A organização de ações efetivamente sustentáveis demanda formação cultural e coloca não apenas instituições de ensino, mas todos os espaços sociais como locais de debate e desenvolvimento de modos de vida que preservem o ambiente que permite a vida. Segundo a bióloga Liege Petroni, coordenadora do Programa Multidisciplinar de Gestão e Educação para a Sustentabilidade, da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (Eppen) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), as ações educativas em todos os níveis devem estimular o pensamento na consecução de formas de desenvolvimento que agreguem a continuidade, em todos os níveis, da contemplação das necessidades das gerações de hoje, garantindo igualmente esse direito às gerações futuras. “Sustentabilidade é mais que agregar valor [econômico] a um produto ou serviço. Ela é um valor que se refere à qualidade de vida, ética, transparência, atuação consciente e responsável, respeito a todas as formas de vida, não apenas a humana. Está atrelada à postura de cidadania, [à forma] como as pessoas agem e atuam, se respeitam, demonstram compaixão e até espiritualidade. É difícil de ser trabalhada porque as pessoas não devem ter esse comportamento somente nas instituições, mas também na família, na sociedade, no trato com o outro, no meio em que está inserida e no consumo”, explica a pesquisadora.

Segundo Liege, a instalação de um programa de sustentabilidade como difusor dessa cultura demanda adesão, ou seja, seus membros precisam ter identificação com alguma causa sustentável e a consciência de que é necessário consumir serviços e produtos que atendam a necessidades identificadas após reflexão, sem impulsos. “É um processo de educação formativa, não apenas informativa”, acredita.

Uma experiência de completa convivência entre a produção da vida, a precaução de geração de diferenças sociais significativas e a harmonia com a terra, em uma cultura de pensar o meio ambiente como essencial à existência sem a subjugação do econômico, está sendo realizada na Escola Latino-Americana de Agroecologia (ELAA). A instituição é sediada no Assentamento Contestado, terra concedida a famílias campesinas beneficiadas em programas de reforma agrária, localizada no município de Lapa, interior do Paraná. “A agroecologia é um conceito não apenas de produção, mas que busca uma estrutura de produção, trabalho, relações humanas e com a natureza para que o campo seja um espaço de vida, convívio e sociabilidades”, explica a educadora Simone Rezende, coordenadora pedagógica da escola.

Ela observa que essa concepção surgiu como uma resistência às pressões do agronegócio, de interesses essencialmente econômicos, as quais, pelas forças de mercado e até com a violência, coagem o camponês a fugir da área rural e se mudar para os centros urbanos, onde as condições ambientais e de vida são cada vez mais precárias. Nesse cenário, a necessidade de acesso à terra e à natureza fazem com que a agroecologia seja trabalhada como uma necessidade também de transformação social, com base na produção de alimentos sem agrotóxicos. Dessa forma, espera-se construir relações para mudar a sociedade, tendo como fundamento as práticas cotidianas.

Embora exista nessa formação um referencial teórico (Paulo Freire, agroecologistas como Ceville Gusmán e Miguel Altieri e a corrente do “ecossocialismo”, tendo com um dos principais expoentes o pensador franco-brasileiro Michel Löwy), o projeto não se fecha em autores, “porque um dos objetivos é a produção do conhecimento pela prática. Assim, não fazemos separação entre o trabalho físico e o intelectual nem damos mais ou menos importância para um ou para outro”, enfatiza Simone.

A ELAA forma técnicos em agroecologia para atuação na pequena propriedade rural e em assentamentos. A instituição também oferece uma licenciatura em Educação do Campo, na formação de professores que atuam nas disciplinas de Ciências da Terra (Física, Química, Biologia e Ciências), nos níveis de ensino fundamental II e médio de escolas rurais. Nesse caso, a produção agroecológica é conteúdo transversal.

O curso de técnico em Agroecologia é mantido com recursos do Programa Nacional da Reforma Agrária (Pronera), e a licenciatura é realizada em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR). A manutenção da escola é feita pelos próprios estudantes, pelas famílias do Assentamento Contestado e por representantes de movimentos sociais campesinos. No geral, é um projeto de educação popular mantido com trabalho voluntário, que tem efeito direto na vida e na concepção agroecológica desses próprios voluntários. “O meio ambiente é uma questão de sobrevivência da humanidade. Por isso, temos que trabalhar com os educadores para [eles] entenderem para além de uma prática individual e de ações pontuais. Não podemos entender que é problema somente do ambientalista identificar a causa do que se vive hoje [problemas sociais e ambientais] e levantar possibilidades de solução. É um problema político de todos”, defende a coordenadora.

Tecnologias

A difusão de uma cultura de relação com o meio ambiente e todas as formas de vida ganhou impulso com a internet, tornando possível aliar o uso educacional das tecnologias da informação e comunicação e concepções pedagógicas que privilegiam o protagonismo de jovens e crianças com o intercâmbio de informações permitido pelos dispositivos digitais. O Instituto Crescer, de São Paulo, promove projetos em que tecnologias digitais são usadas para formação de professores e gestores, desenvolvimento comunitário e qualificação profissional. Um de seus programas, chamado Aprender em Rede, visa criar oportunidades de colocar em contato alunos de diferentes locais do Brasil, a fim de gerar neles mais interesse para a pesquisa e o conhecimento da realidade e da situação do outro. “O objetivo é aproveitar o potencial da internet para crianças, jovens e professores, aliando a tecnologia com temas de interesse relacionados com o currículo, como o meio ambiente”, conta Luciana Allan, diretora técnica do Instituto Crescer e colunista da Profissão Mestre.

O projeto tem como premissas o trabalho em uma ação solidária que utilize o currículo como instrumento para promover o protagonismo infantojuvenil. A criança compartilha informações do local em que vive, o que ele tem de bom, o que acha que precisa mudar, e passa a pensar, com base na troca de experiências, em como deixar esse espaço mais interessante e agradável. “O professor tem que encontrar ganchos para tratar conteúdos curriculares, como geografia, meio ambiente, saúde etc.”, explica a diretora.

Neste ano, o Aprender em Rede (blogaprenderemrede.wordpress.com) fornece essa estrutura para se trabalhar o tema meio ambiente e busca a construção de conhecimento a respeito do assunto articulando a multiplicidade de demandas. “O instituto propõe um direcionamento de como será tratado o tema. Cada escola vai abordar da forma que achar mais pertinente. Nós orientamos as maneiras em que os alunos, junto com os professores, podem olhar para sua realidade, desenvolver uma dinâmica de trabalho e um projeto político-pedagógico com estratégias de abordagem com os estudantes, os quais se assumem como protagonistas em todo esse processo. Com a temática ambiental, queremos dar espaço para a criatividade, pois entendemos que educação é algo aberto, em que pessoas podem trazer ideias e formas diferentes”, defende Luciana.

A participação no projeto, que já está em andamento, ocorre com a solicitação feita pelos professores (de escolas públicas e particulares), sem especificação de disciplina, que recebem orientações semanais em um grupo fechado no Facebook – escolhido por ser uma ferramenta que a maioria já usa para fins pessoais –, as quais são inseridas no projeto político-pedagógico da escola. O docente é o responsável por encontrar a proximidade do tema com a realidade. Dessa forma, ele desenvolve a metodologia de trabalho com os seus alunos, de modo integrado com a troca de experiências com os demais estudantes do país inteiro e, ao final, auxilia a turma a produzir materiais com esse conhecimento para serem compartilhados na própria internet. “Algumas crianças fazem livros, blogs, gravam vídeos como se fosse um programa de TV. Cada escola escolhe o que e a forma de compartilhar esse conhecimento com a rede. O professor, além de ser um facilitador, também aprende em todo esse processo”, conta Luciana.

Experiências de educação para a sustentabilidade

Objetos de aprendizagem

O Instituto Akatu é voltado à mobilização social para a promoção de consumo consciente, de maneira a reduzir a necessidade de se retirar recursos da natureza. O instituto conta com o portal Edukatu (edukatu.org.br), uma rede de aprendizagem que visa incentivar a troca de conhecimentos e práticas sobre consumo consciente entre professores e alunos do ensino fundamental de escolas em todo o Brasil. No Edukatu, são disponibilizados objetos de aprendizagem como vídeos, animações e publicações, que servem de insumos didáticos ao debate de temas como água, alimentos, cadeias produtivas, dinheiro e crédito, energia, mobilidade, mudanças climáticas, resíduos e sustentabilidade. Conheça a cartilha Consciente coletivo, disponível em tinyurl.com/pyplwjj, e o episódio 1 da série de mesmo nome, no link edukatu.org.br/cats/7/posts/92.

Curso on-line

A Fundação Getulio Vargas disponibiliza, no portal FGV On-line (www5.fgv.br/fgvonline), por meio de seu sistema de formação livre, gratuita e a distância, o curso Sustentabilidade, um valor para a nova geração: orientações para o professor do ensino fundamental, de autoria da professora Kellen Dias de Barros. A formação tem como objetivo “analisar o papel do professor na sustentabilidade e propor ideias, análises, vídeos e uma série de outros materiais que o ajudarão a levar uma nova prática de vida aos seus alunos em sala de aula e fora dela também”. Para acessar as 15 horas da formação, é necessário se inscrever no portal. O curso pode ser iniciado imediatamente após o cadastro.

Produção de aplicativo

Alunos do 2º ano do ensino médio do Colégio Salesiano Dom Bosco, em Parnamirin (RN), desenvolveram um aplicativo com curiosidades e dicas sobre consumo e atitudes sustentáveis. O projeto é intitulado Please (Projeto de Lixo, Energia e Água Sustentável Ecológico, aproveitando o trocadilho com o termo em inglês para “por favor”) e substituiu a ideia inicial de produzir folhetos educativos. Para a iniciativa, os alunos utilizaram a plataforma on-line Fábrica de aplicativos, que permite a qualquer pessoa, mesmo sem conhecimento de programação, desenvolver aplicativos básicos. O Please pode ser baixado no endereço app.vc/8please.

Formação on-line

A Universidade Livre do Meio Ambiente (Curitiba/PR) disponibiliza cursos sobre as temáticas ambientais em abordagem transversal com diversas disciplinas. Vários cursos podem ser realizados a distância, por meio do ambiente virtual de aprendizagem Eureka, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Há opções pagas, mas também uma boa quantidade de formações gratuitas no endereço www.unilivre.org.br.

 

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Sustentabilidade X sociedade industrial

 

Matéria publicada na edição de junho de 2015. 

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