Uma pesquisa sobre o uso das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) nas escolas brasileiras, publicada em agosto do ano passado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.Br), apontou que 81% das escolas urbanas no Brasil possuem laboratório de Informática, dos quais 51% contam com profissionais para monitoramento. Também foi verificado que 80% das atividades com TICs acontecem nos laboratórios de Informática.

No entanto, 64% dos professores admitiram ter menos domínio sobre as tecnologias do que seus alunos. Apenas 10% dos estudantes aprenderam a manusear algum tipo de TIC com docentes ou outros educadores nas instituições de ensino, e 48% dos professores já tiveram que recorrer a cursos específicos para se atualizar, enquanto 38% aprenderam sozinhos, 27% com outras pessoas, 7% com outro educador e 2% declararam ter aprendido com os seus próprios alunos.

A falta de afinidade com as tecnologias pode ser consequência de um dado levantado pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco): segundo o estudo Professores no Brasil: impasses e desafios, publicado pelo órgão, “os currículos [dos cursos de formação docente] não se voltam para as questões ligadas ao campo da prática profissional, seus fundamentos metodológicos e formas de trabalhar em sala de aula. Não se observa relação efetiva entre teorias e práticas na formação docente”.

Poucos cursos de licenciatura e pedagogia tratam da informática aplicada à educação. Por outro lado, a expansão do acesso aos meios digitais deu ao aluno uma fartura de informações facilmente confundidas com conhecimento, que competem com o trabalho estruturado em sala de aula.

Ângelo Edval Roman, que é mestre em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e professor das Faculdades Integradas do Brasil (UniBrasil), de Curitiba (PR), defende que é necessário ao docente dominar a leitura e a escrita de novas linguagens. “O docente deste século deve ser um orientador [e indicar] onde colher, tratar e utilizar a informação. O professor, com um giz ou um mouse, necessita estar sintonizado com os desafios de seu tempo”, afirma.

O principal desafio, para Roman, é desenvolver uma competência crítica ainda desconhecida pela maioria dos docentes, no sentido de seleção e decodificação da informação, com a necessidade de um novo tipo de treinamento educacional mediante a informatização e a consequente transformação das instituições de ensino.

Na análise de Roman, a função principal do docente não é mais difusão do conhecimento – já que as mídias digitais podem fazê-lo –, mas mediação e orientação para que os alunos dominem as TICs e possam transformar a informação em conhecimento, e não serem dominados pela tecnologia.

Desafio internacional

Segundo o cientista sênior do Instituto de Estudos para Perspectiva Tecnológica (IPTS) da União Europeia, professor Yves Punie, naquele bloco econômico quase todos os professores concordam que o computador é importante para as instituições de ensino, mas cerca de 54% dos docentes são contra o uso de celulares na aprendizagem, por exemplo.

Dados como esses revelam a resistência em associar tecnologias digitais com os ambientes tradicionais de aprendizagem, o que deixa esses recursos de fora da formação profissional do professor. De acordo com Punie, aproximadamente 90% dos docentes europeus preparam suas aulas com pesquisas na internet, mas em salas de aula, mesmo com recursos de conectividade, os meios mais usados são os audiovisuais, consolidados como recursos aceitáveis na educação formal. O desafio hoje é desenvolver métodos para formar e engajar todos no uso das tecnologias em geral em benefício da aprendizagem.

“Em 2025, os empregos atuais serão obsoletos. Será comum as pessoas mudarem radicalmente o perfil profissional durante a carreira. Atualmente, há necessidade de engajamento na aprendizagem com a aceleração do desenvolvimento dos talentos das pessoas. Estamos numa transição para um momento de ‘alta educação’ [high education, em inglês], no qual a pessoa terá a necessidade de aprender durante toda a vida”, afirma Punie.

Para o pesquisador, as instituições de ensino, assim como as escolas de formação de professores, devem identificar os potenciais e os tipos de tecnologias usadas socialmente, centrar o ensino individualmente no aluno e promover uma implantação holística, com alteração de formas de liderança, currículos, métodos de avaliação, práticas pedagógicas e a habilitação dos professores para uso das TICs e de meios de comunicação.

“Devem-se aproveitar todas as possibilidades da tecnologia na educação para que alunos e professores aprendam a aprender, durante todas as suas vidas fora da sala de aula [lifelong learning] e em todos os lugares que circulam [lifewide learning]”, acredita.

A quem ou ao que recorrer

Como a formação inicial não dá conta de preparar o professor para o uso das TICs, os programas de formação continuada das secretarias e sistemas de ensino podem ser uma alternativa, mas há poucas opções além dos tradicionais cursos de informática e o autodidatismo para o aprimoramento individual do docente.

A Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) acaba de criar uma licenciatura em Educomunicação (para mais detalhes, acesse: www5.usp.br). Há também na ECA/USP especializações nessa área, que apesar de bastante pertinentes têm limitação geográfica, pois as turmas são apenas em São Paulo (SP).

Já o European Pedagogical ICT (EPICT Brasil: www.epictbrasil.com.br) é um sistema de formação de docentes para uso de tecnologias digitais criado há 11 anos pelo Ministério da Educação na Dinamarca que se espalhou internacionalmente, chegando ao Brasil este ano. O EPICT oferece um curso a distância de certificação de docentes do ensino básico para uso das TICs na gestão e mediação dos processos educacionais. Para a inscrição, além de nível superior completo, é necessário ter “alguma fluência tecnológica”, computador próprio e conexão rápida com a internet.

O curso, desenvolvido em parceria com a Federação Nacional das Escolas Particulares, é dividido em dois níveis (128 e 144 horas), formados por módulos que abordam navegadores e ferramentas de busca, formas de integrar a internet no ensino-aprendizagem, redação e edição de textos, ambientes colaborativos, redes sociais, compartilhamento de conhecimento, meios de publicação na web, ferramentas de apresentação de trabalhos, produção audiovisual, software educacional, leitura e produção de imagens, jogos digitais, configuração de computadores, gráficos, fórmulas, diagramas e coleta e registro de dados – entre outros. O custo da matrícula é de R$ 135, e as nove mensalidades são do mesmo valor.

Também há outros cursos e programas de formação destinados aos professores que visam a educação e o uso das novas tecnologias. O próprio Ministério da Educação (MEC) disponibiliza aos docentes o curso Linux Educacional, que pode ser acessado pelo endereço http://linuxeducacional.c3sl.ufpr.br/. Integrado ao programa de formação continuada de professores da rede pública, o curso tem o intuito de fazer com que o professor, a partir do uso das tecnologias digitais como ferramenta pedagógica, tenha suas ações otimizadas e valorizadas no contexto escolar.

Implantação de canais digitais

De acordo com Silvia Dotta, consultora em Ensino a Distância de São Paulo/SP, muitos professores criam canais digitais e perfis em redes sociais para tratar dos assuntos que eles mesmos lecionam, como um espaço colaborativo ou para postar atividades de aula. “Há professores com blogs de sucesso entre seus alunos e até fora da escola”, afirma.

Além de se mostrar antenado, o docente pode usar os recursos para a formação continuada e aperfeiçoamento profissional, como um grupo de professores do Colégio Oswald de Andrade, em São Paulo (SP), que mantém blogs para apoio ao trabalho pedagógico: o Saber na Rede (http://sabernarede.wordpress.com), por exemplo, trata de internet e as tecnologias digitais como locais de aprendizagem; já o Prefácio Cultural (http://prefaciocultural.wordpress.com) aborda assuntos como cinema, literatura e outras artes, enquanto o 12ª Dimensão (http://12dimensao.wordpress.com) lida com temas atuais de Ciência e Tecnologia.

Para o professor André Almeida, autor do Prefácio Cultural, o blog é uma área de extravasamento no qual se pode falar de assuntos que se tornam inviáveis em aula por conta das cargas horárias de cursos regulares – como as literaturas francesa e russa, o cinema e a estética, por exemplo. “O meu público é maior do que os alunos da escola, envolve pais, amigos e ex-alunos”, conta.

Os canais são parte do projeto Blogs do Oswald e contam com apoio da instituição de ensino. Segundo André Meller, coordenador de Comunicação e Projetos do colégio – e também é autor do blog Saber na Rede –, além de manter a escola atualizada com o uso da tecnologia que está no dia a dia dos seus alunos, a ideia inicial era usar as ferramentas de interação com um público mais geral, e não só alunos, ex-alunos, funcionários, pais e docentes, para melhorar tanto a divulgação quanto a produção.

Após estabelecer o perfil desejado dos canais, foram definidos os temas e os responsáveis pela sua manutenção, de modo que as páginas tivessem identidade própria e a marca dos seus autores, sem vinculação a disciplinas específicas. “Usamos uma plataforma gratuita de publicação, o Wordpress. Os custos não são problema. A concepção do projeto é mais marcante”, avalia Meller.

 

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Matéria publicada na edição de outubro de 2012.

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