que o desenvolvimento das pessoas e a construção do pensamento humano se baseiam na importância da linguagem humana, o que torna tudo um processo cultural (saiba mais sobre o pensamento de Piaget e Vygotsky neste link). Os dois teóricos não são os únicos a abordarem o desenvolvimento infantil. A educadora cita também o famoso psicanalista Sigmund Freud, que mapeou o desenvolvimento psicossexual do ser humano, dando à infância um valor especial, que varia de acordo com a idade das crianças.

Já o psicólogo Cloves Amorim relembra outros pesquisadores, como o americano Urie Bronfenbrenner, que escreveu A ecologia do desenvolvimento humano, livro que aponta as estruturas interpessoais como contexto do desenvolvimento humano e concebe o ambiente ecológico como uma série de estruturas uma dentro da outra, como um conjunto de matrioscas (bonecas russas que se encaixam uma dentro da outra); o alemão Erik Erikson, que propôs uma teoria epigenética de desenvolvimento, com pontos conflitantes e consequências de como esses conflitos se resolvem e impactam o curso do desenvolvimento; e o francês Henri Wallon, que define desenvolvimento como o processo pelo qual o indivíduo emerge de um estado de completa imersão social, em que não se distingue do meio, para um estado em que pode distinguir seus próprios motivos das razões oriundas do ambiente.

Luciana, no entanto, faz uma observação importante: “É preciso deixar claro que as teorias que embasam o desenvolvimento infantil dependem do seu autor, da formação dele, do foco dos estudos, mas toda e qualquer teoria de desenvolvimento leva em conta todo o desenvolvimento das pessoas, não somente o infantil”.

Na prática

Tendo como base as teorias, cabe ao professor adaptar suas atividades para obter o melhor desempenho possível das crianças e dos adolescentes, visando sempre ao desenvolvimento dos alunos. Para Amorim, “o conteúdo das atividades deve ser fruto do planejamento construído coletivamente, seguindo as diretrizes para a educação infantil”. O psicólogo dá uma dica de autor para os professores estudarem e elaborarem suas atividades. “Janet Moyles, referência na educação infantil [autora do livro Só brincar? O papel do brincar na educação infantil – Ed. Penso], elaborou e publicou um quadro interessante para a escolha de materiais e do foco da atividade. Ela descreve a dimensão a ser trabalhada e lista para cada uma alguns objetivos: desenvolvimento motor fino, psicomotor e linguístico, criatividade, empatia, conceito de sociedade”, explica.

O psicopedagogo Eugênio Cunha sugere que os educadores dividam e preparem suas atividades de acordo com a idade do aluno, apostando em atividades apropriadas para cada idade (confira as sugestões no quadro abaixo). Por fim, Cunha também acredita que, nos anos finais do ensino fundamental, o professor deve preparar o aluno para o ensino médio, pois “[é] onde muitos desistem da escola. No ensino médio, a escola tende a esquecer do lúdico. Ela passa a ser demasiadamente conteudista, o que é uma exigência da sociedade contemporânea”.

Leia mais

- Os ensinamentos de Piaget e Vygotsky

 

Matéria publicada na edição de março de 2015.

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