Até pouco tempo atrás, o que acontecia entre os muros da escola não ultrapassava o portão. Banheiros quebrados, salas com goteiras, merenda ruim ou professores relapsos eram assuntos que diziam respeito apenas àquela determinada comunidade escolar. Na era digital, os problemas cotidianos da educação ganharam exposição em escala nacional.

A internet virou o “trombone” de estudantes insatisfeitos com a infraestrutura das escolas e a qualidade do ensino em todos os cantos do País. O que se passa dentro da sala de aula já não fica mais restrito ao ambiente escolar. Pelo Facebook, os alunos reclamam, denunciam e cobram mudanças. A internet está dando voz a quem não tinha. Apesar de promover melhorias, essa superexposição também vem acompanhada de alguns efeitos colaterais: ataques exagerados, denúncias infundadas e clima de intimidação às vezes ocorrem e chamam a atenção para a necessidade de uma reflexão mais ampla acerca do diálogo e da liberdade de expressão.

Esse fenômeno recente começou com a criação, no ano passado, da página “Diário de Classe”, no Facebook, pela estudante Isadora Faber, aluna da escola municipal Maria Tomázia Coelho, em Florianópolis (SC), para retratar os problemas e o cotidiano da instituição. Com mais de 500 mil seguidores, a página virou um acontecimento midiático e serviu de inspiração para alunos em todo o Brasil. Para o professor associado do Departamento de Educação e do programa da pós-graduação em Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Antônio Álvaro Soares Zuin, esse é  apenas o início de uma nova era nas relações entre educadores e educandos. “Tanto os professores quanto os alunos estão inseridos nessa espécie de ‘olho de furacão’, produzido pela chamada revolução microeletrônica.” Zuin, que também é autor do livro Violência e tabu entre professores e alunos: a internet e a reconfiguração do elo pedagógico, da Editora Cortez, acredita nos benefícios da proximidade nas relações escolares que o universo digital pode proporcionar, entretanto destaca o despreparo das instituições nesse novo contexto. “Os agentes educacionais ainda não estão preparados para lidar com as críticas expostas na rede, justamente porque se trata de um fenômeno relativamente recente. Mas toda crítica feita à determinada escola deveria ser devidamente investigada”, reforça.

Diversas providências, de reparos à demissão de um professor, foram tomadas na escola Maria Tomázia depois das denúncias de Isadora no Facebook. Entretanto, as críticas à instituição e a superexposição negativa na mídia deram origem a um clima de tensão e revolta entre os próprios estudantes e a comunidade escolar. Nem todos concordam com os comentários de Isadora. Para se ter ideia, duas páginas foram abertas no Facebook para mostrar “o outro lado” da história. Em “Nossa Verdade”, a mais recente, são destacados aspectos positivos da instituição de ensino, como a pintura da quadra de esportes. Na outra, também chamada de “Diário de classe”, aparecem notícias de educação e críticas ferrenhas à Isadora, que os administradores da página acusam de execrar os professores. As sequelas desse campo de batalhas ainda estão latentes. Apesar da insistência dos contatos feitos pela Profissão Mestre, ninguém da direção da escola nem da Secretaria Municipal de Educação de Florianópolis quis se manifestar a respeito do assunto.

Foco no aprendizado

O estudante Emerson Mendes, aluno do terceiro ano do ensino médio do Colégio Modelo Luiz Eduardo Magalhães, em Itamaraju (BA), não enfrentou tantos problemas depois que criou a página “Diário de Classe Itamaraju – BA” no Facebook, que mantém com uma colega. “A escola reagiu normal, até me surpreendi, pensei que haveria algumas consequências, mas, pelo contrário, lidaram naturalmente com a situação”, conta. Emerson acrescenta que teve até apoio de alguns mestres. “Quando lancei a página, tive inúmeras conversas com uma professora em relação ao que eu poderia ou não publicar, para não haver complicações”, revela.

A professora Clélia Henriqueta, que acaba de assumir a direção do Colégio Luiz Eduardo Magalhães, diz que acompanha de perto as postagens no Facebook sobre a escola. Clélia já trabalhava na instituição como docente da disciplina de Geografia e conhece bem a realidade do colégio. “Também sabemos das necessidades, porém nem sempre temos o apoio do governo para tomar as providências a fim de resolvê-las”, diz. Clélia não condena a atitude dos estudantes nos diários de classe na internet, porém acredita que eles deveriam se preocupar mais com o aprendizado e menos com a estrutura física da escola. “Os alunos precisam focar mais na aprendizagem, em se preparar para o mundo. O conteúdo é o que eles devem cobrar e exigir dos professores.” A cutucada não é sem razão. Os erros gramaticais saltam aos olhos no “Diário de Classe Itamaraju – BA” e em muitas outras páginas do Facebook com o mesmo intuito.

De cidadãos conscientes e batalhadores por seus direitos, alguns estudantes acabam se tornando “xerifes” de suas escolas, registrando tudo o que acontece com seus celulares, transformando exageradamente o trabalho em missão. “Tudo precisa ser feito com ponderação e clareza, senão os professores acabam se sentindo intimidados e coagidos”, adverte Clélia.

Intimidação e diálogo

O especialista em Direito Educacional Cláudio Pereira Júnior, da CMO Advogados, de Lorena (SP), acredita que o clima de intimidação só ocorre nas instituições em que não existe o diálogo. “Se a escola tiver um diálogo construtivo com os alunos, mantendo contato com a direção, aplicando questionários avaliativos, fazendo entrevistas com os estudantes, etc., é certo que não ocorrerão ofensas pelas redes sociais, pois essas são, certamente, o último grito do aluno”, ressalta. Pereira afirma que um ambiente democrático ajuda a prevenir os abusos na liberdade de expressão.

O professor Antônio Zuin também enfatiza a importância de a escola assumir a tarefa de debater sobre até onde vai o direito de se expressar dos estudantes: “a existência desses limites precisa ser debatida exaustivamente entre professores e alunos. Os limites não podem ser impostos, mas sim discutidos coletivamente dentro das escolas”.

O diálogo aberto e a orientação a pais, alunos e professores, além de evitar os excessos, protegem a escola de abusos. “Caso a escola pratique efetivamente esse diálogo construtivo e mesmo assim sofra algum abuso que lhe cause danos, poderá usar as provas da existência desse diálogo em eventual ação judicial para obter uma liminar exigindo que o aluno retire determinado conteúdo da internet, pois demonstrará a boa-fé e a preocupação com o ambiente escolar”, esclarece Pereira.

Professores também usam a web para criticar

Não são apenas os estudantes que estão aproveitando a repercussão que a web oferece para expor as deficiências da educação pública. Alguns educadores também passaram a defender suas causas no universo digital. É o caso do professor Vinícius Vilella, criador e administrador da página “Caos na Educação”, no Facebook. Vilella ministra as disciplinas de História, Sociologia e Filosofia para alunos de ensinos fundamental e médio da rede estadual do Rio Grande do Sul. O docente resolveu fazer a página no final de 2011 com a proposta de denunciar o descaso com a educação, buscar a valorização e o respeito aos profissionais da área e mobilizar a sociedade para a defesa desses ideais.

Com mais de 12 mil seguidores, o professor publica imagens e denúncias que recebe de colaboradores de todo País, além de tecer críticas ao sistema. Em alguns casos, a divulgação incentiva a resolução do problema, entretanto o objetivo de Vilella vai além desse resultado. “O que realmente espero é a conscientização das pessoas para os problemas da educação no Brasil. Posso afirmar que quando uma pessoa compartilha com seus amigos, alguma imagem acaba contribuindo de alguma forma para a conscientização de mais e mais pessoas”, considera.

Até o momento, o professor gaúcho não sofreu nenhuma retaliação das escolas denunciadas, porém nem sempre as instituições aceitam passivamente a exposição de seus problemas. A docente Uliene Araújo Santa Rosa foi demitida de uma escola municipal em Imperatriz, no Maranhão, depois de postar no Facebook uma foto da sala de aula em que alunos aparecem usando guarda-chuvas para se protegerem de goteiras. A demissão acabou sendo suspensa após a repercussão negativa na imprensa. A Procuradoria Geral do Município, que cuida do caso, não atendeu a solicitação da redação da Profissão Mestre por mais informações sobre o assunto. 

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